“Faça Ela Voltar” é o melhor deprêshow da temporada
Críticas GeraisO segundo semestre tem sido um prato cheio para os fãs do cinema de horror. Tivemos a quarta e última parte da franquia “Invocação do Mal” (que, verdade seja dita, poderia ter sido muito melhor caso James Wan tivesse voltado a assumir a direção). Teve também “A Hora do Mal” e o body horror “Juntos” (que até agora não consegui assistir) mas a grande sensação da temporada até o momento fica por conta de “Faça Ela Voltar”, um dos maiores deprêshows que já vi, mas nesse caso digo isso no melhor sentido possível.
Quem acompanha meus textos já deve ter percebido que ando bastante decepcionado com as produções recentes de terror, e isso não porque eu tenha deixado de amar o gênero, longe disso. Sei o quanto trabalhar com o medo é complicado, afinal, medo é algo tão subjetivo quanto humor, o que torna encontrar o tom e a atmosfera certos um desafio enorme para alcançar um público mais amplo. O que percebo, porém, é que muitos filmes andam presos naquele eterno oito ou oitenta: ou explicam demais, entregando visualmente o que acham que o público quer ver, ou se perdem em labirintos de abstrações que quase ninguém consegue decifrar (Sim, “Skinamarink”, estou falando de você).
Mas de vez em quando aparece aquele raro exemplar que te puxa pela mão e te diz: “aqui, esse caminho você não pegou ainda”. É nesse lugar que vivem os irmãos Danny e Michael Philippou, que criaram uma espécie de nova prateleira no vasto e multifacetado território dos filmes de horror. São filmes intensos, viscerais (literal e figurativamente), carregados de carga psicológica e que, em meio à estranheza que apresentam, conseguem atingir medos universais, com destaque para aqueles envolvendo o processo do luto.

Esse talento tão singular já havia sido mostrado em “Fale Comigo” (2022), onde o luto funciona como válvula de escape que vai detonando tudo para que a situação comece a desandar. Eu me lembro que quando fui ver esse filme com meus amigos, saímos em silêncio da sala, todos com aquele nó no estômago. E não porque fosse um filme exageradamente gráfico ou sangrento, mas justamente porque a situação da protagonista, que no início já não era das melhores, só vai piorando até desembocar naquele final trágico e profundamente triste. O ponto que mais me marcou foi perceber que, diferente de tantos filmes do gênero, “Fale Comigo” foge à estrutura formulaica: ali não existe aquela jornada clássica em que a personagem passa por arcos que a fortalecem para superar suas próprias fraquezas. Ao contrário, os Philippou apostam em um caminho mais estreito, mais humano e cheio de falhas, em que o horror funciona como amplificador das experiências humanas mais incômodas.
Em “Faça Ela Voltar”, essa lógica se mantém, mas eu diria que o filme é até um pouco mais esperançoso do que “Fale Comigo”. Há um caminho muito mais longo e tortuoso até que algo realmente dê certo para alguém, e não vou me estender para não entregar nenhuma das conclusões do longa.
A premissa do filme é simples: Laura (Sally Hawkins) é uma mulher devastada pelo luto da perda da filha biológica Cathy, e ela acaba adotando Andy (Billy Barratt) e Piper (Sora Wong), uma criança com deficiência visual. Ollie (Jonah Wren Phillips), uma criança reclusa e silenciosa, completa esse núcleo familiar disfuncional que vai se revelando carregado de segredos. O que torna tudo ainda mais perturbador é a obsessão de Laura por trazer Cathy de volta, recorrendo a um ritual pesado extraído de fitas VHS, envolvendo rituais ocultos e práticas macabras. Ela pretende usar Piper como um receptáculo para a alma da filha, tentando simular aquilo que causou a morte de Cathy em um ato desesperado. A tensão cresce conforme Andy começa a perceber o que está acontecendo de fato naquela casa, e o filme transita entre o horror sobrenatural e a instabilidade psicológica como poucos conseguem equilibrar.

