Caro Ridley Scott, por favor, pare de me encher o saco

Direção

Se você pesquisar "maiores cineastas de todos os tempos" no Google, é provável que o nome de Ridley Scott apareça em alguma das listas. Ele é um dos diretores com maior bilheteria mundial, foi indicado a vários Oscars e... ah, também foi condecorado cavaleiro. No entanto, não me lembro da última vez que fui ao cinema ver um filme de Scott e realmente me diverti. Na maioria das vezes, saio de saco cheio.

 

Ridley Scott não fez nenhum filme memorável desde Perdido em Marte, em 2015, e não fez nada realmente bom desde Thelma & Louise, em 1991. A palavra que eu usaria para descrever sua filmografia desde a virada do século é "chata", mas o prestígio de seus primeiros trabalhos consegue cegar a maioria do público para a mediocridade que seu catálogo tem a oferecer.

Não vou chegar aqui e dizer que Scott não fez ótimos filmes. Ele, sem dúvida, fez. Mas certamente não está classificado entre os melhores cineastas de todos os tempos. Dos mais de 50 filmes que dirigiu, apenas alguns foram verdadeiramente excelentes, enquanto a maioria, na minha opinião, variou de "sem graça" a "terrível". Só porque ele fez Alien - O 8º Passageiro, Blade Runner: O Caçador de Andróides e Gladiador, não significa que ele ganha um passe livre para o resto da carreira. Por alguma razão, porém, seu nome é um daqueles que parece iludir tanto a crítica quanto o público. A desculpa é sempre a mesma: "Pois é, não foi ótimo, mas é do Ridley Scott". Bom, pra mim já deu.

 

Se o que preciso para provar meu ponto de vista é uma análise profunda da "carreira de prestígio" de Ridley Scott, então peguem as pipocas, eu acho. Alguém pediu isso? É claro que não, mas tenho um grande acerto de contas a fazer. Eu nunca serei reembolsada por ter visto Napoleão, Alien: Covenant, Casa Gucci ou meu inimigo pessoal, O Último Duelo, então, por favor, deixe eu fazer meus desabafos. Para tentar ser justa, vou começar falando dos filmes bons. Não se preocupe, será rápido.

Com Alien - O 8º Passageiro, Scott invadiu Hollywood, mudou o jogo e consolidou seu nome na indústria. Por mais que eu despreze muito do que se seguiu, não posso negar o poder desse terror claustrofóbico da ficção científica, ou o impacto que Ellen Ripley e os xenomorfos causaram. Quatro anos depois, Blade Runner - O Caçador de Androides foi lançado. Mais um filme de ficção científica que deixou um impacto inesquecível no cinema dos Estados Unidos. É visualmente deslumbrante, mas devo confessar que não é meu favorito.

 

Algumas das marcas registradas de Ridley Scott estão começando a aparecer. Um homem muito sério passa por um ambiente muito sombrio e encontra um par romântico com pouca ou nenhuma personalidade ao longo do caminho. Esse padrão continua se repetindo. Acho incrivelmente decepcionante que o cara que levou algumas das melhores protagonistas da história para a tela pareça ter um desinteresse tão aparente e, em alguns casos, desprezo, pelas personagens do sexo feminino. Talvez seja por isso que me agarro a Thelma & Louise com todas as minhas forças.

 

Controvérsias à parte, acho que esse pode ser meu favorito. Tem personagens muito envolventes — as titulares Thelma (Geena Davis) e Louise (Susan Sarandon) — e o melhor roteiro de toda a filmografia de Scott (ele não o escreveu, é claro). Pela primeira vez, o espetáculo fica em segundo plano. Não posso dizer o mesmo sobre grande parte do que veio depois. Eu também tenho que fazer uma menção obrigatória a Gladiador — que este ano completa seu 25º aniversário — e a Perdido em Marte. O primeiro é o que eu classificaria como o auge do estilo de Ridley Scott, e o segundo é totalmente diferente. Gladiador entrega a escala épica da Roma Antiga combinada com uma boa história e personagens cativantes, algo que o diretor tem se esforçado para recapturar desde então. E Perdido em Marte, como eu já tinha mencionado antes, é o último filme memorável que ele fez. Quero dizer, pelo menos dá para o gasto. Finalmente Scott demonstrou que está disposto a se divertir um pouco. E eu gostaria que ele tentasse isso mais vezes.

Thelma e Louise. Minhas rainhas!

