Branco do Olho

Críticas Gerais

   Começou quando eu tinha três anos. Talvez antes. Sei que minha primeira memória, o momento em que desperto para a consciência, é com Eles. Estou em meu berço, dormindo. Ou prestes a. Não sei se é dia ou noite; não, é noite. Definitivamente. Por causa da escuridão. É noite, tenho três anos, e estou dormindo - as palpebras fechadas são um conforto que nunca mais tive. Não sei dizer se é um sono sem sonhos, ou se imagens do meu dia são jogadas pelo meu subconsciente durante a noite (com o que sonham as crianças?). Mal sei se estou dormindo há horas, ou se acabei de pegar no sono. Sei que durmo. Tranquilo. Em paz.
   Sozinho.
   No começo, é só um ponto branco na escuridão dos olhos fechados. Sequer exatamente branco, na verdade - a idéia de branco é a de algo sacro, imaculado, celeste. Não, não é isso. É um branco leitoso, sujo, como que azedo; como se a escuridão fosse um véu fino subitamente rasgado, e algo por trás começa a vazar por ele. Primeiro um traço minúsculo, que se divide em outros quatro, lentamente se expandindo, seguidos por um longo traço branco por trás. Dedos. Um braço. Garras que se aproximam lentamente, vindas da escuridão por detrás das minhas pálpebras fechadas.
   Eu acordo chorando, abraçando a fraca luz do corredor como minha salvação.
   As noites seguintes, os anos seguintes, são de breves períodos de paz intercalados com essa garra leitosa que se escorre do canto da minha visão de olhos fechados. Primeiro apenas uma, depois duas - três. Se aproximando lentamente, os dedos disformes se abrindo em minha direção, prestes a me agarrar; minha única salvação sendo abrir os olhos e deixar a claridade entrar novamente.
   Aos seis anos, a presença d'Eles se tornou constante: toda noite, ao fechar os olhos, a branquitude suja e perversa de suas mãos começavam a vazar pela escuridão, me gelando a alma e fazendo-me abrir os olhos em desespero, como um afogado que se debate na direção da luz refletida n'água, o suor escorrendo-me da face, um grito infantil que escapava da garganta. Foi nessa época que Eles se tornaram uma realidade inegável para mim; antes, confundia a presença deles com um pesadelo inconsequente que vazava para a realidade, uma espécie sinistra de amigo imaginário que se tornara um stalker cruel. Agora, entretanto, não podia mais escapar do fato de que Eles estavam sempre comigo, sempre à espreita: uma tarde, ao sair para a rua após a escola para brincar com as crianças do bairro de esconde-esconde, e quando chegou a minha vez de procurar as outras crianças, ao encostar o rosto no braço apoiado ao muro e começar a contagem regressiva, a escuridão que tomou meu olho fechado - mesmo durante o dia - conjurou aquela terrível garra agourenta, que fez com que me afastasse do muro em um pulo desesperado. Ele tá olhando, gritaram as crianças ao meu redor, enquanto partiam para cima de mim enraivecidas por minha aparente desonestidade. 
   Foi na mesma época que aprendi também sobre a estranheza de meu caso, e a necessidade de mantê-lo apenas para mim: como sempre, ao começar a pegar no sono, eu encarei Estes monstros e acordei aos prantos. Não era a primeira vez. No começo, meus pais me acolhiam e me levavam para dividir o leito com eles; depois, passaram a me acompanhar na minha cama até eu consegui dormir. Quando a presença Deles se tornou constante, a presença de meus pais se tornou mais e mais distante. Eles compraram um pequeno abajur que me fazia companhia todas as noites; eu me deitava com o rosto virado para a luz acesa, e a parca claridade que refletia sob minhas pálpebras fechadas era o suficiente para mantê-Los afastados e me proporcionava algumas horas de sono - ainda que intranquilo. Mas às vezes, em minha intranquilidade, em meus pesadelos, eu acabava me virando na cama, afastando meu rosto da luz, e no mesmo instante Eles começavam a descer de sua dimensão demoníaca, com suas garras leitosas rumo à minha captura, e novamente eu acordava aos berros, lágrimas escorrendo profusamente. E, cada vez que isso acontecia, a presença de meus pais no meu quarto era certa, mas cada vez mais distante, mais irritadiça, mais desesperançada. Até que, dessa uma vez, eu novamente acordei aos gritos, aos prantos, desesperado, esperando pelo consolo maternal, quando vi a sombra de meu pai no batente da porta, refletido pela luz do corredor, a silhueta escura do cinto em sua mão direita.
   Eu nunca mais chorei. Por este ou qualquer outro motivo.
   (Ao menos a dor em minhas pernas naquela noite me manteve acordado e longe dEles.)
   E eu nunca mais falei sobre Eles com mais ninguém.
   A vida se seguiu normalmente, ou tão normal quanto a presença de meus demônios permitia. Eu adquiri e desenvolvi estratégias para mantê-Los longe de mim. Isso envolvia nunca dormir fora da minha casa, minimizar viagens ao absolutamente necessário, e planejá-las com zelo e discrição. Um abajur sempre ao lado da cama, com uma lâmpada de prontidão caso uma queimasse durante a noite. Duas lanternas na gaveta, com pilhas sempre carregadas. Velas, caso faltasse eletricidade. Claro, isso servia até certo ponto. Minhas manias causaram afastamento durante os anos escolares; amigos eram raros, e mesmo eles notavam algo estranho em mim, uma qualidade indizível que mantinha-me sempre afastado deles; terapeutas sempre notavam que eu mantinha em segredo algo de suma importância, o que por fim me fez simplesmente desistir de qualquer forma de terapia. Namoradas foram poucas, e ficavam por pouco tempo também: na primeira noite comigo, elas invariavelmente achavam fofo, ainda que certamente infantil, um homem adulto dormindo com uma luz acesa; isso logo virava uma piada jocosa antes de se tornar um incômodo intransponível no relacionamento, que logo terminava de vez envolto em recriminações, fofocas com amigas sobre meus comportamentos doentios, e minha resignação em seguir sozinho. E assim continuei, dia a dia. Noite a noite.

