Por que as adaptações de games finalmente começaram a funcionar?

Indústria

Não é segredo para ninguém que, durante décadas, adaptações de videogames para o cinema e a televisão foram sinônimos de fracasso criativo. De Super Mario Bros. (1993) a Street Fighter (1994) e Alone in the Dark (2005), não são poucos os exemplos que transformaram propriedades adoradas em catástrofes narrativas, toscas e incapazes de captar o espírito dos jogos originais.  

 

Para ser um pouquinho mais justa, nem todas as adaptações deste passado não tão distante foram um fracasso completo. Embora esteja longe de ser excelente, Terror em Silent Hill (2006), por exemplo, foi competente o suficiente para ainda permanecer na lista de bons exemplos e, na época em que foi lançado, cumpriu o papel de levar a franquia da Konami para um novo público. 

 

Felizmente, as coisas mudaram para melhor nos últimos anos. Talvez nem tanto no cinema, mas séries como Arcane (Netflix), The Last of Us (HBO) e Fallout (Prime Video) provaram que é possível, sim, adaptar games com profundidade e sofisticação para alcançar sucesso crítico e comercial. Mas o que, exatamente, explica essa virada?

Super Mario Bros., de 1993, é um dos maiores exemplos negativos no assunto. Imagem: Buena Vista Pictures 

O passado: adaptações como produtos licenciados

 

Por muitos anos, filmes baseados em games eram encarados como meros produtos licenciados, planejados para lucrar em cima de marcas conhecidas em uma real preocupação com o desenvolvimento em si. Não que a preocupação com o lucro não exista hoje em dia, né, mas o cuidado com o material de origem era muito menor antigamente. E, como resultado, as adaptações pecavam tanto na fidelidade quanto na qualidade. 

 

Além disso, é provável que a indústria cinematográfica ainda não entendesse muito bem como adaptar o complexo universo dos games e soubesse definir ou definir os gostos do público-alvo. É por isso que coisas bizarras, como o já mencionado Super Mario Bros. (1993) acabaram surgindo. O encanador bigodudo da Nintendo estava em alta, enquanto a empresa reinava no mercado de videogames, mas ainda não era tão preciosista com suas marcas como é hoje.

 

É óbvio que, hoje em dia, a Nintendo jamais aprovaria o lançamento de um filme como esse. Mas, naquela época, era muito provável que os executivos olhassem para essa adaptação como a chance de levar a franquia Super Mario para ainda mais pessoas. E embora a empresa tenha licenciado a marca, ela não se envolveu na produção do filme (um dos motivos pelos quais essa ideia resultou num fiasco). 

 

Isso era algo comum na época: os criadores dos jogos raramente participavam do desenvolvimento das adaptações, que eram entregues a roteiristas e diretores que, muitas vezes, não jogavam ou sequer compreendiam a obra original. 

 

Crítica | Super Mario Bros. - O Filme - Plano Crítico
30 anos depois do live-action horrível, Mario enfim alcançou o sucesso nos cinemas com uma excelente animação. Imagem: Nintendo/Illumination 

 

Presente: respeito, colaboração e linguagem 

 

Atualmente, o respeito pelo material original é visível em muitas adaptações, inclusive na animação Super Mario Bros. O Filme (2023), que enfim colocou a franquia da Nintendo no caminho certo quando o assunto é cinema. Shigeru Miyamoto, criador do Mario, esteve envolvido na produção do longa e foi consultado para decisões criativas. O resultado, como a gente já sabe, foi super positivo, tanto que a Nintendo já confirmou uma sequência e, ao que tudo indica, pretende fazer um filme só para o Donkey Kong. 

 

Nesse sentido, outro exemplo recente que vale mencionar é a primeira temporada de The Last of Us. Neil Druckmann, roteirista e diretor criativo da franquia, trabalhou lado a lado de Craig Mazin na série da HBO, garantindo não apenas fidelidade narrativa para uma história extremamente amada, mas também contribuindo para a expansão deste universo. 

 

Perceba que mencionei apenas a primeira temporada, porque, pessoalmente, acredito que a segunda tenha se perdido em muitos sentidos. Aliás, muitos fãs já estão preocupados com o futuro, já que Druckmann e outras pessoas importantes que trabalharam no game não vão mais se envolver na produção da série a partir da terceira temporada. O que isso significará para a qualidade dos episódios, teremos que aguardar para ver. 

A primeira temporada de The Last of Us soube adaptar muito bem o aclamado jogo. Imagem: HBO

Continuando nos exemplos que considero excelentes, temos Arcane, que cria toda uma história profunda para um jogo (League of Legends) que não tem foco na narrativa. É realmente uma expansão muito bem-vinda de um universo já muito amado pelos jogadores, e que não adapta algo que já existe. 

 

Algo similar aconteceu com o elogiado anime Cyberpunk: Edgerunners, que conta uma história paralela na cidade futurista de Night City que vai agradar tanto quem jogou Cyberpunk 2077 quanto quem nunca encostou em um controle. 

