Para mim
ContoSábado pela manhã, quando o céu ainda estava começando a clarear, a camionete seguia estacionada na garagem, do lado direito, e assim permanecia boa parte do tempo há mais de uma década. O motor ainda funcionava, porque de tempos em tempos Hyun ligava o automóvel, lavava e mantinha o veículo em condições de uso. Ele só não dirigia mais.
Naquele dia de outono, Hyun passou pela porta da garagem sem olhar para ela. Pegou a mochila pequena, o quimono dobrado dentro, a garrafa térmica, e foi a pé até a rodoviária.
O ônibus das seis saiu no horário.
Ele comprou a passagem no guichê, se sentou na janela, encostou a testa no vidro frio. O motorista subiu, cumprimentou os passageiros sem entusiasmo, ligou o motor... Hyun fechou os olhos no primeiro arranco, mantendo as mãos no colo. Foi um impulso involuntário, mas desde o acidente, qualquer veículo o deixava tenso, por isso, evitava dirigir, mas mantinha a caminhonete, que havia sido de seu pai, na garagem, para emergências.
A viagem foi de três horas para o sul.
Ao longo do percurso, o sol nasceu pelo lado direito da estrada e clareou as colinas. Em algum momento Hyun parou de prender a respiração e começou a olhar para a paisagem em movimento.
O dojo do Mestre Choi ficava no fim de uma rua de chão batido, atrás de um terreno cercado de árvores. Uma pequena placa vermelha, preta e branca, desbotada pelo tempo, permanecia ali pendurada. A mesma de quando Lee ainda era criança, só que na sua infância aquela placa tinha um pouco mais de cor.
Ao chegar, deixou as botas na entrada, ao lado das outras. Algumas crianças, dois homens da idade dele, uma mulher de cabelo grisalho. Botas de tamanhos diferentes alinhadas pelo mesmo propósito: o respeito ao espaço que adentrava.
Lee sentou-se no fundo, já vestido. Sua faixa preta era a mais elevada no Dojo, depois do Mestre, claro. Mesmo assim, ninguém o olhou duas vezes, nem mesmo as crianças. Hyun preferia que fosse assim, afinal ele não gostava de atenções. Tão pouco entendia que seu elevado nível técnico era motivo para admiração.
Iniciou-se então o aquecimento.
Em silêncio, Lee notou como o seu Mestre havia envelhecido. Os ombros ainda eram retos, mas a pele do pescoço cedia, fina como papel. O velho passou os olhos por ele, demorou meio segundo a mais do que demorou nos outros, e seguiu corrigindo a posição de uma menina pequena à frente, ajustando o joelho dela com dois dedos.
Comandos eram emitidos por Choi e replicados pelos alunos dentro de seus graus de expertise. Hyun acompanhava os comandos, replicando movimentos que conhecia desde os seus sete anos, mas que hoje se permitiu executá-los como se não os soubesse. Em sua cidade, no seu Dojo, Lee Soo Hyun era o Mestre Lee, mas aqui? Aqui ele era apenas Hyun, um dos alunos mais antigos do Mestre Choi.
Ainda que familiarizado com os movimentos, Hyun sentiu o peso da idade, identificando a forma como o próprio braço subia devagar, acreditando ser devido aos esforços de seu ofício. Nada comprometedor, mas ele sentiu e o Mestre percebeu.
Aproximando-se de seu aluno, o idoso parou na frente de seu pupílo. Não falou alto.
"Você está em guarda."
"Estou."
"Há quanto tempo?"
Hyun não respondeu. E o mestre não esperou que respondesse.
"Solta o ombro direito."
Hyun soltou um centímetro. Não foi suficiente.
"Mais."
Hyun soltou mais. O Mestre olhou pro pé esquerdo dele, depois pro direito. Encostou dois dedos no ombro de Hyun, do lado direito, com uma pressão tão leve que mais parecia um lembrete do que um toque.
"Esse ombro carrega coisas há tempo demais. Deixa ir."
Hyun franziu as sobrancelhas, não entendendo. O senhor, sábio, apenas pressionou seus dedos novamente no ombro de Hyun e disse: “Continua,” antes de seguir para o centro da sala como se nada tivesse acontecido.
Ao final, quando os outros saíram, Hyun ficou. O Mestre Choi pediu chá com um gesto e uma mulher mais velha trouxe duas xícaras pequenas, sem dizer nada. Sentaram nos calcanhares perto da porta, ao lado das botas, como fizeram diversas vezes no passado.
