Missão: Impossível deveria ter acabado em 2018

Críticas Gerais

Missão: Impossível deveria ter acabado no lançamento de Efeito Fallout, filme de 2018. Sei que o Tom Cruise não se cansa de desafiar a morte e que muitos de nós não nos cansamos de testemunhar as suas proezas… mas nem só de adrenalina deve viver uma história, e a de Missão: Impossível parecia ter encontrado um encerramento perfeito no sexto filme, com Ethan Hunt fazendo as pazes com seu passado (representado pela ex-esposa Julia) e aberto à felicidade possível no futuro (ao lado de Ilsa, personagem de Rebecca Ferguson).

Até esse momento, a franquia já havia se reformulado inúmeras vezes, experimentando com os diferentes estilos de diretores como Brian De Palma, John Woo e Brad Bird… encontrando consistência na visão unificadora de Christopher McQuarrie e chegando num desfecho que poderia muito bem ter sido definitivo, em Fallout. Se esse tivesse sido o caso, ouso dizer que pouquíssimas franquias em Hollywood teriam mantido um nível tão constante de qualidade (sim, Missão: Impossível 2 é bom, no seu jeito puro-suco-dos-anos-2000 de ser).

 

Mas quis o destino — ou, nesse caso, a eterna disposição de Cruise em nos entreter — que a série continuasse, e o primeiro Acerto de Contas (que tinha o famigerado “Parte Um” no nome) tentou dobrar a aposta com uma narrativa ainda mais complicada ao redor da Entidade, uma Inteligência Artificial consciente que ameaça causar a extinção da raça humana, numa dimensão que nenhum outro vilão da saga havia chegado perto.

 

Mesmo contando com algumas boas ideias e sequências interessantes de ação, Acerto de Contas já demonstrava um cansaço que, até então, não tinha dado as caras nos filmes anteriores. Pensemos na relação entre os personagens, por exemplo: Por vontade própria de Rebecca Ferguson (sabiamente, pulando fora do barco), Ilsa foi removida da trama e automaticamente substituída por Grace, interpretada por Hayley Atwell, numa troca que incomoda até hoje. Ainda que Grace seja carismática e também tenha química com Ethan, sua função na história permanece a mesma de Ilsa… e o filme continua mantendo esse “casal" na posição de um flerte que nunca se concretiza de verdade.

E nem poderia, já que a natureza de continuidade eterna da franquia exige que esse relacionamento seja mantido em suspensão — próximo o suficiente para que o filme se aproveite do charme e tensão sexual entre os atores, mas sem que haja uma consumação total que forçaria alguma resolução ou transformação mais definitiva, no roteiro. Justamente por isso, admiro o quanto Missão: Impossível 3 — dirigido pelo JJ Abrams — abraça com gosto a fase apaixonada de Cruise (na época, todo gamado em Katie Holmes, subindo no sofá da Oprah e tudo mais). E quando esse status conjugal de Ethan é mudado, no filme seguinte, ele ainda carrega um peso que só se alivia no final de Fallout, como já mencionei.

 

Mas fora esse aspecto mais voltado à trama, até as sequências de ação demonstram uma qualidade mais nitidamente cíclica (pra não dizer reciclada). Em Acerto de Contas, Ethan luta contra Gabriel em cima de um trem em movimento, assim como havia feito no primeiro filme de todos, contra Jon Voight (numa sequência que permanece impressionante até hoje, vale dizer). Já em O Acerto Final, Cruise se pendura numa primeira aeronave pequena e persegue uma segunda, pilotada pelo antagonista da vez, enquanto tenta resgatar um dispositivo específico e apertar um botão antes que uma contagem regressiva chegue ao final — numa repetição nada sutil do clímax de Efeito Fallout. Troquem helicópteros por aviões acrobáticos, o Henry Cavill pelo Esai Morales… e o tipo de estímulo é o mesmo.

Ok, eu consigo ouvir o clamor de que “filmes de ação são assim”,  “clichês existem porque funcionam”, “críticos são chatos e não gostam de se divertir”. Acho bem válidas as constatações de que o cinema de gênero funciona seguindo a certos padrões, mas o meu problema é que Missão: Impossível sempre se destacou ao trocar de marcha e reutilizar elementos semelhantes com o mínimo suficiente de inovação, enquanto se preocupava em ser criativo também nos momentos de respiro, entre uma cena de ação e outra.

 

Para mim, foi esse espírito de versatilidade que deu a Missão: Impossível 2 um clima tão distinto do primeiro — trocando um thriller de espionagem pé no chão pela galhofa espalhafatosa de um filme do 007 de Pierce Brosnan (beirando um Roger Moore, vai). Era essa vontade de alternar ingredientes que fez Protocolo Fantasma parecer um filme animado em live-action (por mais contraditório que isso possa parecer), já que o diretor Brad Bird se entrega para uma infinitude de gags visuais perfeitamente alinhadas com o tipo de humor que ele apresentou em Os Incríveis, da Pixar. E foi com essa vontade de não se acomodar que McQuarrie encontrou um dos elementos simbólicos mais bonitos da saga, quando Ethan conhece Ilsa durante a ópera Turandot — que conta com um dos temas musicais mais lindos da música clássica — e depois, quando ela sugere que os dois fujam juntos, essa música retorna como parte da trilha sonora, como se Ilsa fosse a musa que inspirou o compositor Giacomo Puccini… e que, nesse momento, inspira Ethan Hunt também.

Ideias assim não são eternamente replicáveis. Histórias precisam acabar. E com Missão: Impossível não deveria ser diferente, por mais divertido que seja ver Tom Cruise se pendurando na próxima superfície perigosa da vez… e por mais que ele faça isso tão voluntariamente. Até porque existem outros lados desse ator que são igualmente interessantes e que não costumam aparecer hoje em dia, tanto quanto no passado. Agora que O Acerto Final supostamente encerrou a franquia, torço para que Tom traga de volta figuras enigmáticas e conturbadas como o Vincent, de Colateral, ou então papéis ridiculamente satíricos como Les Grossman em Trovão Tropical, ou ainda protagonistas multifacetados como Bill Harford em De Olhos Bem Fechados. Das muitas máscaras que Ethan Hunt já usou, algumas das mais intrigantes surgiram fora da franquia, na filmografia de Cruise… e quem sabe elas não voltem a dar as caras num futuro próximo?

 

Enfim, caso queira me ouvir falar mais especificamente sobre O Acerto Final, dá uma conferida na crítica que postei lá no meu canal, no YouTube. ;)

 

Comentários 2

B
Bia Matera6 de junho de 2025
Eu gosto como vc tá levemente desacreditado que esse vai ser o último filme haahahhaha
P
Papo de Telinha6 de junho de 2025
Confesso que fiquei com raiva de concordar com esse texto 😩 Fallout era um encerramento tão perfeito que qualquer coisa depois parece fanfic com orçamento milionário.

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