Vocês não estão entendendo The Last of Us

Críticas Gerais

A internet me irrita muito às vezes.

 

Assistir à segunda temporada de The Last of Us semanalmente tem sido uma experiência e tanto. Nunca joguei o jogo em que a série se baseia, então tudo o que aconteceu nos três primeiros episódios foi uma surpresa completa — e sugiro que você continue assim também, se conseguir. Haverá spoilers aqui, mas ainda não. Antes, preciso desabafar um pouco.

No final da primeira temporada, quando a vida de Ellie está em jogo, Joel realiza um massacre na base dos Vagalumes, as mesmas pessoas que eles passaram a temporada inteira tentando encontrar. Ellie está inconsciente e, quando ela acorda na traseira da caminhonete de Joel, ele conta uma mentira cujas ramificações ecoarão pela nova temporada. Ele diz a ela que os Vagalumes os deixaram ir embora. Ele também diz que, basicamente, nada aconteceu. Aqui, Joel tira a autonomia de Ellie. Acredito que, naquele momento, Ellie teria tomado a decisão de se sacrificar para criar uma vacina, mas porque Joel a ama e não está disposto a perdê-la, ele tira essa escolha da garota.

 

Não se deixe enganar por todo o charme e carisma que Pedro Pascal dá ao personagem, Joel não é uma boa pessoa. Até ele sabe disso, mas, por algum motivo, as pessoas que assistem à série, pelo menos as mais irritantes da internet, parecem não entender. Só porque ele é o protagonista, não significa que você tenha que aceitar suas ações sem questionar. Na primeira temporada, literalmente todos os personagens que encontraram Joel têm medo dele. Ele tem a reputação de ser um assassino cruel e de sangue-frio. Sim, ele fez o que tinha que fazer para sobreviver em situações impossíveis; e, sim, ele é um personagem que conquista nossa simpatia. Você sente empatia por Joel durante a primeira temporada. Eu senti empatia. O ponto principal daquela leva de episódios é mostrar até onde as pessoas podem ir para proteger aqueles que amam, e Joel faz tudo o que acha que precisa para proteger Ellie. Mas a violência tem consequências.

As pessoas que ele matou tinham famílias. Uma de suas vítimas tinha uma filha chamada Abby. Nos cinco anos desde o final da primeira temporada, desde que Joel assassinou seu pai, Abby assumiu como missão fazê-lo pagar pelo que fez. De muitas maneiras, Abby me lembra Joel, que teve uma reação muito semelhante quando sua filha foi morta no primeiro episódio da série.

 

E, depois, temos Ellie, que passou por grandes mudanças durante esse intervalo de cinco anos. Na primeira temporada, ela era uma garota esperta e durona, mas ainda tinha 14 anos. Ela precisava de Joel e confiava nele. Na segunda, Ellie tem 19 anos e tudo o que realmente quer é ser ela mesma. Ela ainda se preocupa profundamente com Joel, mas suas constantes tentativas de protegê-la, de tratá-la como a garotinha pela qual arriscou tudo, estão prejudicando o relacionamento deles.

Já quero deixar uma coisa bem clara aqui: eu amo Bella Ramsey neste papel. Acho que elu (Bella se identifica com os pronomes neutros "they/them" em inglês, então vou usar "elu" em português) está fazendo um trabalho incrível, assim como fez na primeira temporada. A reação dos fãs que estão com raiva por elu não se parecer o suficiente com a Ellie do jogo me enoja. Todo mundo tem direito à própria opinião, mas humilhar Bella por sua aparência e a cultura tóxica dos fãs em torno da série são apenas algumas das razões pelas quais estou achando difícil acompanhar The Last of Us. Eles não vão mudar quem interpreta Ellie, seus idiotas! Ramsey já é a personagem há dois anos, superem! Eu poderia escrever um outro artigo sobre isso, mas tenho mais coisas para fazer. Basta dizer que eu já estava irritada com a internet, e aí veio o segundo episódio.
 

Agora vamos entrar em território perigoso: teremos spoilers sérios daqui para frente. O aviso foi dado.

 

Chegamos à morte de Joel, uma cena que não foi nada fácil de se ver. Depois que ele salva Abby de uma horda de infectados, ela o engana para segui-la até um chalé na montanha, onde seus amigos estão esperando. Eles emboscam Joel e Abby faz exatamente o que prometeu que faria. Ela o mata lentamente, de forma dolorosa. A tortura demora tanto que ainda dá tempo de Ellie encontrá-los, mas é tarde demais. Tudo o que ela pode fazer é observar Abby matar a pessoa que mais amava no mundo. Isso te lembra alguma coisa?

E só uma última observação: a atuação de Ramsey neste episódio é magnífica e angustiante. Os haters precisam calar a boca.

