"Branca de Neve": Espelho, espelho meu, me acuda...
Críticas GeraisHá um bom tempo, a Disney vem apostando em trazer suas grandes propriedades intelectuais de volta, usando o live action para recontar histórias. Iniciando com “O Livro da Selva”, em 1994, que se tornou um grande fracasso nos cinemas, mas um sucesso nas vídeo locadoras. Ao longo dos anos, alguns tiveram sucesso, como “101 Dálmatas”, com a icônica Cruella de Glenn Close; “Alice no País das Maravilhas”, de Tim Burton, que serve quase como uma sequência/remake da animação de 1951; e “Malévola”, que trouxe uma visão original do surgimento da vilã de “A Bela Adormecida”. Foi a partir desse filme, que a Disney encontrou o que seria seu pote de ouro no final do arco-íris.
Vendo que suas animações originais já não faziam o mesmo sucesso de antes, a reconexão com o passado foi usada à exaustão, ajudando a Disney a lucrar cada vez mais, com a facilidade de apenas adaptar algo que já estava pronto e era reconhecido pelo grande público. Visando apenas o lucro, fomos soterrados com filmes que não possuem o mínimo esmero em sua realização, perdendo o real significado da animação e todo aquele senso de conto de fadas que traziam.

Desde 2014, já se foram 17 longas em live action, sem contar com o último lançado, “Branca de Neve” e o próximo, “Lilo & Stitch”. Na mentalidade dos executivos da empresa, ao retomar as mesmas histórias do século passado, os novos fãs, ou seja, as crianças, têm seu primeiro contato com aqueles personagens, enquanto os mais velhos revivem o sentimento de retornar à infância, ou seja, a nostalgia barata.
É aí que “Branca de Neve e os Sete Anões” entra em questão: a maior animação de todos os tempos, a que fez a animação ser tudo o que ela é hoje. Lançada em 1937, foi o primeiro longa-metragem animado da Disney e o primeiro da história a usar o Technicolor como processo de colorização. Uma história já reconhecida por todos e já revisitada por outros filmes. A única que não havia sido tocada era a da própria Disney. Quando o novo filme foi anunciado, o desgosto do público já era esperado: primeiro, pela péssima safra dos live actions recentes da empresa; segundo, por mexer com aquilo que é julgado como intocável.

Foram complicações desde o primeiro dia de divulgação: escolha do elenco, mudança no enredo, troca de características dos personagens... Já nasceu sendo criticado. Adoraria vir aqui e dizer que todos quebraram a cara e que os julgamentos antecipados foram equivocados. No entanto, foi bem o contrário.
A falta de cuidado em fazer algo com o mínimo de respeito a animação. Não é possível encontrar, em nenhum momento, algo que transpareça o mínimo de amor da produção por realizar o longa, perdendo todo o brilho e aquele sentimento de estar vendo algo mágico, como a animação. A escolha dos atores já é um bom começo ou fim. Uma em específico: Gal Gadot. Escalar Gadot, que se julga atriz, para a vilã, uma das maiores vilãs dos contos de fadas, já começa como uma piada, fazendo com que a personagem da Rainha Má seja mais interessante no filme feito para a TV do Disney Channel do que no longa com um orçamento infinitamente maior. A atriz não consegue pronunciar três frases em sequência, imagina dizer a icônica frase ao espelho mágico. Tudo piora ao colocá-la cantando, ou melhor, balbuciando com algum ritmo. Essa atuação consegue fazer com que até Rachel Zegler, de quem gosto bastante, pareça apagada.
Zegler é uma flor tentando desabrochar em um jardim seco. Sua voz encanta desde “Amor, Sublime Amor”, de Spielberg. Neste filme, não seria diferente, apesar de músicas fracas e esquecíveis e um arco de personagem que segue moldes de TikTok, transformando a personagem em uma espécie de Joana D’Arc. Não que isso seja um problema, mas a maneira como foi realizada e a progressão da personagem tornam o patético algo que poderia funcionar, caso tivesse seguido por um caminho diferente da história clássica.
Os anões, que não são mais anões, são outro ponto. Para mim, não me incomoda o fato de não terem usado atores com nanismo. Em certo ponto, concordo com a escolha. Só que o uso de computação gráfica para a criação dos sete personagens é uma caricatura do que seriam realmente os anões. Além disso, deram uma visão totalmente diferente ao Dunga, colocando-o como narrador da história, o único personagem que não possui fala na animação, perdendo todo o significado de sua existência. Soma-se a isso o uso constante de fundo verde, com cenas em que é nitidamente visível a sobreposição dos atores em um cenário fixo e falso.
Ao terminar o filme, a única ideia que palpitava em minha cabeça era a vontade de reassistir o longa de 1937. Retornar àquela magia transposta com tanto amor e esmero pelos animadores daquilo que foi considerada, um dia, a máquina de sonhos e que hoje, infelizmente, se perdeu. A felicidade, no entanto, é saber que o filme antigo ainda está lá, pronto para ser redescoberto e apreciado pela nossa geração, e também apresentado às novas gerações, que merecem conhecer a verdadeira magia da animação original.







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