Invasão Zumbi entrega o que The Last of Us não conseguiu

Críticas Gerais

Se houvesse uma medalha de ouro para reprimir suas emoções, eu definitivamente estaria na disputa. Mas, esta semana, estou precisando desesperadamente dar uma boa chorada. Isso só pode significar uma coisa: é hora de assistir Invasão Zumbi.

 O terror sul-coreano de 2016 nunca falha em me transformar numa poça de lágrimas. Estamos falando de um festival de soluços de tirar o fôlego, a melhor maneira que conheço de reiniciar minhas emoções. Espero não ser a única que pensa assim, ou esta será uma leitura no mínimo estranha. Embora muitos filmes mexam com meu coração, por algum motivo, só um me faz chorar muito. E tem zumbis. Mas também tem… catarse.

 

O final de The Last of Us aguçou meu apetite por conteúdo de zumbi, mas foi só um bônus desta vez. Na verdade, a comparação é bastante adequada: ambos são sobre uma dupla de pai e filha em conflito tentando sobreviver ao apocalipse zumbi. Mas, na minha opinião, Invasão Zumbi entrega em menos de duas horas o que The Last of Us vem se atrapalhando para entregar em duas temporadas. Eu até tinha esperanças para a série, mas em algum ponto da segunda temporada sinto que perderam a essência da história. Mas tudo bem. Eu já tenho meu filme de zumbi favorito, que não só tem emoção mais do que suficiente para compensar qualquer série, como também, de uma forma estranha, me liberta.

Tenho tido muitos pensamentos e sentimentos incômodos circulando pela minha cabeça nas últimas semanas. Atrapalhando as coisas, por assim dizer. Nada muito grave, mas, com o tempo, pequenas coisas começam a se acumular. Estou como um ralo, entupido de areia depois de muitas idas à praia. Em algum momento, a represa tem que estourar. Felizmente, sempre sei a quem recorrer quando preciso de alívio emocional.


 

Invasão Zumbi acompanha Seok-Woo, que é viciado no trabalho, e sua filha Soo-An enquanto tentam sobreviver a bordo do trem que vai de Seul a Busan, após ele ser invadido e lentamente dominado por uma horda de zumbis. Mas, apesar da presença constante — e genuinamente assustadora — deles, o filme não é realmente sobre zumbis. Eles são apenas o catalisador para o relacionamento, que é o foco.

Sinceramente, até eu tenho dificuldade em entender o que no filme me emociona tão profundamente. Eu não choro normalmente. Sou sempre a "monstra" que encara com os olhos secos todos os clássicos do cinema que nos fazem chorar. Aquela que lança um olhar ameaçador de lado enquanto todos os outros enxugam as lágrimas assistindo a filmes como Up: Altas Aventuras, Sempre ao Seu Lado ou Sociedade dos Poetas Mortos. Eu queria poder participar, mas é quase impossível para mim deixar meu muro de pedras emocional se quebrar, quanto mais se desfazer em pedacinhos. É por isso que estou nessa situação, para começo de conversa.

 

Às vezes eu queria poder ser normal. Por que tem que ser um filme de zumbi o único que realmente consegue me derrubar? Mas acho que estou começando a aceitar isso. Admito que é estranho, mas se você assistir o filme, vai ver que não é tão absurdo quanto parece.

 

Antes mesmo de a história principal começar a se desenrolar, já sinto um nó na garganta. Soo-An mora com o pai, que está claramente ocupado demais sendo um gestor de fundos de investimento sem coração para cuidar da filha. É seu aniversário, e ele não só se esqueceu que ela já tinha o presente que ele deu, como também perdeu seu recital da escola. Quando ela viu que ele não estava lá, Soo-An nem conseguiu cantar. Tudo isso já foi suficiente para que eu o odiasse.

Se você me apresentar qualquer boa narrativa sobre um pai ausente, eu já estou dentro, mas esta vai além. Ela oferece uma pitada de desgosto, que se desfaz camada após camada à medida que o filme avança. No final, Invasão Zumbi é levado até seu centro mais puro. E, assim como quando corto cebolas, sou cegada por uma cortina de lágrimas no processo.

 

Soo-An é pura demais para qualquer mundo, principalmente um com zumbis. Su-an Kim entrega uma das atuações mais cativantes e sem filtros que já vi, seja de uma criança ou não. Tudo o que ela quer de aniversário é ir a Busan ver a mãe, mas tem tanto medo de ser um fardo para o pai que, aos 10 anos, está pronta para fazer a viagem sozinha. É claro que ela já desistiu há muito tempo da ideia de que seu pai estivesse ao seu lado emocionalmente, se comportasse como um pai. Ela sabe que precisa cuidar de si mesma dali em diante. Implorando ao pai para deixá-la ir, ela diz: "Não vou desperdiçar seu tempo".

Se não fosse pelo apocalipse, eu pensaria que a história foi arrancada das páginas do meu diário de infância. Ou das transcrições das minhas sessões de terapia.

 

Só se passaram 15 minutos do filme e já sinto o muro começando a ceder. Seok-Woo concorda em levar Soo-An para Busan. No dia seguinte, eles embarcam naquele fatídico trem-bala. Ao se afastarem da estação, uma mulher enlouquecida entra correndo. Ela está tremendo, balbuciando e com uma marca de mordida no braço. Você provavelmente já consegue imaginar onde isso vai dar.

