Bip-Bip!
Críticas GeraisO Papa Léguas. Minimalista, caricato, parece que não tem absolutamente nada a dizer, mas tem.
Desde a Grécia é conhecida a história de Aquiles e a Tartaruga, o pobre herói grego que jamais alcança o animal perseguido. Talvez seja essa a origem do Papa Léguas ou talvez o desenho inteiro seja tão somente um alerta contra um problema ancestral da humanidade.
Tudo leva a crer que a tarefa do coiote não é tão difícil. O coiote da vida real corre mais do que o papa-léguas e percebemos que aparentemente as estratégias adotadas para capturar o almoço não são assim tão ruins. Se é desse jeito, por que afinal de contas ele não consegue?
A resposta é simples: não se trata de papa-léguas, nem de coiote. Trata-se tão somente de um aviso. O cartum nos alertava para aquelas coisas que tentamos a todo custo conseguir, só que não. Sabe aquele cara que aposta um milhão na mega-sena na expectativa de ganhar duzentos? Ou aquele incauto que coloca todo o dinheiro na bolsa de valores achando que vai ficar rico? O cartum inteiro é sobre isto: o tempo útil de nossas vidas que investimos em empreendimentos absolutamente inatingíveis e que apesar disso, sempre parecem estar ao alcance.
A relação entre a ave e o coiote é muito parecida com a de capitão Ahab e Moby Dick. Existe uma ideia fixa, uma sensação de invencibilidade que se recusa a ceder um milímetro. Nós espectadores do cartum, achamos bastante óbvio que talvez fosse melhor ele utilizar os parcos recursos para comprar comida. (Parcos naquelas, ele compra dinamite, bomba H, kkk) Mas o coiote, nem coiote é direito, ele se trata mais de um estado de espírito de determinadas pessoas que sempre acham possível conseguir o que querem, apesar dos fatos. Um coiote tem sempre a quase certeza da vitória contra uma presa aparentemente indefesa e assim, devagarzinho, sem perceber, a presa somos nós mesmos
O desenho não é de maneira nenhuma um jeito de convencer as crianças de que não se deve tentar fazer as coisas. Sim, podemos e devemos, no entanto, o que a obra da Warner convida a pensar, é quais das oportunidades perseguidas realmente valem a pena. Durante a febre do ouro nos Estados Unidos, vários coiotes saíram do leste do país, a oeste em busca de ouro e encontraram somente pirita, o “ouro dos tolos”. Existe uma metáfora bastante interessante no cartum que traduz bem isso aí, porque o coiote sempre vai parar no mesmo abismo. Isto é exatamente o que ocorre às vítimas incautas de sites de apostas. Um exemplo clássico de Papa-Léguas é aquela maquininha caça níquel dos bares, que nem sei se existe ainda, numa lógica cruel e ao mesmo tempo bastante engraçada: O sujeito vai, aposta o dinheiro que tem, caso ganhe, ao invés de aproveitar a sorte e ir embora, continua apostando e perde tudo, caindo num grande abismo permitindo a todos ver só a poeira levantar quando ele bate lá no fundo.
Certo dia, um homem chamado Franz Reichelt se jogou da torre Eifel com as pequenas asas que construíra. Ele realmente achou que iria voar. Assim como ele, muitos outros se envolveram nesse empreendimento e perderam a vida. Santos Dumont, no entanto, não, nem os irmãos Wright. O cartum inteiro é um convite à reflexão e o que ele diz, de modo bastante eficiente e engraçado é o seguinte: vá, faça o que quiser, mas se certifique de não estar perdendo seu tempo. Sabemos que não adiantou muito. As casas de aposta estão bombando. Tem gente deixando de comprar comida, preferindo usar o dinheiro do mês para jogar. Não foi em vão. Tenho certeza que sempre tem alguém que entende o recado.




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