 

Quem ama videogames, especialmente aqueles focados em narrativas mais profundas, sabe da complexidade envolvida em adaptar essas histórias para o cinema. É por isso que, em muitos casos, como em Fallout, acredito que uma das melhores alternativas é criar algo totalmente original em um universo já conhecido.

 

É o que eu gostaria de ver da série de Mass Effect, por exemplo. Na verdade, não faria o menor sentido adaptar a história da trilogia original, uma vez que ela depende totalmente das escolhas dos jogadores, do começo ao fim. Pode ser o meu apego à franquia falando, mas eu não ficaria nada feliz em ver a saga do Comandante Shepard indo para um caminho estabelecido pelo roteiro na TV. Justamente porque a graça dos jogos com narrativas ramificadas é que a história e aquele protagonista se tornam seus. 

The Mass Effect games ranked from worst to best | PC Gamer
Uma adaptação da história de Shepard é absolutamente desnecessária e sem sentido. Imagem: BioWare

Qual é o formato ideal?

 

Começo a acreditar cada vez mais que a escolha de adaptar um jogo em seriado é a melhor opção, pelo menos quando estamos falando de universos complexos e com narrativas profundas. Afinal, o formato episódico permite que a história seja explorada sem pressa e, como já mencionei nos exemplos acima, expandida por meio de novos personagens e cenas ou contextos que não existem na obra original. Mas cada caso é um caso. 

 

Os games têm evoluído cada vez mais como mídia narrativa. E como nós, jogadores, estamos no controle do personagem principal, a imersão dessa história é muito maior do que se fossemos apenas o espectador. Às vezes, os jogos nos desafiam a tomar decisões e a fazer coisas que não gostamos ou queremos, mas faz parte da experiência central. Por esse e outros motivos, o desafio de adaptar um jogo com uma narrativa mais complexa é gigantesco e nada fácil. 

 

No fim das contas, a indústria cinematográfica no geral parece estar aprendendo com os erros e acertos das adaptações de games. Embora a expansão da franquia e o lucro ainda sejam prioridades, os estúdios estão preocupados em contratar roteiristas, diretores e um elenco que faça jus ao material original. E com uma comunidade de fãs ativa e vocal, não basta apenas usar o nome da franquia, é preciso entender o que ela representa. 

 

Detetive Pikachu e Sonic: O Filme (ambos de 2020) também lideram essa lista de acertos ao apostarem em adaptações mais leves, mas que agradam fãs de todas as idades. E claro, não dá pra esquecer que o primeiro filme do ouriço azul passou de raspão no fracasso por causa do design inicial do personagem. Felizmente, a resposta negativa fez com que o estúdio reformulasse por completo o visual do Sonic antes do lançamento (ufa, vitória para a comunidade). 

Sonic's live-action design upset the entire internet, so the studio is  changing it | The Verge
Os fãs ainda têm voz (às vezes). O amaldiçoado design inicial do Sonic foi descartado após muitas reclamações. Imagem: Paramount Pictures 

Por fim, vejo a disputa por atenção entre as grandes empresas de streaming como uma motivação a mais para a garantia de qualidade nestas adaptações. E é certo que agora também há maior liberdade criativa: não é mais necessário agradar apenas ao público do cinema tradicional. Muitas adaptações são feitas para o público adulto, partem para formatos experimentais e linguagens visuais pouco convencionais, como nas animações de Castlevania e Cyberpunk. 

 

Sim, ainda temos receio

 

Seja pelo desafio ou pelo histórico nada perfeito, a verdade é que ainda temos receio e mantemos um pé atrás quando uma nova adaptação de games é revelada. Para mim, este é o caso do live-action de The Legend of Zelda e da série de God of War. 

 

Por um lado, boto fé que a Nintendo aprendeu a lição e não permitirá o lançamento de um filme ruim de uma de suas marcas mais preciosas. Mas, por outro, essa é uma história que não tenho a menor vontade de ver sendo contada com atores reais. Se fosse uma animação, por exemplo, estaria muito mais empolgada. Mantenho um sentimento similar sobre God of War.

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A pergunta que 1 milhão de reais: será que Link terá diálogos no filme? Imagem: Nintendo

Apesar do progresso significativo, adaptar um game segue sendo uma tarefa delicada. O desafio é manter o equilíbrio entre fidelidade, inovação e qualidade narrativa e técnica. E a linguagem interativa dos games não pode ser totalmente traduzida nestes casos. O que causa impacto nos jogadores pode soar vazio em um filme ou série se for mal adaptado. 

 

Nem todo jogo tem uma história que se traduz bem para o audiovisual, e talvez muitos estúdios ainda não tenham entendido isso. Afinal, vivemos em um mundo em que a possibilidade de lucrar através de uma franquia já bem estabelecida pode ser o único motivo para aprovar uma adaptação, mesmo que todo o resto indique para o caminho oposto. 

Comentários 1

M
Mari Stocco5 de agosto de 2025
É tão curioso ver como The Last of Us funcionou tão bem na primeira temporada justamente por ter o Druckmann lá, e agora todo mundo já tá de cabelo em pé com a saída dele… Isso diz muito sobre como a presença do criador é essencial pra manter o espírito do jogo. Não dá pra terceirizar o coração da história, sabe?

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