# O Devorador de Almas ## Rio Branco, Mato Grosso - 1847

Críticas Gerais

 

 

 

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**15 de Março de 1847**

Chegamos ao vale que os índios chamam de "Lugar Onde a Terra Chora" há três semanas. Os Bororos fugiram quando souberam de nossa intenção de construir aqui. O cacique, um homem de idade avançada com cicatrizes rituais cobrindo todo o rosto, me olhou com terror genuíno quando mostrei o local escolhido para erguer nossa missão.

"Ipê-Uirapuru mora aqui", disse ele em seu português quebrado. “Ele que come o que vive dentro do peito dos homens. Vocês não devem acordá-lo.”

Ignorei suas superstições pagãs. Como poderia saber que estava cometendo o maior erro de minha vida?

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**3 de Abril de 1847**

Algo terrível aconteceu durante a construção da capela. Estávamos escavando as fundações quando João, nosso melhor carpinteiro, gritou que havia encontrado algo. Descemos todos para ver.

Era uma caverna. Não, não uma caverna - um túnel que descia às profundezas da terra, tão largo que três homens poderiam caminhar lado a lado. Das paredes gotejava uma substância negra e viscosa que cheirava a carne podre e enxofre. O ar que subia de lá era gelado como o hálito da morte.

Mas não foi isso que nos aterrorizou. Foram os ossos.

Milhares deles. Empilhados ordenadamente ao longo das paredes do túnel, formando desenhos intrincados. Crânios de todas as idades - desde bebês até anciãos - todos com o mesmo ferimento: um buraco perfeitamente circular no topo da cabeça, como se algo tivesse perfurado o osso para sugar o que havia dentro.

João desceu primeiro, contra meus protestos. Quando voltou, duas horas depois, estava diferente. Seus olhos haviam perdido toda a vivacidade, tornando-se opacos como os de um peixe morto. Falava monotonamente, como se as palavras viessem de muito longe.

"Ele está acordando", disse João. “Ele está com fome.”

Naquela mesma noite, João desapareceu.

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**10 de Abril de 1847**

Encontramos João esta manhã. Ou melhor, encontramos o que restou dele.

Estava pendurado de cabeça para baixo numa árvore a cem metros da capela, completamente dessangrado. O corpo estava intacto, mas o crânio... Deus me perdoe, o crânio estava vazio. Perfeitamente limpo por dentro, como se algo tivesse sugado não apenas o cérebro, mas toda a substância, deixando apenas o osso.

E havia pegadas ao redor da árvore. Pegadas que não pertenciam a nenhum animal conhecido - eram circulares, com cerca de meio metro de diâmetro, e pareciam queimadas na terra.

Os outros homens querem abandonar este lugar. Eu deveria ouvi-los.

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**18 de Abril de 1847**

Antônio foi o segundo. Depois Manuel. Depois Francisco.

Todos encontrados da mesma forma - corpos intactos, crânios vazios, pendurados nas árvores como oferendas macabras. As pegadas circulares sempre presentes, formando trilhas que levam de volta ao túnel sob a capela.

Tentamos selar a entrada, mas toda manhã a encontramos aberta novamente. As pedras que colocamos estão espalhadas como se fossem galhos secos, e o cheiro que vem de baixo está ficando mais forte.

Agora sei o que os Bororos tentaram me avisar. Ipê-Uirapuru não é um demônio comum. É algo muito mais antigo, algo que existia aqui antes mesmo dos primeiros homens pisarem nesta terra. Os índios sabiam. Eles construíram este lugar como uma prisão, não um templo.

E nós a quebramos.

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**25 de Abril de 1847**

Restamos apenas três. Eu, Tomé e o jovem Pedro, que não para de rezar em voz baixa. Mas as orações parecem não ter efeito algum. Se algo, elas parecem atrair a criatura.

Vi Ipê-Uirapuru pela primeira vez na noite passada.

Não posso descrever adequadamente a visão sem que minha sanidade se desfaça completamente, mas vou tentar. Imagine uma árvore gigantesca, com mais de dez metros de altura, mas feita inteiramente de carne negra e pulsante. O "tronco" é composto de centenas de corpos humanos fundidos uns aos outros, ainda vivos, ainda conscientes, seus olhos se movendo desesperadamente enquanto suas bocas se abrem e fecham em gritos silenciosos.

Os "galhos" são braços - milhares deles, de todas as idades e tamanhos, se contorcendo e alcançando o ar. E no topo, onde deveria estar a copa, há uma única cabeça colossal, careca e cadavérica, com uma boca que se abre como uma ferida, revelando fileiras infinitas de dentes afiados como agulhas.

Mas os olhos... Deus me ajude, os olhos são o pior. São buracos negros que não refletem luz, mas sugam toda a esperança, toda a vida, toda a alma de quem os contempla.

Ipê-Uirapuru emergiu do túnel com um som como mil serpentes sibilando em uníssono. Caminhava sobre suas raízes como pernas grotescas, deixando as marcas circulares que encontramos. E conforme se movia, os corpos que compunham seu tronco sussurravam em coro:

“Alimentem-nos... alimentem-nos... alimentem-nos...”

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**30 de Abril de 1847**

Pedro se foi ontem. Não conseguiu suportar os sussurros que vêm das paredes à noite. Tomé o encontrou esta manhã na beira do poço, preparando-se para descer voluntariamente.

"Ele me mostrou", dizia Pedro, os olhos completamente brancos, “me mostrou como é ser parte de algo maior. Como é nunca estar sozinho novamente.”

Tomé tentou impedi-lo, mas Pedro já não era Pedro. Era algo else usando sua pele. Desceu ao túnel sorrindo, e ouvimos sua risada ecoar das profundezas por horas, até que gradualmente se transformou em gritos, depois em gemidos, depois em nada.

Agora sou só eu e Tomé. E Tomé está começando a ouvir os sussurros também.

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**5 de Maio de 1847**

Tomé tentou me matar esta noite. Acordei com suas mãos ao redor do meu pescoço, mas seus olhos... seus olhos não eram seus. Eram os buracos negros de Ipê-Uirapuru.

"Ele precisa se alimentar", dizia Tomé com uma voz que não era a sua. “E você é o último. O último com alma ainda intacta.”

Consegui escapar, mas para onde posso ir? Estamos a dias de qualquer civilização, e a criatura está por toda parte agora. Suas raízes se espalharam pelo solo como uma teia gigantesca. Posso senti-las se movendo sob meus pés enquanto escrevo.

Os mortos estão andando também. Vi João ontem, ou algo usando o corpo de João. Ele me acenou do limite da floresta, sorrindo com o crânio vazio. Manuel estava com ele, e Antônio, e Francisco, e Pedro. Todos com os mesmos buracos perfeitamente circulares nas cabeças, todos me convidando para me juntar a eles.

"É melhor assim", diziam em uníssono. “É melhor não estar sozinho.”

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**10 de Maio de 1847**

Não consigo mais dormir. Toda vez que fecho os olhos, vejo as visões que Ipê-Uirapuru me envia. Vejo a verdade sobre este lugar.

Antes dos Bororos, antes de qualquer tribo humana, este vale era habitado por uma raça anterior. Eles não tinham corpos como nós - eram pura consciência, pura alma, flutuando livremente pela terra. Mas algo deu errado em sua evolução. Eles começaram a se alimentar uns dos outros, sugando a essência de seus semelhantes para se fortalecer.

O último sobrevivente, o mais poderoso, tornou-se Ipê-Uirapuru - o Devorador de Almas. Mas sem outros de sua espécie para se alimentar, ele começou a definhar. Então os primeiros humanos chegaram.

Os índios antigos conseguiram aprisioná-lo, mas não destruí-lo. Construíram um templo-prisão, selaram as entradas, e se mudaram para longe, passando a lenda de geração em geração como um aviso.

E nós quebramos o selo.

Agora Ipê-Uirapuru está livre novamente, e está faminto após décadas de jejum. Ele não quer apenas me matar - quer minha alma, minha essência, tudo o que me torna humano. E quando terminar comigo, irá atrás dos outros, espalhando-se como uma praga pela terra até que tenha devorado toda a consciência humana.

Tenho que impedi-lo. Mas como se mata algo que já está morto há milênios?

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**15 de Maio de 1847**

Encontrei a resposta nos desenhos nas paredes do túnel. Os índios deixaram instruções, gravadas em pedra com símbolos que só agora consigo decifrar.

O fogo sagrado. Uma fogueira feita com ossos dos mortos, alimentada com sangue voluntariamente derramado, e acesa durante a lua nova. Isso pode queimar não apenas o corpo de Ipê-Uirapuru, mas sua própria essência, impedindo que retorne.

Mas alguém deve ficar para manter o fogo aceso. Alguém deve se sacrificar.

Os sussurros estão mais altos agora. Posso ouvir a criatura se aproximando, suas raízes quebrando a superfície do solo ao redor da capela. Não tenho muito tempo.

Se alguém encontrar este diário, saiba que fiz o que pude. Queimem este lugar inteiro. Salguem a terra. Nunca deixem ninguém construir aqui novamente.

E se virem pegadas circulares na terra, fujam. Fujam e não olhem para trás.

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**16 de Maio de 1847 - Última entrada**

É lua nova. A fogueira está acesa.

Ipê-Uirapuru está gritando nas profundezas - um som como mil almas sendo torturadas simultaneamente. O fogo está funcionando. Posso sentir sua essência se desfazendo, sua maldade antiga finalmente sendo purificada.

Mas o preço é alto. O fogo consome tudo - os ossos, o sangue, e agora... agora está me consumindo também. Minha pele está queimando, mas é um fogo frio, um fogo que queima a alma antes do corpo.

Posso ver os outros agora - João, Manuel, Antônio, Francisco, Pedro, Tomé. Estão livres dos tentáculos de Ipê-Uirapuru, suas almas finalmente em paz. Eles me acenam, me convidando para me juntar a eles na luz.

É belo. É…

[O diário termina abruptamente. As páginas seguintes estão completamente queimadas]

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**Nota do arqueólogo Prof. Eduardo Santos, 1923:**

*Encontramos os destroços da antiga missão exatamente como descrito no diário. O local da capela estava coberto por uma camada de cinzas negras de quase um metro de profundidade, e nenhuma vegetação crescia num raio de cinquenta metros.*

*O mais perturbador foram os ossos. Milhares deles, todos com o mesmo buraco circular no crânio, misturados às cinzas. A análise revelou que pertenciam a centenas de pessoas diferentes, de várias épocas distintas - alguns com mais de mil anos.*

*Recomendo que este local seja declarado zona proibida permanentemente. Durante nossa escavação, três membros da equipe desapareceram, e os outros relataram pesadelos terríveis e a sensação de serem observados constantemente.*

*Mais perturbador ainda: durante a lua nova de nossa última noite no local, juraria ter ouvido sussurros vindos das cinzas.*

*"Alimentem-nos... alimentem-nos... alimentem-nos..."*

*Por segurança, decidimos incinerar todos os materiais encontrados, incluindo este diário. Se alguém estiver lendo isto, significa que nossa tentativa falhou.*

*Que Deus tenha piedade de nossas almas.*

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**Epílogo - Rio Branco, 2024**

A cidade moderna de Rio Branco foi construída exatamente sobre as ruínas da antiga missão. Durante a construção do shopping center em 2019, as escavadeiras encontraram uma camada de cinzas negras. Os engenheiros relataram que nenhum tipo de fundação conseguia se fixar naquele solo, como se algo o rejeitasse.

Depois de três acidentes fatais inexplicáveis no canteiro de obras - todos os trabalhadores encontrados com ferimentos circulares na cabeça - o projeto foi abandonado.

O terreno permanece vazio até hoje.

Mas nas noites de lua nova, os moradores próximos juram ouvir sussurros vindos da terra:

*"Alimentem-nos... alimentem-nos... alimentem-nos..."*

E às vezes, bem às vezes, alguém desaparece.

Sempre durante a lua nova.

Sempre deixando pegadas circulares queimadas na terra.

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