A batalha de Paul Thomas Anderson pelo desamparo humano
DireçãoDa solidão de Magnólia à grandiosidade de Sangue Negro, da nostalgia de Licorice Pizza à síntese em Uma Batalha atrás da Outra, o cinema de Paul Thomas Anderson é sempre sobre a experiência audiovisual e a busca por pertencimento.

Desde seus primeiros curtas — hoje em grande parte disponíveis no YouTube —, Anderson já se mostrava interessado em testar os limites da encenação: até onde a câmera pode ir, o que pode revelar e como transformar personagens ordinários em figuras de alcance universal. Esse gesto inaugural aparece em Jogada de Risco (1996), onde a benevolência de um jogador profissional esconde segredos paternos e uma atmosfera de esquisitice que retornaria em toda sua obra.
Com Boogie Nights (1997), Anderson salta para o épico: acompanha a ascensão e a queda da indústria pornográfica como metáfora do próprio cinema. A câmera em movimento constante e a trilha sonora disputada a cada centavo com o estúdio — de Marvin Gaye a Electric Light Orchestra — não são adorno, mas motor narrativo. Anderson filma os produtores pornôs como autores e os atores como heróis trágicos de um espetáculo de glória e degradação.
Em Magnólia (1999), Anderson reúne um mosaico de personagens desajustados, unidos apenas pela dor e pelo desejo de sobreviver ao dia seguinte. É um filme atravessado pelo luto: a morte de Ernie Anderson, pai do diretor e narrador televisivo popular nos EUA, acentua o tema da ausência paterna como fio condutor. A trilha de Aimee Mann dá coesão emocional a um filme em que a comunicação está sempre em crise: coaches masculinistas expostos, apresentadores de TV terminais, game shows cruéis. Quando tudo parece implodir, a catarse vem em forma de fábula absurda — a chuva de sapos — como se só o irreal pudesse salvar aqueles personagens.

Embriagado de Amor (2002) marca uma guinada intimista. Adam Sandler e Emily Watson vivem um romance marcado por cores simbólicas: o azul contido dele e o vermelho expansivo dela traduzem o choque da paixão. A trilha etérea de Jon Brion guia a narrativa, mais interessada na experiência sensorial do amor do que em respostas racionais. Cinco anos depois, em Sangue Negro (2007), Anderson vai ao extremo oposto: um épico sobre capitalismo, religião e poder, filmado com textura granulada e sem retoques externos de cor. Daniel Day-Lewis encarna Daniel Plainview como um vampiro do petróleo, um “Drácula” corporativo. O clímax brutal é menos uma conclusão de trama que um gesto do cineasta: encerrar sem limites, deixando claro que seu cinema é sempre maior do que as respostas que oferece.
O Mestre (2012) mergulha no poder das crenças e na necessidade de pertencimento. Inspirado de forma oblíqua na Cientologia, o filme se sustenta no embate entre Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman: olhares, silêncios e gestos mínimos que transformam a narrativa em coreografia emocional. Já Vício Inerente (2014), adaptação de Thomas Pynchon, é um mergulho psicodélico nos anos 70. Anderson brinca com as estruturas do filme policial, criando uma comédia trágica em que nada se resolve. É o cinema do delírio: paranoia política, repressões sociais, personagens arrastados pela mesma fumaça que turva a visão do protagonista.
Com Trama Fantasma (2017), Anderson constrói um romance gótico, cruel e claustrofóbico. Cada detalhe do figurino e cada prato servido à mesa se tornam instrumentos de manipulação, enquanto a trilha de Jonny Greenwood (parceiro desde Sangue Negro) envolve o espectador em tensão e fascínio. Licorice Pizza (2021), por sua vez, parece mais leve e nostálgico, mas não menos estranho. Ambientado na juventude dos anos 70, o filme acompanha personagens em trânsito entre adolescência e vida adulta, entre sonhos e frustrações. O elenco — com Alana Haim, Bradley Cooper e Sean Penn — reforça o diálogo entre música, cinema e memória.

Em Uma Batalha atrás da Outra (2025), Paul Thomas Anderson parece reunir todos os fios de sua obra. Se em toda a filmografia encontramos personagens em busca de pertencimento — seja no calor da indústria pornô de Boogie Nights, na orfandade emocional de Magnólia ou na ambição desmedida de Sangue Negro —, aqui essa procura ganha contornos ainda mais urgentes. É um filme sobre personagens que não podem mais se apoiar na sombra de figuras paternas, obrigados a enfrentar o mundo sozinhos.
Em vários momentos, me veio à mente a canção Marvin, dos Titãs, que fala justamente dessa solidão radical: o indivíduo que já não tem mais onde se apoiar, que precisa se reinventar sem qualquer guia. Essa ausência ressoa de maneira particular em Willa, vivida pela excelente Chase Infiniti, que encarna não apenas a herança de tantos personagens órfãos de Anderson, mas também uma geração que precisa se refazer a partir do vazio.

O gesto final de Anderson é menos sobre respostas do que sobre resistência: filmar o desamparo, mas também a potência de continuar. Seu cinema, desde o início, foi sempre sobre isso — encontrar, na experiência audiovisual, uma forma de comunicar o intransmissível. Uma Batalha atrás da Outra não é apenas mais um capítulo: é a síntese de um percurso inteiro, e um lembrete de que, no cinema de Anderson, sobreviver já é, em si, uma forma de vitória.























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