"Como veio?", perguntou o Mestre.
"De ônibus."
Choi não esboçou nenhuma expressão. Tomou o seu tempo bebericando o chá.
"Hyun."
"Sim."
"Quanto tempo faz que você não fez uma coisa só pra você?"
Hyun pensou. Tentou só achar uma resposta. Não achou.
"Não precisa falar, o silêncio já respondeu por você."
Choi pousou a xícara no chão entre eles.
“É sempre bom recebê-lo aqui no Dojo. Mas te conheço há muito tempo para saber que depois do que aconteceu com a Hana, você só vem em ocasiões especiais ou quando tem algo em você que não quer olhar. Hoje não é uma data especial, não é mesmo Mestre Lee?”
Uma pausa foi dada. Olhos sábios e silenciosos analisaram o rapaz mais novo.
“Vai pra casa, Hyun. Faz uma coisa só pra você. Uma só. Algo que não seja pela sua filha ou para os outros. Viva um pouco por você.”
Hyun olhou pro chá, para os tatames e então para o velho. Não respondeu. Ele não tinha palavras para isso. O Mestre Choi bateu duas vezes na coxa de Hyun, devagar, e se levantou, encerrando o encontro entre mentor e pupilo.
Hyun voltou no mesmo ônibus, uma viagem de três horas pro norte. Em algum ponto da estrada, o ônibus parou numa lanchonete de beira de pista, dando alguns minutos aos passageiros. Hyun desceu, pediu um café e o bebeu do lado de fora olhando para o céu.
Foi no silêncio que ele pensou em Hana, sua falecida esposa, sem querer pensar nela. Acontecia com menos frequência agora, depois de onze anos, as lembranças tornaram-se mais acolhedoras e menos pesadas, mas não deixavam de ser difíceis.
Bebericou o café lembrando de Hana sentada na mesa da cozinha, com o jornal aberto e os dois pés descalços apoiados na cadeira da frente. Ela sempre encostava os pés na cadeira da frente. Sempre. E Hyun tinha um cuidado idiota em não ocupar aquela cadeira quando ela saía de casa, como se a cadeira pertencesse aos pés dela. E pertenciam, até hoje.
Respirou fundo, terminou o café e voltou para o ônibus.
Quando desceu na rodoviária da cidade, era final da tarde quase noite. Caminhou os vinte minutos até em casa. O ar estava fresco. Passou pela garagem sem olhar para ela, e a camionete continuava lá dentro.
A janela do quarto da Mira, sua filha, estava acesa. Ele sorriu. Pela parede da sala vinha um som de música baixo, alguma fita que ela tinha gravado no rádio.
Entrou, passou pela cozinha, encheu um copo de água, bebeu inteiro de pé. A cadeira de Hana continuava lá, encostada na mesa, a mais antiga das quatro, a do encosto que ele havia consertado duas vezes e não havia sentado nela há onze anos.
Suspirou, deixou o copo na pia e atravessou o quintal até o galpão, sem ligar a luz da casa.
A oficina no quintal cheirava a serragem, a verniz velho e a graxa. Hyun acendeu a lâmpada em cima de sua mesa, a mesma que costumava piscar algumas vezes antes de pegar.
Olhou para o objeto atrás de um rolo de lonas. Quatro pés, dois travessões... Era o esqueleto de cadeira que ele havia começado fazer para a Hana antes do acidente. Ele nunca terminou, nem desmontou. Hyun apenas abandonara ela ali no fundo.
Suspirou novamente, sentou no banco, puxou o caderno onde anotava suas encomendas e folheou até uma página em branco.
Demorou alguns minutos, mas quando começou, rabiscou devagar.
Uma cadeira simples. Encosto reto, levemente inclinado para trás, do jeito que o corpo dele pedia agora. Assento com três dedos a mais de profundidade que o padrão. Madeira escura. Sem entalhes.
No canto da página, escreveu: Para mim.
Olhou as duas palavras como se tivessem sido escritas por outra pessoa, mas não rasurou. Contemplou-as por um momento. A porta da oficina se abriu e Mira entrou de meia, com o cardigan grande por cima do pijama. Tinha dezesseis anos e ainda andava pela casa de meia, igual à mãe.
"Pai? Chegou tarde. Aonde foi?"
"Fui ver o Mestre Choi."
Ela ficou parada na soleira, sem entrar.
"De ônibus?"