A grande maioria das obras de Ridley Scott segue um padrão do tipo "todo mundo é infeliz e eu também". Elas não são ruins o suficiente para me deixar com raiva nem são boas o suficiente para serem apreciadas. Apenas difíceis de digerir. A maioria dos filmes são ficção científica ou dramas de época, com uma pitada de thriller aqui e ali para trazer um tempero a mais. O tom é quase sempre sombrio, sério e tenso, sem nenhum momento de leveza para aliviar a dor. Apenas um monte de batalhas e homens furiosos gritando uns com os outros. É muito fácil se tornarem cansativos.

 

Napoleão, Prometheus, Todo o Dinheiro do Mundo e Êxodo: Deuses e Reis. O que esses filmes têm em comum? Muito tempo e muita pretensão. Quer o protagonista seja um general francês, um médico/astronauta ou a mãe de um filho sequestrado, qualquer intriga que a trama possa oferecer desaparece muito antes de o filme chegar ao ponto principal. Não importa o quanto seu filme seja interessante, Sir, se a história for ruim, tenho mais coisas para fazer além de ficar tentando decifrar qual mensagem você quer passar. Segundos depois de todos os créditos terem rolado, juro que já esqueci o que tinha acabado de ver. Rede de Mentiras e Falcão Negro em Perigo também se enquadram nessa categoria, mas recebem deméritos a mais por serem extremamente problemáticos em suas representações de jordanianos e somalis, respectivamente. Mark Strong fazendo blackface (uma prática em que um ator branco pinta a pele para escurecê-la) foi uma surpresa muito desagradável.

Mark Strong como Hani em Rede de Mentiras

Robin Hood desperdiça o único aspecto que tinha a seu favor: o fato de Robin Longstride (Russell Crowe) assumir a identidade de Robin de Loxley para se tornar o herói que todos conhecemos — o que acontece em cerca de 15 minutos. No restante do filme, parece que alguém decidiu remover cirurgicamente qualquer coisa interessante sobre a história de Robin Hood e adicionar vilões secundários estranhos e a história de amor menos crível da década. Cruzada parece quase o mesmo filme, mas ambientado na Jerusalém do século XII, em vez de na Inglaterra. Eu juro, se você me mostrasse cenas desses filmes juntas, a única coisa diferente seria Orlando Bloom gritando ao invés de Crowe.

Adivinhe o filme!

Para nosso épico final de batalhas de espadas, temos Gladiador II. A sequência totalmente desnecessária não apenas enfraquece a história do original, como também cai nas mesmas armadilhas de outros filmes recentes de Scott. Todo o ponto de Gladiador é que Maximus faz de tudo para vingar a morte da esposa e do filho. Você espera que eu acredite que no meio daquele filme ele transa com Lucilla FORA DA TELA!? Não. Não aceito isso. Paul Mescal e os gêmeos imperadores são as únicas coisas que tornam o filme um pouco mais divertido do que os outros desta lista. Aliás, colocar flashbacks constantes do original não é uma grande demonstração de confiança em você mesmo nem no público.

O Gângster é o único filme que senti um pouco de receio em incluir aqui. Pensei em deixá-lo totalmente fora do artigo, mas não sou nenhuma covarde. Pode me atacar nos comentários. A opinião popular considera esse thriller de 2007 um dos grandes filmes de gângster modernos. E poderia ter sido. Se ele soubesse quando acabar. O filme tem três horas de duração, mas parecem quatro. Nenhum dos personagens é agradável ou divertido, e eu nunca me importei com o que aconteceria com eles. Para cada cena tensa ou bem dirigida, eu era forçada a ver 15 minutos de enrolação sobre a batalha de custódia de Russell Crowe ou o Dia de Ação de Graças da família Lucas. Tudo o que esse filme tem a oferecer já foi feito antes e melhor. Nem mesmo Denzel Washington conseguiu salvar esse clássico de mafiosos para mim. E é mais um exemplo do grande problema com a maioria dos filmes de Ridley Scott. Se você tirar o visual, raramente encontrará uma história interessante.

 

Ok, vamos à parte que todos estão esperando. Vamos falar do pior dos piores. Eu poderia me divertir um pouco e atacar A Lenda, que já é famoso por ser ruim, ou mencionar filmes dos quais ninguém se lembra, como Chuva Negra ou Tormenta, mas isso parece muito cruel, até para mim. Todo mundo tem que começar de algum lugar, e esses filmes são um produto de sua época, assim como da relativa inexperiência de Scott. Mas quando se trata de outros fracassos mais recentes, sou muito menos misericordiosa.