 

Não vou mentir e dizer que o filme é só tristeza do começo ao fim. As cenas de ação são frequentes e incrivelmente bem construídas. Além de serem muito divertidas de assistir, também revelam o caráter de todos a bordo do trem. Mas, por mais que eu ame o casal descolado que está para ter um bebê, e ame odiar o desprezível diretor de operações, no fim das contas, estou presa à história de Seok-Woo e Soo-An.

Mesmo em meio ao verdadeiro fim do mundo, Soo-An cuida de todos ao seu redor. Ter uma criança como personagem é, honestamente, um pouco injusto. É como uma forma de trapaça. Ao contrário dos adultos que fingem coragem, todas as emoções que Soo-An sente estão à mostra. E você está lá com ela. Consigo sentir seu medo, sua confusão, sua culpa por arrastar o pai nessa viagem, sua tristeza e decepção com a atitude dele em relação aos outros e sua profunda bondade. Tudo isso dá ao filme o tipo de estrutura emocional rara de se ver em uma obra de qualquer gênero. Mais uma vez, elogios para Su-An Kim.

 

No início, seu coração puro contrasta fortemente com a natureza egoísta do pai. Mas, à medida que o filme avança, Seok-Woo começa a aprender com o exemplo da filha. Este homem, que no início do filme parecia não se importar em cuidar da filha, luta com todas as suas forças para mantê-la segura e, com o tempo, as outras pessoas também. Não consigo deixar de torcer, cada vez que assisto, para que, talvez desta vez, o bem prevaleça. Assistir Soo-An e Seok-Woo se unirem ao longo do filme é assustadoramente semelhante a assistir Jack e Rose em Titanic. Você não sabe exatamente o que está por vir, mas sabe que não é coisa boa.

Quanto pior as coisas ficam, mais sinto o amor entre eles sendo construído. Tem uma fala em particular que sempre me faz perder o fôlego: "Eu estava com tanto medo de nunca mais te ver, que ensaiei aquela música só para você. É por isso que eu não conseguia cantar. Porque eu não conseguia te ver", diz Soo-An. Eu conheço esse sentimento muito bem. Quando você se permite ter esperança de que talvez desta vez seu pai vai te ajudar, sente o dobro da decepção quando isso não acontece. Fala sério… é muito difícil de ver.

 

Acho que não posso reclamar, foi para isso que recorri a este filme. Eu queria chorar e já consigo sentir o choro subindo. As rachaduras estão se transformando em fissuras. Não consigo segurar por muito mais tempo.

Mesmo que as coisas só piorem ao longo do filme, no final você quase pensa que eles podem sair vivos dessa. Mas, nesta história, os personagens e o público são punidos por terem esperança. É claro que há um último zumbi rebelde. E quando sua filha e a grávida Seong-Kyeong estão em perigo, Seok-Woo faz algo que jamais teria feito no início do filme. Ao vê-lo se jogar entre elas e o monstro, me sinto tão impotente quanto Soo-An vendo o pai ser mordido e condenado à morte. Filmes de terror sempre me ensinaram que, se você aprende a lição, está seguro. Mas é claro que este não oferece trégua.

 

No começo, eu o odiava, e agora daria tudo para vê-lo sobreviver. O sacrifício de Seok-Woo serve como o ápice de tudo o que ele aprendeu, tudo o que sua filha lhe ensinou sobre humanidade. Antes de se transformar, ele tem uma despedida completamente devastadora da filha. Sinceramente, não consigo escrever nada que faça justiça à cena final. Ela me destrói. A represa se rompe. Assim que Soo-An e o pai finalmente se reencontram, são brutalmente separados.

 

A essa altura, não consigo me conter. Minha respiração fica ofegante e lágrimas escorrem pelo meu rosto, mas o filme ainda não acabou. Tem mais. Soo-An e Seong-Kyeong finalmente chegam a Busan. Enquanto caminham lentamente pra dentro da cidade, o exército no perímetro recebe a ordem de atirar, para não correrem o risco de deixar entrar mais mortos-vivos. A primeira vez que assisti ao filme, tive vontade de gritar. Depois de tudo o que passaram, de tudo o que perderam, vão morrer a passos da salvação. Não fiquei surpresa com o final, mas pode apostar que fiquei furiosa.

Minha reação exata.

Mas então, Soo-An começa a cantar. A canção que não conseguiu cantar quando seu pai estava desaparecido escapa de sua boca e chega aos ouvidos dos soldados. Uma versão chorosa e desolada de “Aloha ʻOe”, cantada para um pai que se foi, mas que ainda está com ela. A letra diz tudo: “Adeus a ti, até nos encontrarmos novamente”.

 

A humanidade de Soo-An permaneceu intacta durante todo o filme, por fim sendo sua salvação. É isso que Invasão Zumbi triunfou em mostrar, e The Last of Us falhou. Você não precisa se perder para sobreviver, ou mesmo para proteger os outros. É por isso que eu amo este filme, ele te leva até o fundo do poço mas, no último segundo, te dá esperança novamente. Catarse. Apesar de tudo o que me faz passar emocionalmente, não saio me sentindo desolada. Eu me sinto curada. E só precisei de um pai e uma filha separados aprendendo a se conectar em meio ao fim do mundo.

Comentários 1

M
Maria Valdomira Da Silva Valdomi13 de junho de 2025
E muito violento pra as crianças assistir ele

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