O algoritmo
Críticas GeraisA lenda do morango do amor
Eles começaram com pequenos testes. Gradualmente, algoritmos obscuros adentravam as mentes de quem quer que portasse uma daquelas estranhas máquinas de bolso. No início, convenciam as pessoas a cumprir tarefas inofensivas, algo insignificantes, nada demais. Contudo, se enganavam todos aqueles que pensavam que os robozinhos eram inofensivos, porque na verdade, cada cidadão da cidade carregava consigo um pequeno espião, capaz de perscrutar os menores atos, cada pequeno pensamento. Monitoravam cuidadosos os passos de seus humanos, que feito, néscios, achavam mesmo que eram donos dos aparelhinhos.
De fato, ninguém sabia muito bem quem havia projetado aqueles robôs. Não havia certeza. Nomes famosos apareciam aqui e acolá na grande mídia, um Steve, outro Steve, etc. Na realidade, encaravam aquelas corporações como alguém que observa um castelo enorme com torres enigmáticas e intransponíveis, feito um gárgula de sorriso amaldiçoado sempre pronto a dar o bot.
F., (só colocarei a sua inicial) era um jovem de percepção muito aguçada e não demorou a notar que havia algo de errado com a ordem das coisas: um terrível panótico se espalhara por toda sociedade e suas torres de observação foram posicionadas nos bolsos de cada cidadão inconsciente do perigo que carregava consigo. F. constatou que eles, sejam quem fossem, utilizavam técnicas de aproximação sucessiva, porque de repente, todo mundo estava pintando desenhos em preto e branco, mandalas relaxantes, coisas assim. Imaginou que aquilo poderia ser uma espécie de moda, um movimento espontâneo das pessoas da internet. Ficou claro que não. Certamente, grupos coordenados estavam disparando algo capaz de controlar o comportamento de internautas incautos, levando-os a se entregar cegamente à arte banal da pintura com lápis de cor ou giz de cera. Aquilo se tratava somente de um passo preparatório para algo maior, que não conseguiria ainda saber do que se tratava.
Os meses se passaram. Crianças, velhos, pessoas de todas as idades se colocavam a serviço da inútil atividade de colorir mandalas. Certo dia, F. notou uma mudança no padrão. As pessoas começaram a consumir um tal morango do amor. Vagarosamente, de repente o movimento foi crescendo feito trilha de John Williams, assim, logo estavam todos colorindo desenhos estúpidos e comendo morangos.
Para F. aquilo era assustador. Pressentiu o enorme risco que estava correndo. Não tinha referências acerca do que fazer, sabia estar claramente lidando com algo típico dos filmes de terror, dos quais era adepto. F. vez por outra gostava de fazer resenhas sobre filmes de terror num periódico chamado Peliplat. Foi justamente escrevendo para este periódico, a respeito de um filme sobre Conde Drácula, veio a sua mente o nome protocolo que deveria adotar: “protocolo bala de prata”, aquele que seria capaz de matar aquele espírito do “embalo”, da falta de personalidade que algoritmos misteriosos estavam insuflando nas pessoas. F. nunca quis saber de algoritmos, sempre achou algo chato e maçante, gora, os algoritmos cobraram seu preço: escravizaram todas as pessoas da cidade, menos F. que se tornara um bastião da resistência.
Faria qualquer coisa que pudesse manter sua mente livre, algo que fosse capaz de quebrar o padrão estabelecido. Nesse momento não interessaria muito seguir regras éticss ou morais, apenas precisava fazer algo capaz de mantê-lo fora dos caminhos determinados pelo algoritmo. Ele não seria escravizado.
Um dia F. acordou de modo estranho.
Passou a mão pelos lábios. Sua boca estava cheia de sangue. Deus! O que exatamente ele havia feito? Havia uma inconsciência parcial, uma espécie de suspensã dos sentidos que não permitia a F. se dar conta do terrível ato que cometera. A boca cheia de sangue… Havia corpos caídos pela casa. Um dois. Tudo estava em silêncio.
Sinceramente, leitor, não tenho coragem de contar integralmente o terrível crime que F. cometera. O fato é que naquela manhã, através de seu ato abominável, vencera o algoritmo, se manteve longe dos padrões. O gosto de ferro na boca era a prova sinestésica de que seu inconsciente o levou a realizar algo singular, que ninguém mais teria coragem de fazer. Sua personalidade estava intacta. O melhor é que não havia mais ninguém em sua casa para reprová-lo.
Lavou a boca para tirar o gosto de sangue. Pegou uma cadeira velha da cozinha. Apesar da vitória sabia que cedo ou tarde a polícia viria para buscá-lo. Resignado, ligou a TV. Imagens mostravam corpos de pessoas com mordidas, sangue escorrendo para fora das casas, gente caída de olho esbugalhado. Pela cidade. Pelo país inteiro. F. deu de frente com a seguinte notícia:
“Nessa manhã, ocorreu algo terrível. Uma epidemia de canibalismo generalizada tomou conta da cidade. Se algum parente seu estiver com olhar estranho, cuidado. Afaste-se imediatamente e chame as autoridades”.
Tarde demais:
F. também foi pego pelo algoritmo. Sem perceber.
Moral da história:
Cuidado para não se tornar os monstros que você combate.
Friedrich Nietzsche!




Comentários 1