Clube dos cinco da Caverna

Críticas Gerais

Acredito que John Hugues foi o grande diretor dos anos 80. Produções como “Curtindo a Vida Adoidado”, “Gatinhas e Gatões” inundaram nossa Sessão da Tarde e, apesar de parecerem datadas por uma época, possuem um olhar muito importante para o ser humano. 

Darei aqui destaque para um em especial que me chama bastante atenção por seu cunho filosófico. 

Uma das interpretações possíveis para “O Clube dos Cinco” é de que aquela sala de detenção do Ensino Médio, seja uma releitura de “O Mito da Caverna” de Platão. Algo que este filme nos ensina é, sem dúvida, olharmos melhor para nós mesmos, apesar dos outros.

John Bender, interpretado por Judd Nelson, parece claramente um eco de Sócrates na década de oitenta. Com seu espírito rebelde, durante toda a narrativa questiona os ocupantes da detenção acerca de suas próprias identidades. Bender é proveniente de um lar problemático, onde sofre violência e chega até a ser queimado com cigarros.

Dentro da detenção, cada um dos personagens é forçado a olhar com mais cuidado para a parede da caverna, lugar onde tranquilamente repousam as sombras que observam: os estereótipos de suas próprias identidades. Hugues lança um questionamento fortíssimo: será que estamos destinados a ser somente os rótulos que colocam em nós? Durante a década de setenta, a exemplo disso, o Supertramp fez exatamente o mesmo questionamento nos vocais de Roger Hodgson em “The Logical Song”.

A mim parece clara a relação da história com o Mito da Caverna, a partir da propositura do tema de redação aos jovens detentos, responder a pergunta “quem sou eu”, em apenas uma tarde. Graças à colaboração de Bender, o jovem rebelde que se recusa a aceitar as imposições do sistema, a exemplo de Sócrates na antiga Grécia, todos são obrigados a olhar para além dos rótulos que foram colocados neles a fim de perscrutar suas verdadeiras naturezas. Nesse cenário, percebem que experimentam algo em comum, a real e genuína experiência humana onde a dor de existir quase sempre é um acessório indispensável. 

Ao contrário do que possa parecer, Brian não é o nerd com a vida perfeita, mas alguém profundamente machucado pelas marcas do bullying que sofre no colégio, entre outros problemas.  Da mesma forma, longe de ser o atleta perfeito, como todos o vêem, Emílio Esteves é obrigado a encarar sua verdadeira condição: alguém a quem os pais tratam feito um rato de laboratório, porque não admitem perdedores na família. Isso é algo mais comum do que parece. Há um grande número de pessoas que passa por algo assim.

A atriz Molly Ringwald (Claire) deu uma declaração há algum tempo, dizendo que acha o filme muito datado por não ter uma diversidade maior, “etnias diferentes”. Isto pode ser verdadeiro até certo ponto, contudo creio que o diretor fez uma tentativa de olhar para dentro do universo de todos os seres humanos. A dor experimentada por Brian, por exemplo, é somente didática. Quando ele a retrata no filme, faz um convite indireto ao espectador: “certo, esta é a dor dele. Vem cá, caro público, quais os estereótipos que também colocam sobre vocês e apesar deles, quais são suas dores e ansiedades reais? Quem é você aí dentro?”

A própria Claire, percebe o quão fúteis e superficiais são seus esforços para agradar os outros como “A popular” e começa, prestando atenção às agruras dos colegas a tecer conexões mais relevantes. Não devemos ignorar a amplitude da personagem de Molly Ringwald, que hoje se espraia na atitude da maioria das pessoas perante as redes sociais, buscando por mais curtidas, mais views, sem considerar, todavia, quantas dessas conexões são realmente importantes.

Allisson é um claro contraponto: de muitas formas se recusa a ceder às pressões sociais a que os demais cederam. Em seus modos estranhos, na forma exótica que se veste, se comporta, no jeitão meio “outsider” fica implícita mais uma pergunta: “tá, você até pode ser você mesmo. Vai aguentar a pressão que vem junto, ser visto como objeto estranho, esquisito, exótico...Isto não é algo fácil.

Enfim. “The Breakfast Club” é algo muito maior que uma mera sessão da tarde. Trata-se de um convite filosófico para olharmos dentro de nós mesmos rasgando ao meio todos os rótulos e estereótipos que a sociedade por quaisquer razões sempre quer colocar sobre nós.

 

 

 

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