Homem torto

Críticas Gerais

Uma música, um som ele aparecia. Assim contava a lenda do homem torto. A primeira vez que isso aconteceu foi quando tocaram aquela macabra música esquisita. A partir daquele dia, Paulo sabia que não teria um minuto de sossego. Ele se esforçou para ouvir a música que tocou alto no som do carro. A única coisa que conseguiu ouvir foi o refrão que dizia algo assim: “a porra da ponte”.

Curioso, Paulo perguntou a seus amigos o que essa frase queria dizer no contexto da canção. Até que alguém entre risos avisou a ele que não era isso. A frase certa da música era: “a porrada come”.

Mesmo assim, não faria a menor diferença, porque a tal cantiga invocou o homem torto, uma entidade que apenas Paulo veria. Ele prometeu que iria atormentar a vida de Paulo por meio de músicas cada vez piores.

A segunda vez que o homem torto apareceu, foi para constrangê-lo de maneira inacreditável. Ele estava sentado no ponto de ônibus. Uma outro som começou a tocar bem baixo, depois foi aumentando:

-Senta, senta, senta, senta…

Era a letra da música. O homem torto apareceu mais uma vez. Riu do constrangimento de Paulo. No ponto de ônibus havia uma velhinha, que ficou olhando para a expressão constrangida do coitado do Paulo que sem saber onde enfiava a cara, foi para casa a pé mesmo. O problema é que o homem torto o seguiria.

-Em breve, estarei mais perto.- sentenciou a entidade. 

Paulo riu da ameaça, achando que aquilo não seria nada demais. Mas devagar começou a musiquinha "Mas fica suave rebola gostosa, Vou virar um ze droguinha, Que eu sei que tu gosta”.

A casa de Paulo se localizava num local muito bom, com acesso a mercados, hospitais, universidades. Vagarosamente começou o trânsito de pessoas perto de sua casa. E a caixa de som, ressonando cada vez mais alta com canções do tipo: “quando tu me jogou no lixo e quem reciclou foram todas tuas amigas”

 De repente começou a lotar. 

Algo no homem torto começou a incomodá-lo, a partir de certo ponto. Fez uma dança estranha com seu corpo torto, uma espécie de rebolado. Aturdido, o coitado do Paulo perguntava: “o que está fazendo”. Mas em breve ficaria claro: jovens de todas as idades começaram a dançar igual ao homem torto. Todo final de semana a rua de Paulo fechava, com som alto e danças estranhas. As pessoas ficavam  tortas iguais ao “Homem Torto”. O que teria causado aquela situação? Seriam as péssimas escolas, o baixo nível educacional? O abandono dos jovens? A despeito de tudo isso, o tal “Torto” se ria da situação de Paulo, já há muitos finais de semana sem conseguir dormir, com as orelhas periclitantes e desenvolvendo síndrome do pânico. Às vezes ia até a sacada de casa, só para se certificar de que realmente era aquilo e lá estava o som no último volume:

“gulugulugulu faz assim o meu peru quando ver uma mulher ele fica todo azul tem uma morena q mora la em bangu toda vez q vai la em casa quer pega no meu peru”

Ficou desolado. Os parentes já não iam a sua casa. Sem dó ou piedade alguma, o homem torto falava baixinho em seu ouvido:

-Você não vai aguentar isso.

 

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