"Lilo & Stitch": Por quê?
Críticas Gerais
Acho que começar dessa forma é a maneira mais honesta. Já disse e me esgotei ao falar desses live-actions da Disney na minha crítica sobre “Branca de Neve”. Em quantas outras vou precisar repetir tudo de novo? Desde o início, esse projeto não tinha potencial. Ainda assim, fui assistir esperando, ao menos, a nostalgia barata que costuma ser o principal combustível desses filmes. Só que esse foi diferente. Esse me deixou da forma que eu menos queria: triste.
Todo bebê ou criança tem aquele filme que fica no repeat infinito, que enlouquece os pais, que faz com que eles decorem as falas, sofram quando escutam a vinheta de abertura e saibam exatamente o momento em que a criança vai rir, chorar ou pedir de novo. “Lilo & Stitch” foi esse filme para mim. Eu pedia para assistir o “titi” (Stitch, no meu vocabulário de antes de aprender a falar), balbuciava falas do filme, e hoje, anos depois, ainda uso frases do longa na vida e reassisto ao menos uma vez por ano.
Quando os créditos subiram após o live-action, a primeira coisa que eu quis fazer foi chegar em casa e dar play no que realmente é “Lilo & Stitch”. Eu não consigo enxergar essa nova versão como uma obra separada da animação. Isso é impossível. Se alguém usa os mesmos nomes, os mesmos personagens e as mesmas situações, as comparações são inevitáveis.

É importante lembrar que a animação continua existindo, disponível, eterna, como um ponto de retorno. Mas o que mais me revolta é a forma como essa nova versão tenta recontar a história mudando e, pior ainda, esvaziando o significado de tudo o que o original construiu. O uso da palavra “Ohana”, por exemplo, é um escárnio. Na animação, ela é quase sagrada. É um conceito que pulsa nos momentos mais sensíveis do filme, que representa o laço entre Lilo, Nani e Stitch. Aqui, ela vira frase de vizinha, jogada sem peso, sem emoção, sem história.
A personagem da Nani é outro grande desastre. Em pleno 2025, quando o mito do sonho americano está mais desacreditado do que nunca, a Disney ainda tenta empurrar a ideia de que a única saída de uma mulher pobre e racializada é abandonar sua família para estudar nos Estados Unidos. Não é sobre ir estudar que me incomoda. O problema é o modo como isso é colocado: como se a solução para a vida de Nani fosse largar a única pessoa que ama para “dar uma vida melhor para ela”, entregando-a para o serviço social e sugerindo, com a narrativa, que essa seria a melhor escolha.
Na animação, Nani tem dificuldades, sim. Mas jamais cogitaria entregar a irmã. Há dor, há falhas, há medo mas há amor. O live-action joga isso fora e transforma a mensagem de Ohana em qualquer coisa, em uma frase de efeito sem alma, sem verdade. O que significa nunca abandonar ou esquecer quando o que vemos é exatamente o contrário?
Visualmente, o filme é um retrocesso. O original é vibrante, feito com aquarelas e cores que remetem a uma pintura viva do Havaí. O live-action é cinza, morto, plastificado. O estado parece sem vida. O Stitch perdeu a cor. Aquele azul radiante que o tornava único agora é desbotado, quase acinzentado. Um personagem sem brilho, sem identidade visual, sem charme.

As mudanças na história também são confusas. Jumba, que antes era uma figura engraçada, complexa e que passava por uma jornada de redenção, agora é o vilão da trama. Toda a construção do relacionamento dele com Stitch desaparece. Pleakley, que era um aliado, vira uma caricatura chata e sem graça. E tudo isso para quê? Para cortar gastos com computação gráfica e transformar os dois em personagens humanos? Sim, o filme faz isso e é tão tosco quanto parece.
Mesmo assim, é necessário reconhecer que a computação gráfica em alguns momentos é excelente. Stitch realmente parece estar lá. A cena de abertura no espaço é visualmente impressionante, com ótimo design e movimentação fluida. É uma pena que esse cuidado só dure poucos minutos. Depois, tudo parece ser feito no piloto automático, com escolhas pobres e atuações que não se sustentam. O ator do Jumba, Zach Galifianakis, faz o mesmo papel de sempre, enquanto o Pleakley vira aquele alívio cômico que não arranca um sorriso.
O que eu fico mais feliz no final do filme é a atriz que interpreta a Lilo, Maia Kealoha. Que graça. Ela realmente carrega a energia da personagem original: fofa, rebelde e sensível. Pena que a atuação da Nani parece, muitas vezes, puxar a irmã para baixo, sem química, sem entrega.
No final, eu volto à pergunta com que do título: por quê?
Enfim, repito o que já disse outras vezes. Até quando a Disney vai continuar insistindo nesses live actions sem energia, sem amor, feitos apenas para gerar lucro, como já estão gerando. No fim não passam de obras vazias, sem alma, sem propósito, que não entendem nem respeitam o que tornou os filmes originais tão importantes na vida de tanta gente.












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