 

* * *

 

   Começou como um pequeno ponto escuro no alto da minha vista direita. Ela era quase imperceptível, um incomodo mínimo. Logo, entretanto, reparei num outro ponto negro, desta vez na margem abaixo da vista esquerda. Logo, esse pequeno ponto da vista direita começou a aumentar, tornando-se mais do que um leve incomodo pois, ao fundo deste ponto, eu já podia notar um branco rançoso se derramando para a realidade. 
   Os médicos não sabem o que eu tenho. Segundo eles, minha condição não tem nome; é quase como se, pouco a pouco, meus olhos estivessem desistindo, cansados de uma luta extenuante que eles não podem explicar, mas que faz todo sentido para mim. Colírios, remédios, tudo insuficiente; a cirurgia foi uma opção levantada mas que oferecia poucas garantias, e meu medo de ser apagado por uma anestesia completa e me ver vítima de uma escuridão qualquer na mesa operatória me fez negar veementemente essa hipótese. Logo se tornou claro que a ciência pouco podia fazer por mim, e me recolhi ao meu quarto. 
   É uma questão de tempo; dias, eu diria. No último ano, perdi mais de 70% da visão, e meus olhos se degradam cada vez mais rápido. Ainda consigo enxergar, mas apenas em ambientes largamente iluminados (todas minhas luzes estão acesas o dia inteiro, o tempo todo), e as imagens se mantém ao fundo, quase apagadas. Nas margens, dominando quase tudo, vejo a escuridão, e na escuridão vejo Eles; suas garras leitosas, seu branco pusilânime cada vez mais próximo, esperando ansiosamente pelo fim, depois de todos esses anos, quando não mais luz alguma poderá iluminar minhas pálpebras. Eu vejo o escuro, pela primeira vez em toda a Sua glória eu começo a ver a escuridão que vocês se acostumaram a ter todas as noites; eu anseio por sua inevitabilidade, ainda que breve, enquanto Eles terminam de se aproximar; e anseio por finalmente descobrir a razão desta minha sina, e ser abraçado por esses dolosos e pustulentos amigos de uma vida inteira.

Comentários 1

S
SUNS28 de agosto de 2025
This is so cool! I love how the protagonist ends up going blind. I wonder if there was a way to establish more of a connection between the reaching hands and his mental state, or an experience? Something that tethers this monster, this fear, to his physical self or world! The image of the hands, by the way, also incredible! Can't wait to read more of your work!

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