 

O Conselheiro do Crime. Credo! Outro thriller exagerado e complicado que desperdiça um super elenco. Mas nesse ponto, já nem acho mais surpreendente. O personagem de Michael Fassbender consegue tomar a decisão errada em todas as oportunidades, mas nenhuma delas é tão ruim quanto as que foram tomadas sobre os figurinos e penteados de Javier Bardem. Eu tenho que dar crédito a quem merece, pois a caracterização dele realmente me fez rir.

Falando em penteados horrorosos, só consigo lembrar de Casa Gucci. Se você assiste a esse filme como uma sátira, é brilhante. Infelizmente, está mais para uma tentativa séria de contar a história da família Gucci, com direito a sotaques excêntricos, uma duração além da necessária e um Jared Leto totalmente incompreensível. Na primeira parte, pensei que o filme tentaria algo diferente e teria um tom mais leve, quase caricato. Mas não, bastou acontecer uma reviravolta para um lado mais sombrio, e qualquer diversão que eu estava tendo evaporou na hora. A mudança abrupta me faz pensar se passei a última hora rindo com o filme ou do filme. Mas Scott não se deu por satisfeito. No mesmo ano em que Casa Gucci chegou aos cinemas, ele nos entregou outro bom e velho épico medieval. E este eu odeio acima de tudo e todos.

O Último Duelo poderia ter sido apenas mais um filme de Ridley Scott excessivamente longo, chato, mas tecnicamente bem feito. Mais do mesmo naquele momento de sua carreira. Mas esse foi especial. Tinha uma mensagem a ser passada. No auge do movimento #MeToo, quando parecia que cada homem em Hollywood estava fazendo sua declaração pessoal sobre a cultura do cancelamento, recebemos a versão de Scott. O Último Duelo é uma história, contada a partir de três perspectivas, sobre o último duelo já registrado na França. Você pode se perguntar qual foi o motivo desse acontecimento. Alerta de gatilho para abuso sexual a partir daqui, porque só Deus sabe como eu gostaria de ter sido avisada antes de sentar para ver esse lixo.

Jacques le Gris (Adam Driver) estupra a esposa do amigo Jean de Carrouges (Matt Damon). Os eventos que levaram a isso são contados em uma narrativa com Efeito Rashomon, mostrando as perspectivas dos três personagens. Um aspecto que não muda em nenhuma delas é que fui forçada a assistir a uma sequência de longos minutos de abuso sexual. De novo e de novo. Cada mudança de perspectiva é precedida por um título, e quando finalmente mudamos para a perspectiva feminina, a tela escurece, revelando o título "A Verdade", de uma forma condescendente e que só piora o que já estava ruim. Eu já sabia disso. Não precisava fazer análises profundas para entender que o estupro é uma coisa ruim ou que eu deveria acreditar nas mulheres, Ridley Scott. Por mais que você pense o contrário, eu já odeio todos os homens desse filme. Não estou dizendo que você não possa contar esse tipo de história, mas eu realmente nunca vi esse tópico ser lidado de uma forma tão ruim. O filme inteiro parece um grande tapinha nas costas para homens que respeitam o mínimo possível de decência humana. Não cometa violência contra as mulheres.

 

Que revolucionário.

 

À medida que o filme continuava, meu choque se transformou em pavor, que virou raiva. Porque... como ele ousa? Eu assisti a O Último Duelo ao lado de algumas das mulheres mais inteligentes e reflexivas que conheço, e quando as luzes se acenderam, todas nós ficamos completamente imóveis, sem dizer uma palavra. Por falta de uma descrição melhor, ficamos em estado de choque. A franqueza da mensagem aliada à total falta de percepção ou introspecção tornaram esse filme pior que ruim, pior que chato. Tornaram tudo condescendente. E além disso, nem é um filme bom! Cai no mesmo espetáculo cansativo de todos os outros filmes dos quais já passei muito tempo falando. Eu realmente, de verdade mesmo, gostaria de continuar, mas ao contrário de um certo diretor, sei quando parar.

Então aí está. Essa é minha opinião completamente verdadeira e totalmente imparcial sobre a carreira de Ridley Scott. Não tive tempo de ver todos os filmes que ele fez, mas acho que você entendeu meu ponto. Ele não é meu diretor favorito. Eu sei que muitas pessoas vão discordar de mim, e já aceitei isso. Mas quando você sentar para assistir a qualquer um dos cinco filmes que Scott deve lançar nos próximos anos, imploro que pense um pouco melhor sobre isso. O filme é realmente bom ou você está apenas dando uma chance porque, afinal, é do Ridley Scott? Parafraseando um certo gladiador: "Não está se divertindo?"

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