O pesadelo escondido na cidade dos sonhos

Críticas Gerais

É curiosamente muito instigante a forma como há abertura para diversas interpretações e provocações diferentes em “Mulholland Drive”, ou “Cidade dos Sonhos” aqui no Brasil, do mestre David Lynch. Não só pelo fato de dar muito pano para manga em conversas de bar acerca dos diversos pontos de vista, mas por conta de nossas próprias mudanças pessoais de análise mesmo. Digo isto, pois quando parei para assistir toda a filmografia de Lynch, comecei pelo “Mulholland Drive” devido à toda a mística envolvendo este, e desde então mudo constantemente minhas considerações. Definitivamente, é um dos mais cultuados de sua carreira, considerado por muitos como o melhor do diretor. Inclusive, recentemente o The New York Times publicou uma lista dos melhores filmes do século XXI, e o longa se encontra em segundo lugar. Normalmente, sempre está presente em posições de destaque mesmo nessas listas. E, devidamente, à época, já era do meu conhecimento todo aquele papo sobre o surrealismo de seus filmes, então fui de braços abertos para mergulhar de cabeça nesse universo lynchiano. Inegavelmente, desde esta primeira experiência até os outros reencontros (da filmografia de Lynch, este foi o que mais reassisti), há uma cena em específico que me assusta literalmente todas as vezes. Na verdade, ela é bastante comentada e considerada por muitos como um dos melhores jumpscares já feitos: a cena do mendigo atrás do restaurante.

Mulholland Drive

Escrito e dirigido por David Lynch, estrelado por Naomi Watts e Laura Harring, “Cidade dos Sonhos” é um thriller dramático e surrealista, lançado em 2001, onde acompanhamos a jornada de Betty (Watts), uma atriz que acaba de se mudar para Los Angeles, ao ajudar Rita (Harring), uma mulher misteriosa vítima de um acidente de carro, que perdeu a memória. Basicamente, a premissa inicial seria essa. Antes de continuarmos, é válido reforçar a possibilidade de alguns spoilers. Porém, na altura do campeonato, depois de assistir esse filme algumas vezes, não sei mais o que seria spoiler e interpretação. A peculiaridade desta produção está na abertura de um grande leque de caminhos que podemos refletir. Sem contar que - depois de tanta aclamação (e o título brasileiro revelar, de certa forma) - todos já sabem que boa parte do filme se trata de um sonho.

Cidade dos Sonhos | movie | 2001 | Official Trailer

 

This is the girl

 

A partir disto, podemos tirar inúmeras conclusões do que cada elemento significa, dada a informação do sonho. E é aqui que entramos na interpretação da cena assustadora do restaurante. Certamente, o filme se passa todo em Los Angeles, a grande cidade dos sonhos repleta de promessas e idealizações de uma próspera carreira estelar, refletida no olhar encantado de Betty. Além disso, tal sensação é transmitida, também, pela forma como Lynch filma a cidade, com um glow ludibriante, somado aos reflexos das luzes tão alucinógenos quanto a forma como a câmera acompanha as estradas e os corredores misteriosos, sob a perspectiva de seus personagens. 

Mulholland Dr. (2001) |

A construção e composição onírica das cenas ressalta a atmosfera enigmática cuja trilha sonora (sempre maravilhosa) de Angelo Badalamenti se torna o eco de algo que não está certo, como se a qualquer momento fôssemos ter aquela sensação de queda repentina nos sonhos. Ou seja, é como se por mais que estejamos acompanhando um sonho, idealizado e moldado pelas aspirações de uma atriz iniciante, os componentes para aquilo se tornar um pesadelo estão sempre ali presentes, escondendo-se pelos becos da cidade.

 

O mendigo e o pesadelo que tentamos esconder

Mulholland Drive Explained | Let's Go To Club Silencio - Film Colossus

Voltando à cena em específico, Lynch estabelece a tensão da cena com uma conversa entre dois personagens misteriosos, dos quais não sabemos exatamente o que são de cada um. Um deles menciona que tem sonhado com aquele restaurante e a presença de uma criatura horripilante atrás do estabelecimento, reforçando o quanto aquele sentimento estava o perturbando. O outro homem sugere para irem até o suposto local para tirar a prova real da existência desta criatura. Com isto, a trilha mantém o suspense ainda maior, enquanto a caminhada dos dois parece durar uma eternidade, até que - simplesmente - surge o rosto totalmente sujo, como se estivesse queimado até, de um mendigo assustador. Da mesma forma que o rosto aparece, ele já se vai, como se ele estivesse lá apenas para assustar mesmo. Outro fator a se destacar é que a cena toda acontece à luz do dia. Não há escuridão aqui, o que poderia nos dar uma ambientação mais típica de horror. No entanto, é justamente este contraste que deixa o jumpscare ainda mais impactante. Como mencionei, na primeira vez assistindo não há como não se assustar, mas em uma segunda também não. Mesmo sabendo o que vai acontecer, a construção lenta e angustiante da caminhada dos personagens até aquele beco é tão perfeitamente calculada, fechando no enquadramento totalmente preenchido pela face apavorante do mendigo, que acabamos nos surpreendendo toda vez. Sem falar do belíssimo trabalho do departamento de maquiagem ao retratar esta personagem como uma criatura grotesca, onde não fica tão evidente o que é exatamente a sujeira. Algo bem parecido com aqueles andarilhos da terceira temporada de “Twin Peaks” (aqueles do “Gotta Light?”, do icônico 8º episódio). Parece uma graxa, ou um amontoado de cinzas, remetendo a algo enterrado e obscuro.