 

Na internet, o ódio contra Abby (Kaitlyn Dever) é, compreensivelmente, desenfreado, mas eu realmente sinto empatia por ela. Os três personagens principais da série são incrivelmente parecidos, movidos pelo trauma e pela raiva e, embora torçamos por um e não por outro, todas as suas ações são compreensíveis. Acho incrivelmente hipócrita a internet odiar Abby e esperar que Ellie a mate, mas aceitar o que Joel fez com ela sem questionar. Ele fez EXATAMENTE a mesma coisa que Abby. E agora, tragicamente, Ellie está no caminho para repetir esse ciclo. Se alguém realmente pensasse sobre isso, esperaria que Ellie ouvisse o conselho no episódio três e escolhesse o perdão em vez da vingança. O ciclo terminaria ali, e Ellie continua sendo a personagem moralmente boa pela qual nos apaixonamos. Mas isso não renderia um bom entretenimento, não é mesmo? Como disse Gail (Catherine O’Hara): “Algumas pessoas simplesmente não podem ser salvas”.

Neste ponto, mesmo para quem nunca jogou, está bem claro qual será o tema da temporada: o preço da violência e o vazio da vingança. Em sua busca incansável por justiça, Abby se tornou exatamente aquilo que pretendia destruir. Ela terá que pagar por suas ações, assim como aconteceu com Joel. No final da primeira temporada, seu ato egoísta e a mentira que se seguiu destruíram a confiança entre ele e Ellie, criando um distanciamento com a garota que ele tinha como uma filha. E agora isso lhe custou a vida, junto com qualquer tempo que pudesse ter tido para acertar as coisas com ela. Mas esse sofrimento não foi o suficiente, porque temos que assistir o ciclo se repetir, desta vez com Ellie. Obviamente, Ellie não vai parar até matar Abby. Ela deve pagar na mesma moeda, ou fazer o que considera como justiça. Ela não é mais a garotinha da primeira temporada, está se tornando o Joel. E lembre-se: Joel não é uma boa pessoa.

A segunda temporada é sobre três pessoas más, mas isso não significa que não possamos gostar delas ou querer seu melhor, e certamente não significa que sejam cruéis. São personagens complexos com motivações complexas. Joel, Abby e Ellie estão longe de ser heróis, mas tente falar isso para a multidão enfurecida na internet.

 

É realmente fascinante que tanto jogadores quanto não jogadores pareçam ter perdido completamente o foco. Para grande parte da Internet, a morte de Joel é uma conclusão precipitada para aqueles cinco anos. As pessoas que jogaram sabem mais do que eu, elas sabem o que vai acontecer daqui para frente. Então por que todo mundo está tão bravo? Até certo ponto, eu entendo. Fiquei triste ao ver Joel partir, eu queria mais tempo entre ele e Ellie. Queria vê-los consertando seu relacionamento e queria mais Pedro Pascal, mas esse claramente não é o objetivo da história. As críticas do público e as seções de comentários estão cheias de gente dizendo que a série matou seu protagonista, que não vale mais a pena assistir. Eles estão choramingando: “Por que mataram o Joel? Ele era o herói da história!”

Em primeiro lugar, Joel NUNCA foi o protagonista da série. Talvez se o Pedro não fosse tão carismático, mais pessoas entenderiam isso. Ellie sempre foi a protagonista, pelo menos na minha opinião. E, em segundo lugar, Joel NÃO é o herói! Ele é um anti-herói simpático. Me desculpe se estou me repetindo, mas claramente um grupo específico de comentaristas precisa que eu faça isso. Joel fez uma coisa terrível e pagou, e as circunstâncias horríveis e cruéis de sua morte não mudam isso. Sua morte causará repercussões para o resto dos personagens, e aposto que Ellie está prestes a tomar um rumo sombrio. Sinto que sua busca por vingança também não vai acabar bem. Minha previsão é que ou ela mata Abby e se torna a vilã da terceira temporada, ou tem a chance de se vingar mas escolhe poupar Abby, aprendendo uma lição que aqueles antes dela não conseguiram. Jogadores, por favor, não estraguem tudo para mim com spoilers, essa é só a minha teoria.

Tudo bem não gostar da direção que The Last of Us está tomando. É uma decisão muito polêmica matar um dos personagens principais tão cedo na segunda temporada. Mas também é muito interessante. A decisão de matar Joel fortalece o tema da série e cria oportunidades para o crescimento dos personagens, além de propiciar arcos interessantes. Agora, outros personagens têm mais chance de brilhar e temos a chance de nos envolver emocionalmente em uma nova trama, assim como aconteceu na primeira temporada, quando todos nos apaixonamos pela dinâmica de Joel e Ellie. Eu, por exemplo, não sei como vou me sentir em relação à série daqui para frente, mas estou animada para ver. Talvez todas as minhas previsões estejam erradas e eu fique com cara de idiota daqui a algumas semanas. Talvez eu não fique tão fascinada pelos novos personagens como fiquei por Joel e Ellie. Talvez eu até pare de assistir. Mas vou pelo menos dar uma chance a The Last of Us, porque talvez eu acabe gostando ainda mais.

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