Crítica | Anatomia do Caos

Conto
Foto: Descoloniza Filmes/Divulgação

Por Natália Viana

Ao revisitar os anos mais traumáticos da pandemia de Covid-19 no Brasil, Anatomia do Caos (Brasil, 2026) se propõe a reconstruir os acontecimentos que culminaram na CPI da Covid e a discutir as consequências de decisões políticas tomadas em um dos momentos mais delicados da história recente do mundo. Utilizando imagens de arquivo, depoimentos e registros oficiais, o documentário tenta organizar uma narrativa sobre o caos sanitário e institucional vivido pelos brasileiros.

A obra acompanha os principais acontecimentos do período, desde a demora na aquisição de vacinas até os embates políticos que dominaram o debate público. O filme recupera discursos de autoridades e momentos marcantes da CPI, revelando como a crise sanitária também se transformou em uma crise de informação, responsabilidade e memória.

Apesar da importância do tema, Anatomia do Caos encontra suas maiores limitações justamente na escolha de seu foco narrativo. O documentário dedica grande parte de seu tempo aos discursos e confrontos entre governantes e figuras políticas, fazendo com que as histórias humanas, que deveriam ser o verdadeiro centro da narrativa, acabem ocupando um espaço secundário.

Essa decisão enfraquece o impacto emocional da obra. Afinal, a pandemia não foi apenas um embate político ou ideológico, mas uma tragédia marcada por perdas irreparáveis. Milhares de famílias perderam pais, mães, filhos, irmãos e amigos, muitas vezes em circunstâncias que poderiam ter sido diferentes caso as vacinas tivessem chegado antes ou as medidas de enfrentamento tivessem sido mais eficazes.

O documentário apresenta alguns depoimentos de pessoas que participaram da CPI e de familiares de vítimas da Covid-19, mas esses relatos surgem de forma pontual, sem o aprofundamento necessário para traduzir a dimensão humana da tragédia. Em diversos momentos, o filme parece mais interessado em reproduzir debates e declarações do que em compreender as consequências reais dessas decisões na vida das pessoas.

Formalmente, Anatomia do Caos é competente ao organizar uma grande quantidade de informações e documentos em uma narrativa relativamente acessível. Entretanto, a insistência em priorizar o embate político impede que a obra alcance um equilíbrio entre denúncia, memória e emoção.

Existe uma discussão importante sobre responsabilidade histórica atravessando o documentário. Quem deve responder pelas perdas? Como um país lida com uma tragédia dessa magnitude? E, principalmente, como preservar a memória daqueles que não sobreviveram? São questões presentes ao longo do filme, mas que mereciam um tratamento mais profundo e mais sensível.

Anatomia do Caos cumpre um papel relevante ao registrar um período que não pode ser esquecido. Contudo, sua escolha de privilegiar os confrontos políticos em detrimento das histórias das vítimas limita seu alcance emocional e reflexivo. Mais do que relembrar discursos e debates, um documentário sobre a pandemia precisava olhar com mais atenção para aqueles que viveram o luto, a espera por uma vacina e a dor de perder alguém em meio ao caos.

Nota: 📼📼

 

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