Velhas Notícias.

Fantasia

”Quando pensamos no terror, pensamos nele como algo que primordialmente acabaria mal. Não necessariamente. Este conto é uma obra de ficção, mas resolvi trazer elementos de um caso real que quando penso me deixa bastante intrigada e, embora não saiba o rumo que essa história tenha tomado, resolvi dar a ela um suposto ’final feliz’”.

 

Des Moines, Iowa, Estados Unidos. Julho de 2025. As férias escolares chegam e crianças correm soltas pelas ruas de um pequeno e pacato subúrbio da cidade. O sol do meio-dia arde sobre o asfalto de concreto e não há uma brisa no ar. Uma menina em torno de 13 anos termina a sua entrega de jornais passando por uma rua sem muito movimento. Dos dois rolos de jornal restantes em sua sacola de tecido, ela arremessa com cuidado um deles para um senhor de óculos em uma cadeira de balanço na varanda da frente de uma das casas. Ele acena para ela com um leve sorriso e ela o cumprimenta de volta antes de voltar a pedalar sua bicicleta. Seus olhos são castanhos como as avelãs dadas nas árvores e seu cabelo loiro preso em um rabo de cavalo brilha ainda mais à luz do dia.

Conforme ela se aproxima do final da rua, o céu vai se fechando e começa a escurecer. Ela tem seu foco desviado ao olhar para uma casa totalmente contrária às outras. O lugar aparenta estar abandonado, com as janelas quebradas e a grama por fazer, além de pequenas montanhas de folhas mortas espalhadas. Ela sente um arrepio, fazendo seus pelos da nuca eriçarem. Ela ouve uma voz masculina justamente quando monta novamente na bicicleta para dar meia-volta. A voz diz de forma quase rouca:

“Venha, é por aqui.”

Trovões começam a ser ouvidos e relâmpagos ocupam as nuvens cinzas se formando no céu escuro.

Ela caminha a passos lentos pelo jardim e empurra a porta de entrada entreaberta. Um rangido alto ecoa pela sala vazia. Ao entrar na casa sorrateiramente, a única coisa restante no espaço é um antigo espelho de pé feito de madeira. Olhando em volta, quase em estado catatônico, ela ouve um rangido mais suave vindo de uma porta se abrindo debaixo de uma escadaria. A voz entoa de dentro:

“Debaixo das escadas, no porão.”

A menina engole em seco e começa a descer degrau por degrau das escadas que levam ao porão. Ela acende a lanterna do celular e não parece ver nada além da escuridão e sentir a umidade do ambiente. Um estalo vem de um dos cantos e ela joga bruscamente a luz da lanterna na mesma direção. Nada aparece no canto de onde veio o barulho.

“Quem está aí.”?

Sua respiração começa a ficar acelerada. A voz a tranquiliza:

“Não tenha medo, não te farei mal.”

“Porque consigo te ouvir, mas não te vejo.”?  - pergunta ela, assustada.

“Você adquiriu esse dom do momento que entrou na casa, pode se comunicar telepaticamente comigo.”

Ela começa a ficar mais calma.

“Quem é você.”?

“Apenas outra alma perdida, mas não importa pois é você quem vai me tirar daqui.”

A menina se espanta com o comentário.

“Eu? E como eu faria isso.”?

“Esta casa apesar de modesta, se tornou alvo de seres sobrenaturais. Espectros para ser mais claro. Enquanto eles estiverem aqui, eu nunca sairei.”

“Eu não entendo porque você está me pedindo uma coisa dessas.”

“Você é a primeira pessoa que ousou entrar aqui em mais de 40 anos. