A ESPOSA DO DR. MARCUS

Críticas Gerais

 

 

 

 

 

 

 

*Este diário foi encontrado pela Polícia Civil durante busca na residência da família Santos, após o desaparecimento simultâneo de Ana Santos e seus dois filhos em 15 de dezembro de 2024.*

*Ana Santos, 34 anos, professora de literatura, era casada com Dr. Marcus Vinicius Santos, coordenador da equipe que investigou Rio Branco em outubro/novembro de 2024.*

*Seu marido desapareceu em 16 de novembro. Este diário documenta os 29 dias entre o desaparecimento dele e o desaparecimento dela e das crianças.*

*Algumas páginas estão manchadas com o que parece ser lágrimas.*

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## 📖 **17 DE NOVEMBRO DE 2024**

Marcus não voltou para casa.

Esse é o pensamento que não sai da minha cabeça desde ontem. Ele sempre volta para casa. Mesmo quando viaja para congressos, para pesquisas de campo, para qualquer lugar - ele sempre volta.

Mas ontem ele deveria ter voltado de Rio Branco (que cidade estranha, nunca nem ouvi falar antes) e... nada.

Liguei para o celular dele pelo menos 50 vezes. Vai direto para caixa postal. Liguei para os colegas da equipe - ninguém atende. É como se todos tivessem simplesmente... desaparecido.

A Carla, que é psicóloga da equipe, sempre foi próxima de nós. Conhece as crianças, vem aqui em casa para jantares. Mas quando ligo para ela, uma voz estranha atende e diz que "a Dra. Carla está em tratamento especial".

Que tratamento? Tratamento para quê?

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## 📖 **19 DE NOVEMBRO DE 2024**

Fui à universidade hoje para falar com o departamento de Marcus. O coordenador, Dr. Henrique, me recebeu com uma expressão... estranha.

"Dona Ana", ele disse, “seu marido pediu licença indefinida. Disse que tinha encontrado um projeto de pesquisa muito especial em Mato Grosso e que poderia ficar fora por tempo indeterminado.”

Isso não faz sentido. Marcus JAMAIS pediria licença sem me contar. Jamais ficaria longe das crianças por "tempo indeterminado". Ele ama demais Pedro (8 anos) e Sofia (5 anos).

“Mas ele deixou algum contato? Algum endereço?”

“Só disse que estava bem e que... que a família dele ia entender em breve.”

A família dele? QUE FAMÍLIA? Eu sou a família dele! Eu e as crianças!

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## 📖 **22 DE NOVEMBRO DE 2024**

As crianças começaram a perguntar pelo pai.

"Mamãe, quando papai volta?" - Sofia perguntou ontem, segurando o ursinho que ele deu para ela.

O que eu respondo? Que não sei? Que papai pode ter sido... o que? Sequestrado? Morto? Ou pior - que ele pode ter nos abandonado voluntariamente?

Mas eu conheço Marcus há 12 anos. Ele nunca, NUNCA faria isso.

Pedro, que é mais esperto e observador, percebe que algo está errado. Ontem ele disse: “Mamãe, você está chorando muito ultimamente.”

E estou mesmo. Choro no banho, choro quando eles dormem, choro dirigindo para o trabalho.

Onde está meu marido?

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## 📖 **25 DE NOVEMBRO DE 2024**

Descobri algo.

Investigando os e-mails do Marcus (sei a senha dele), encontrei a última correspondência antes da viagem. Era um relatório sobre "fenômenos anômalos" em uma cidade chamada Rio Branco.

Li por alto - falava sobre desaparecimentos, sobre uma equipe anterior que também sumiu, sobre... coisas que não fazem sentido. Entidades sobrenaturais, pessoas convertidas, conscilência coletiva.

Meu marido é um homem de ciência. Racional. Cético. Por que se envolveria com esse tipo de... fantasia?

A não ser que não fosse fantasia.

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## 📖 **28 DE NOVEMBRO DE 2024**

Telefone tocou às 3h da manhã.

Atendi correndo, achando que fosse Marcus. A voz era dele, mas... diferente. Mais calma. Mais feliz?

“Oi amor. Como você e as crianças estão?”

“MARCUS! Onde você está? Estou desesperada há quase duas semanas! As crianças estão perguntando...”

“Ana, calma. Está tudo bem. Melhor que bem, na verdade. Encontrei algo incrível aqui.”

“Que algo? Onde é aqui? Por que não voltou?”

“Rio Branco, amor. E não voltei porque... porque encontrei minha verdadeira família.”

Senti um frio no estômago.

“Sua verdadeira família? Eu sou sua família! Pedro e Sofia são sua família!”

“Vocês também são família, claro. Mas aqui... aqui é diferente. Nunca me senti tão... completo. Tão amado. Tão parte de algo maior.”

“Marcus, você está falando estranho. Volte para casa. Por favor.”

"Anna..." (ele nunca me chama de Anna) “você e as crianças vão entender em breve. A família está crescendo. E vocês vão fazer parte dela também.”

“Do que você está falando?”

“Amo você, Anna. Amo Pedro e Sofia. Por isso quero que sejam felizes como eu sou agora.”

Ele desligou.

Fiquei acordada o resto da noite, tremendo.

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## 📖 **1º DE DEZEMBRO DE 2024**

As crianças estão agindo estranho.

Ontem de manhã, encontrei Pedro desenhando no quarto. Não desenhos normais de criança - mapas. Mapas detalhados de uma cidade que ele nunca visitou, com nomes de ruas, localização de prédios.

“Pedro, que desenho é esse?”

“É Rio Branco, mamãe. Papai está lá.”

“Como você sabe como é Rio Branco? Nunca fomos lá.”

Ele me olhou com uma expressão estranha, muito madura para uma criança de 8 anos.

“As outras crianças me mostraram, mamãe. Elas vêm conversar comigo quando eu durmo.”

Senti meu sangue gelar.

“Que outras crianças?”

“As crianças de lá. Elas dizem que papai está feliz. E que nós vamos ficar felizes também quando formos encontrar ele.”

Peguei o desenho e rasguei na frente dele. Pedro não chorou. Apenas sorriu e disse:

“Não importa, mamãe. Lembro de tudo de cor mesmo.”

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## 📖 **4 DE DEZEMBRO DE 2024**

Sofia também começou.

Esta manhã ela estava cantando uma música que nunca ouvi. Em uma língua que não reconheço. Quando perguntei onde aprendeu, ela disse:

“A senhora bonita dos sonhos me ensinou. Ela disse que é música para chamar a família.”

“Que senhora bonita?”

“A que cuida das crianças lá no lugar do papai. Ela tem cabelo preto e olhos... olhos que brilham. Ela disse que gosta muito de mim e do Pedro.”

Tentei gravar Sofia cantando, mas quando toco a gravação, só há silêncio. Como se a música não pudesse ser registrada.

As duas crianças começaram a acordar às 3h da manhã. Não choram, não fazem birra. Apenas ficam sentadas nas camas, olhando para a janela na direção oeste.

Direção de Rio Branco.

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## 📖 **7 DE DEZEMBRO DE 2024**

Tentei procurar ajuda profissional.

Levei as crianças no psicólogo infantil. Dr. Roberto as examinou por duas horas.

“Dona Ana, não há nada clinicamente errado com elas. Estão saudáveis, inteligentes, cooperativas. Talvez seja apenas uma reação ao desaparecimento do pai.”

“Mas os desenhos? As canções? O despertar às 3h?”

“Crianças processam trauma de formas criativas. Elas criaram uma fantasia compartilhada para lidar com a ausência paterna.”

Queria acreditar nele. Mas quando estávamos saindo, ouvi Pedro sussurrar para Sofia:

“O doutor não entende. Mas vai entender em breve. Papai disse que todo mundo vai entender.”

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## 📖 **10 DE DEZEMBRO DE 2024**

Eu também comecei a sonhar.

Não são pesadelos. São... belos. Sonho com uma cidade pequena e acolhedora, onde todo mundo se conhece e se cuida. Onde nunca há conflitos, nunca há solidão, nunca há dor.

E Marcus está lá, mais feliz do que nunca o vi. Ele me abraça e sussurra:

“Anna, por que você resiste? Por que escolhe sofrer sozinha quando pode ser feliz conosco?”

No sonho, sempre respondo: “Porque isso não é real.”

E ele sorri: “O que é real, Anna? Sua dor atual? Ou a felicidade que podemos ter juntos?”

Acordo sempre chorando. Mas também... também acordo com saudade dos sonhos.

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## 📖 **12 DE DEZEMBRO DE 2024**

Segunda ligação do Marcus.

Desta vez, não estava sozinho. Ouvia vozes ao fundo - muitas vozes, falando em uníssono, como um coro.

“Anna, você está sofrendo. Posso sentir sua dor daqui.”

“Claro que estou sofrendo! Meu marido desapareceu, meus filhos estão agindo estranho, minha vida virou um pesadelo!”

“Não precisa ser assim. Vocês podem vir nos visitar. Só para conhecer. Só para ver que estou bem.”

“Marcus, isso é loucura. Seja lá o que esteja acontecendo aí, não é normal.”

"Normal?" Ele riu, mas não era a risada dele. Era como se dezenas de pessoas rissem junto. “Anna, o que há de normal em viver separados, solitários, lutando sozinhos contra o mundo? Aqui somos uma família de verdade. Uma família que nunca se separa.”

“As crianças precisam do pai, Marcus. Volte para casa.”

“As crianças VÃO ter o pai. E você VAI ter o marido. Mas aqui. Na nossa nova casa.”

“Não.”

"Anna..." a voz ficou mais suave, mais amorosa. “você já está sonhando conosco. Já está sentindo o chamado. Por que lutar contra algo tão natural?”

Desliguei o telefone. Mas ele estava certo.

Eu estava sentindo o chamado.

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## 📖 **14 DE DEZEMBRO DE 2024**

Hoje tomei a decisão.

Não aguento mais. Não aguento ver as crianças defininhando de saudade do pai. Não aguento mais chorar todas as noites. Não aguento mais os sonhos que são mais reais que minha vida desperta.

Se Marcus encontrou felicidade em Rio Branco, se as crianças estão sendo "chamadas" para lá, se eu mesma sinto essa atração inexplicável…

Talvez seja hora de parar de resistir.

Comprei passagens de ônibus para amanhã. Cuiabá - Rio Branco. Saída às 14h.

Não disse para ninguém onde vamos. Deixei cartas para meus pais, para meus irmãos, explicando que precisamos reencontrar Marcus.

Pedro e Sofia ficaram eufóricos quando contei. Pela primeira vez em semanas, voltaram a ser crianças normais - rindo, brincando, cantarolando.

"Vamos ver papai!" Sofia repetia, pulando pela casa.

"E vamos conhecer nossa família nova!", Pedro adicionou.

Nossa família nova.

Não sei por que essa frase não me assusta mais.

Na verdade, me dá... esperança.

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## 📖 **15 DE DEZEMBRO DE 2024 - ÚLTIMA ENTRADA**

Estamos no ônibus.

São 16h e devemos chegar a Rio Branco às 22h. As crianças dormem no meu colo, mas é um sono tranquilo, pacífico. Pela primeira vez em semanas, não têm pesadelos.

Eu também me sinto... leve. Como se um peso tivesse saído dos meus ombros.

Durante a viagem, outras pessoas no ônibus começaram conversas comigo. Curiosamente, muitas também estão indo para Rio Branco "reencontrar família". Uma mulher disse que o irmão dela ligou de lá dizendo que havia "encontrado sua verdadeira vocação". Um homem contou que a filha dele se mudou para lá e "nunca mais quis saber de sair".

Todos parecem... felizes. Animados. Como eu me sinto agora.

Talvez Marcus tenha razão. Talvez a solidão, a luta individual, o sofrimento em separado não sejam naturais. Talvez a verdadeira felicidade esteja mesmo em pertencer a algo maior.

Posso ver Rio Branco ao longe. É uma cidade pequena, iluminada, acolhedora.

E posso ver pessoas esperando na rodoviária. Muitas pessoas. Como se fosse uma recepção.

Pedro acordou e olhou pela janela.

“Mamãe, eles estão esperando a gente!”

E estão mesmo. Posso ver Marcus entre eles. Mais bonito, mais saudável do que nunca. Sorrindo aquele sorriso que me fez apaixonar há 12 anos.

Ao lado dele, as crianças que Pedro desenhou. E a mulher bonita que Sofia mencionou.

Todos sorrindo. Todos nos esperando.

Minha família verdadeira.

Não sei por que resisti tanto tempo.