"De ônibus."
Mira balançou a cabeça uma vez e então aproximou-se da bancada. Abraçou seu pescoço por trás e olhou por cima de seu ombro, notando o desenho.
"Uma cadeira? Pra quem é?"
"Pra mim."
Mira não respondeu de imediato. Desprendeu os braços do pai e apoio-los na bancada, como ela costumava fazer quando era criança. Ele lembrou disso de repente, com uma nitidez incomum, e sorriu de lado.
"Tá bonita", ela disse não percebendo, seus olhos ainda no desenho. "Mas você nunca terminou a cadeira que estava fazendo para a mamãe."
"Eu sei."
"Vai terminar desta vez? Vai sentar nela?"
Ele parou. Olhou para o esqueleto da cadeira esquecida no fundo da oficina e concordou com a cabeça.
"Vou."
Ela seguiu seu olhar e entendeu tudo. Olhou para seu pai, então para o papel, e tocou o desenho, no ponto da curva do encosto.
“Deixa eu te ajudar a montar,” ela pediu.
Ele olhou pra ela. Mira era quase da altura dele agora e eles quase nunca faziam coisas juntos… Mesmo assim, ele disse:
"Você não sabe."
"Eu aprendo."
Hyun suspirou e não discutiu. Ele puxou um banco e empurrou pro lado dela. Mira sentou. Ele virou o caderno na direção da filha.
“Certo, mas eu vou lidar com as ferramentas de corte. Elas são perigosas.” Mira concordou e ele seguiu. "Bom, vamos começar pelo encosto, não pelas pernas. As pernas vêm depois."
"Por quê?"
"Porque o corpo segue o encosto."
A cadeira não ficou pronta naquela noite.
No domingo, ele puxou as tábuas que estavam atrás da bancada, encostadas na parede do fundo, cobertas com um pano. Eram três peças de nogueira preta que ele tinha comprado anos atrás e tinham ficado ali, esquecidas.
Aplainou as tábuas na terça. Era o serviço que mais cansava o ombro direito.
Na quarta marcou as espigas. Os encaixes e as espigas eram a parte que ninguém viria a ver, mas era essa a parte que determinava se a cadeira ia durar trinta anos ou três.
Cortou a primeira espiga errada por dois milímetros. Cortou outra e errou novamente. Cortou a terceira com mais calma. Encaixou.
Mira aparecia na oficina com mais frequência, todas as noites após à aula. Ela não interferia no processo, mas ficava ali com seu pai, observando. Por vezes, conversando sobre o dia até que o barulho das ferramentas fossem o único som que escutavam.
Na quinta-feira ela perguntou se podia lixar e seu pai entregou-lhe uma lixa fina e o assento bruto da cadeira. Mostrou o movimento, sempre na direção do veio. Mira começou.
Ele sorriu.
Trabalharam lado a lado em silêncio por uns vinte minutos. Em algum momento, sem parar de lixar, Mira falou baixo:
"Mamãe ia gostar dessa cadeira."
Hyun parou por um momento e olhou para ela. Demorou um tempo, mas então respondeu: "Ia."
"Mas ela não ia querer sentar nessa," Mira insistiu, olhando para o seu pai agora.
"Por quê?", perguntou surpreso.
"Porque essa é sua."
E isso o pegou de surpresa.
Hyun parou. Ainda olhando para sua filha. Mira já havia voltado ao trabalho e não levantou a cabeça. Continuou lixando. Ele nunca respondeu.
A montagem aconteceu no sábado seguinte. Eles espalharam as peças em nogueira preta no chão da oficina pela manhã e começaram a montar. A cadeira ficou pronta na hora do almoço. Hyun a colocou no centro da oficina e olhou pra ela um tempo. Ainda faltava lixa fina, óleo, espera de um dia pra curar. Mas a cadeira estava de pé.
Mira encostou o ombro na parede e sorriu observando seu pai
"Senta."
Hyun não falou nada, mas limpou as mãos na calça. Olhou para a peça e sentou-se nela. Perfeito.
A cadeira que não era dele agora lhe pertencia.
A filha sorriu.
“Vou esquentar o almoço. Não demore pai.” Ela disse e saiu.
Mesmo com a luz do dia, lâmpada do galpão estava acessa e continuava piscando, do jeito que sempre piscava. Hyun era apegado e não consertava aquela lâmpada há anos. Talvez, depois te terminar a cadeira, consertasse.



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