Another brick in the wall
Críticas Gerais
Haverá spoiler
Poucas animações foram tão efetivas em transmitir uma mensagem quanto as de Gerald Scarf em “The Wall”, filme clássico da banda Pink Floyd. Não sei dizer se toda filosofia contida nessa narrativa caberia num artigo só.
Tive contato com a história durante a adolescência, em um momento no qual ainda não tinha maturidade para compreender. É uma narrativa não linear, portanto, exige um pouco mais do espectador.
The Wall é um grito contra a opressão. E a animação por diversos momentos grita verdades na cara do espectador.
O conceito do álbum teria nascido de um desejo de isolamento de Roger Waters, cujo pai perdera a vida durante Segunda Guerra Mundial. Roger, em determinado momento da vida, teve vontade de construir em volta de si um muro. E quem nunca partilhou dessa vontade? Muitas vezes castigados pelo bullying, pela indiferença, crueldade, desejamos nos isolar, ficar longe do outro. No entanto, esse muro não é construído de qualquer forma: em determinado momento, por exemplo, vemos os martelos animados de Gerald Scarf caminhando no campo de guerra, algo que parece ser uma referência à filosofia visceral de Friedrich Nietzsche. O filósofo alemão frequentemente utiliza “a filosofia do martelo” com o qual muitas vezes esmaga conceitos e ideias que ele julga erradas. Em outros momentos da obra, algumas músicas proclamam a prioridade dos sentimentos, mais uma ilação a Nietzsche, que vai na contramão da corrente majoritária da filosofia. Esta tradicionalmente prima pela razão.
Um momento clássico é aquele em que o ditador fictício “Pink” sobe ao púlpito e passa a perseguir minorias. Quem não souber entender, achará que existe aí uma apologia. No entanto, ao contrário disso, é sim uma ironia contra as ditaduras. Em decorrência disso, Roger Waters foi classificado como nazista de forma completamente mal intencionada. Longe disso, é um ativista que luta ferozmente contra o totalitarismo.
Talvez a parte mais conhecida do filme, é a da famosa escola do Pink, onde alunos tristes e massificados caminham para um moedor de carne, expondo uma escola que triturava e homogeneização seres humanos. O excerto é uma crítica muito bem feita a uma escola que já não existe mais, apesar de seus indesejáveis resquícios. Um professor frustrado humilha o pequeno “Pink” rindo de seus versos, dizendo que não serviriam para nada. O detalhe é que um dos poemas tem simplesmente o que seriam versos de “Money”, uma das canções mais famosas da banda inglesa. Aqui vai uma observação minha: os professores merecem todo o respeito. Da escola retratada na narrativa, graças a Deus só há resquícios, uma vez que muitas correntes escolares atuais repudiam aquelas práticas.
Não devemos deixar de observar a inacreditável interpretação de Bob Geldoff, uma figura com aparições pontuais, porém fundamentais na esfera da música.
The Wall é um grito de fúria contra as inúmeras opressões da sociedade. As opressões dos ecos bélicos da Segunda Guerra Mundial. De uma escola repressiva e violenta. De uma mãe possessiva; de um sistema capaz de dilacerar qualquer um que não se adeque a ele. Principalmente capaz de castigar uma alma sensível a tudo isto, afinal, muitos passaram por essas mesmas experiências e não foram afetados.
De qualquer forma, as animações cumprem um papel fundamental na obra: o de nós mergulhar no fluido etéreo do mundo de Pink, alguém que no fundo sonhou com uma vida que lhe foi roubada pelos infindáveis moldes do mundo contemporâneo.




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