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## 📄 **CARTA ENCONTRADA JUNTO AO DIÁRIO**

*Endereçada aos pais de Ana Santos*

*Papai e mamãe,*

*Quando lerem isto, já estaremos em Rio Branco com Marcus.*

*Sei que vão ficar preocupados. Sei que vão tentar nos procurar. Mas por favor, não façam isso.*

*Não porque estamos em perigo, mas porque finalmente estamos seguros.*

*Marcus encontrou algo especial aqui. Uma forma de viver em que ninguém fica sozinho, ninguém sofre, ninguém precisa lutar contra a vida.*

*As crianças são mais felizes do que nunca. Eu sou mais feliz do que nunca.*

*Se sentirem falta nossa, se quiserem nos ver novamente, vocês são bem-vindos. A família sempre recebe novos membros.*

*Mas venham preparados para ficar. Porque quando conhecerem a felicidade que encontramos aqui, não vão querer voltar à vida antiga.*

*Com amor eterno,*  

*Ana, Pedro e Sofia*

*P.S. - Marcus pediu para dizer que o trabalho dele continua. Ele está ajudando outras famílias a se reencontrarem, como nós nos reencontramos.*

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## 🚨 **RELATÓRIO POLICIAL**

**Data:** 20 de dezembro de 2024  

**Investigador:** Delegado Carlos Mendonça  

**Caso:** Desaparecimento família Santos

### **DEPOIMENTOS COLETADOS:**

**Motorista do ônibus (Sr. João Silva):**

*"Família normal quando embarcaram. Mãe parecia cansada, crianças animadas. Durante a viagem, todos ficaram mais... relaxados. Quando chegamos em Rio Branco, tinha uma multidão esperando. Festa de recepção, parecia. Todo mundo muito feliz."*

**Funcionária da rodoviária de Rio Branco (Sra. Maria Costa):**

*"Ah, lembro da família. Chegaram no ônibus das 22h. O marido estava esperando com várias pessoas da cidade. Reencontro emocionante. Crianças correram para abraçar o pai. Foi muito bonito de ver."*

**Prefeito de Rio Branco (Sr. Antônio Lima):**

*"A família Santos se mudou para nossa cidade voluntariamente. Estão muito bem adaptados. Participam da comunidade, as crianças frequentam nossa escola. Não entendo por que haveria investigação policial."*

### **TENTATIVA DE CONTATO:**

Tentativas de contato telefônico com a família Santos resultaram em conversas cordiais onde todos afirmam estar "muito felizes" e "vivendo a melhor fase de suas vidas". 

Recusam visitas de familiares, mas enviam fotos ocasionais onde aparecem sorridentes e saudáveis.

### **STATUS DO CASO:**

**Arquivado em 15 de janeiro de 2025.**

**Motivo:** Família está segura, em local conhecido, mantém contato regular. Não há evidência de crime ou coação.

### **OBSERVAÇÃO PESSOAL DO INVESTIGADOR:**

*Durante a investigação em Rio Branco, fui recebido com hospitalidade excepcional. Cidade tranquila, moradores gentis, ambiente acolhedor.*

*Parte de mim compreende por que a família Santos escolheu ficar.*

*Na verdade... parte de mim considera visitar novamente.*

*Talvez para conhecer melhor essa comunidade tão... especial.*

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## ⚠️ **NOTA FINAL**

*Este diário foi digitalizado e arquivado pela Polícia Civil de Mato Grosso.*

*Durante o processo de digitalização, 3 funcionários solicitaram férias para "visitar o interior" após lerem o conteúdo.*

*2 nunca retornaram ao trabalho.*

*1 enviou carta de demissão de Rio Branco, afirmando ter "encontrado sua verdadeira vocação".*

*O arquivo digital deste diário foi posteriormente restringido a pessoal autorizado.*

*Mas já pode ser tarde demais para conter sua influência.*

*Se você leu até aqui...*  

*Se sentiu empatia pela dor de Ana...*  

*Se compreendeu sua decisão...*  

*Monitore seus sonhos.*  

*Observe suas compulsões.*  

*E se começar a sentir que a vida sozinho é desnecessariamente difícil...*  

*Lembre-se: a família sempre espera.*  

*Mas talvez seja melhor não ir descobrir o que isso significa.*

*Ainda.*

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