Há muitas interpretações a respeito desse personagem, e a mais comumente usada é a que aquilo representa tudo que há de ruim nessa cidade tão idealizada. Em meio ao caráter onírico da obra, temos o olhar ensolarado de uma Los Angeles promissora, ao passo que temos seu âmbito mais sujo e desigual representado pela figura do mendigo. Isto é, o lado obscuro que Hollywood tenta esconder, joga fora como se não fosse nada. Creio que, de fato, o cerne está aí, mas também vejo esse elemento como a própria consciência de Betty (ou Diane, se preferir) tentando esconder seu sentimento de frustração, como se fosse um espelho do fracasso de sua vida profissional e pessoal. Ou seja, dentro da cidade dos sonhos (de seus sonhos), existe um pesadelo que vive ali, e ela sabe disso. Porém, em uma tentativa de retrair sua decepção, ela o mantém escondido, pois sabe que seus caminhos foram chegando a esse ponto por sua própria culpa. Podemos brincar com a ambiguidade dos fatos quando se trata dos nossos sonhos. Não temos o controle absoluto do que sonhamos ao dormir, mas algo no nosso subconsciente serve como um guia para apontar a direção do enredo dessa história, da qual nossa mente quer exibir nas telonas de nossas mentes, durante as madrugadas. Possivelmente, muito do que aconteceu durante o sonho de fato teve sua versão na vida real, de outras formas. Por exemplo, no sonho, na audiência de Betty, conseguimos ver uma atuação totalmente intensa digna de aplausos. Contudo, o diretor desse filme em pré-produção não se demonstra muito empolgado com a performance da atriz, dando a impressão que no mundo projetado por ela, não foi sua atuação que deixou a desejar, mas sim o desdém dos figurões de Hollywood que nunca a fizeram deslanchar.

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Além disso, durante o sonho testemunhamos uma certa inquietude de Betty para ajudar Rita a descobrir sua verdadeira identidade, como se ela realmente tivesse salvando a vida daquela mulher. Em paralelo, descobrimos que no mundo real, Diane (Betty) encomendou o assassinato de Camilla (Rita) por conta de um amor não correspondido. Isto é, há no sonho uma tentativa de reparo da realidade, impulsionada por um remorso que a assombra desde que o serviço foi realmente feito, vide a chave azul na mesa da sala. Chave esta que, no sonho, abre uma pequena caixa misteriosa, da qual pode servir como uma alusão à sua própria alma ou - como uma outra reinterpretação - à uma falsa tentativa de reverter o que aconteceu. Ou seja, no mundo real a chave era um sinal que o matador de aluguel havia combinado com Diane, a fim de dizer que o serviço estava completo. No sonho, não se sabe muito bem o que a chave abre, até que Betty encontra uma caixa em sua bolsa. É como se, para contornar o luto, Diane não encarasse que Camilla estivesse morta, mas sim presa em algum lugar, trancafiada, e esta chave poderia trazer ela de volta. Claro que isso figurativamente, revelando a culpa que Diane sentia, sabendo que assassinou a mulher que amava. Contudo, em sua cidade dos sonhos havia um pesadelo que tentava esconder. Isso explicaria o motivo em que o mendigo retorna ao final do filme, com a caixa. Nos últimos minutos, presenciamos novamente aquele beco atrás do restaurante. Porém, agora está à noite, em uma ambientação muito mais perigosa e hostil. O mendigo, munido da caixa misteriosa, abre-a e dela se revela um casal de idosos, dos quais no sonho foram companheiros de viagem de Betty em sua chegada à Los Angeles. No sonho, Betty se sentia confortável com o casal, pois foram a sua companhia no momento em que chegava à uma cidade totalmente desconhecida. Já no ‘mundo real’ (ou, pelo menos, fora do sonho principal), a partir do momento em que o mendigo liberta o casal de idosos da caixa, como miniaturas, eles vão direto atormentar Diane em sua casa, assustando-a literalmente. Aliás, aqui está uma cena terrivelmente horripilante também. Diane fica praticamente encurralada por aquele casal que, em sua memória, serviram como conforto para ela, e agora servem como um lembrete de um último surto, antes do iminente fim. Mas afinal, quem seriam esses idosos? Seriam seus pais? Tecnicamente, não importa quem de fato sejam, mas sim o contraste do sentimento que eles causavam em Betty e o que causam em Diane.