O que mais me impressionou no filme foi como ele evita dar respostas fáceis, limitando-se a oferecer ao espectador apenas o que é estritamente necessário para que consigamos juntar as peças da história, sem nunca subestimar nossa inteligência. Outra característica forte é que ele não hesita ao provocar. É um filme sem concessões, ou seja, que encara de frente cenas desconfortáveis, como o momento em que Laura permite que uma criança fique embriagada, ou as ações de violência psicológica e física que ela comete para manipular Andy e o ambiente ao redor.
Os efeitos práticos dominam a produção, fazendo com que haja uma sensação de textura, organicidade e densidade na atmosfera que sustenta a história, muito longe do artificialismo que a computação gráfica por vezes imprime. Essa escolha ajuda o espectador a mergulhar de cabeça naquele universo, quase sentindo que ele faz parte do próprio mundo real em que vivemos.
Outro ponto alto do filme é sua sutileza ao lidar com os ícones do terror. Em uma das cenas mais tensas, Ollie está na banheira enquanto Laura implora para que a força demoníaca que o habita envie um sinal de que seu esforço não está sendo em vão. Por um breve instante temos um lampejo do que seria a criatura, mas a imagem é tão rápida e fragmentada que o espectador não consegue nem mesmo processar sua forma. Essa escolha é brilhante, pois estimula a imaginação do público a criar o rosto do mal, que pode ser muito mais terrível do que qualquer definição concreta.
Laura foge do estereótipo maniqueísta clássico de vilã. Ela é, simplesmente, uma pessoa dominada pelo delírio de um luto que não consegue superar, carregando possivelmente culpa e remorso que o filme sugere nas entrelinhas. Mas isso não torna sua tragédia menos perturbadora porque, desde cedo, ela demonstra um sadismo inerente. E isso fica evidente, por exemplo, quando ela despeja seu próprio xixi na cama de Andy para fazer ele acreditar que está tendo um problema de regressão, um ato que é ao mesmo tempo repulsivo e profundamente perturbador, levando-nos a refletir se Laura já não era uma pessoa instável antes mesmo da morte da filha.
O elenco é fortíssimo e muito bem escalado, com detalhes minuciosos de caracterização que enriquecem o realismo da história. Se você olhar com atenção, vai perceber, por exemplo, que Piper usa tênis maior que o tamanho dos seus pés. Isso se deve ao fato de que, para pessoas com baixa visão ou deficiência visual, esse cuidado previne acidentes como tropeços e quedas — um detalhe que reforça o compromisso do filme não apenas em contar uma história surreal de culto, mas em retratar fielmente as particularidades do universo de uma pessoa com deficiência visual.
O filme é claramente de culto, mas isso não significa que o culto em si seja o foco central. É um elemento que move a trama, abre portas e gera consequências, mas o verdadeiro centro são o luto, as fragilidades humanas e a violência do dia a dia: a violência do mundo real, que pode ser tão aterradora quanto qualquer ritual demoníaco.

As fitas VHS, com seus conteúdos bizarros, impactantes e muito bem pensados, reforçam essa atmosfera. São construídas com efeitos práticos, planos amadores, com um passo a passo de “faça você mesmo” que nunca é completamente explicado, o que dá uma nova camada de desconforto para a narrativa, ampliando a estranheza da experiência.
Nada no filme é previsível. A gente entende para onde Laura quer ir logo no começo, mas suas escolhas, as ações que ela toma e as reações das outras personagens são absolutamente imprevisíveis, o que mantém a atenção do espectador colada na tela, sempre tentando descobrir como aquele cenário irá se desdobrar.
O filme é, enfim, um verdadeiro deprêshow, e para alguém como eu, que convive com TAG, assisti-lo no cinema foi um desafio em vários momentos, pois a atmosfera dele me provocava aquela sensação angustiante de crise de pânico e ansiedade. Pensei em sair para respirar, mas a força da trama me segurou firme, e a vontade de acompanhar até o desfecho foi maior.
“Faça Ela Voltar” ainda está em cartaz em algumas salas de cinema e deve chegar em breve aos streamings. Seja na tela grande ou no conforto de casa, assistir a esse filme é uma experiência indispensável para qualquer amante do cinema de horror que procura uma história interessante, envolvente e altamente sensorial.








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