The David Lynch Retrospective: 'Mulholland Dr.' | Movie Mezzanine

 

No hay banda

 

Podemos concluir, então, que dentre tantas interpretações, “Cidade dos Sonhos” claramente faz diversas alusões à indústria cinematográfica na forma da frustração de seus realizadores. Existem críticas sobre escolhas de elenco, pressão de produtores executivos e falta de controle criativo do diretor. Inclusive, parte disso complementa sua Trilogia de L.A. (ao lado de “Lost Highway” e “Inland Empire”). Portanto, sim, creio que o mendigo seja a representação da obscuridade hollywoodiana. Entretanto, mais que isso, há uma representação trágica da frustração inerente ao ser humano mesmo. Dentro das nossas próprias frustrações, podem existir os fatores externos, mas sempre terá os internos, ou seja, as consequências de nossos próprios atos. E cada um de nós enfrenta nossas frustrações de diferentes formas, seja na resiliência ou na entrega. E aqui vislumbramos um sentimento genuíno sonhador de Diane, tanto no trabalho quanto no amor. No sonho, fica encantada ao ver o set de filmagens. Já na realidade, sua expressão é completamente diferente no mesmo lugar, ficando totalmente desconfortável com a proximidade do diretor Adam e de Camilla. Além disso, no sonho é possível perceber o amor e o desejo transmitido na cena em que Betty e Rita se beijam. Por outro lado, na realidade, temos uma cena que, a princípio, tem-se a atração e a excitação, da qual é cessada rapidamente por uma frieza distante de Camilla, cogitando o término daquele relacionamento. Por fim, podemos citar as cores, das quais no sonho se mostram bem mais vivas, quentes e brilhantes (com exceção do mendigo, que seria a representação do que Diane tenta esconder), enquanto na realidade tudo se encontra cinza e fria, e sua expressão cansada reflete alguém que já está chegando no seu limite. Tal expressão transborda em um olhar poderoso de ciúmes na cena da festa na casa de Adam, onde Diane conta para Coco sua história de vida e como conheceu Camilla, reforçando que estava sempre à sua sombra. Porém, ninguém ali está realmente interessado em sua história. Diane está sozinha, tendo que presenciar a mulher que ama ao lado de outro homem.

Deconstructing the Duality of Naomi Watts in Mulholland Drive

Finalmente, creio que “Cidade dos Sonhos” nos transporta em uma viagem onírica sobre frustração. Sobre o que poderíamos ser, e nunca conseguimos. E não há nada que possamos fazer, pois tudo já está feito. “No hay banda”. A catártica cena do Club Silencio, com uma apresentação belíssima de Rebekah del Rio cantando “Llorando” revela que tudo ali já está gravado, é só a execução de uma fita, tirando aquele deslumbramento de Hollywood, e evidenciando sua falsidade e plasticidade. Mas, também, revela que só resta silêncio para Diane. Não há banda ou orquestra, há o vazio. O vazio de uma mulher sonhadora que se encontra em um momento da vida de muita frustração. A culpa dá espaço para o vazio, e o vazio dá espaço para o nada, o fim, a conclusão final, a decisão derradeira de Diane de tirar a sua própria vida.

Você já reparou nessa cena em Mulholland Drive? : r/davidlynch

Ademais, um easter egg interessante para os fãs de Lynch é que nesta cena do clube, temos a presença, lá no fundo, de Moira Kelly e Sheryl Lee, a Donna (do “Fire Walk With Me”) e a emblemática Laura Palmer de “Twin Peaks”, respectivamente.

Original Mulholland Drive Movie Poster - David Lynch - Thriller

Em suma, “Mulholland Drive” não é meu filme favorito de David Lynch (comentei um pouco sobre minha paixão maior que é Twin Peaks, a série e o filme, neste texto, recentemente aqui na Peliplat). Porém, certamente, é o que mais revi de sua filmografia e acho que é o mais apropriado para fazer isto, devido ao seu caráter múltiplo de interpretações. Sem dúvidas, é um dos melhores, e a cada visita se torna ainda mais fantástico. A forma não linear como Lynch construiu esta obra é admirável, atraindo-nos para a prazerosa missão de tentar desvendar seus mistérios. Mais tentar do que, propriamente, conseguir. Melhor que isto é apenas deixar o sentimento tomar conta e se deixar levar. Mesmo que seja pavoroso encarar o espelho de nosso reflexo sujo que tentamos esconder. Definitivamente, não se pode dizer que é um terror, portanto é uma sequência que realmente me assusta toda vez que assisto. No entanto, podemos dizer que há um horror desconcertante ao acompanharmos a trágica queda de Diane, e sua tentativa de esconder o que mais lhe atormenta em um lindo sonho delirante.

 

Silencio

 

Horror Actressing: Bonnie Aarons in "Mulholland Drive" - Blog - The Film  Experience
David Lynch ao lado de Bonnie Aarons, atriz que deu vida ao mendigo, nos bastidores de “Cidade dos Sonhos”

Comentários 1

B
Brie Moreno12 de outubro de 2025
meu deus que mendigo medonho kkkkkkk texto excelente 👏🏻👏🏻👏🏻

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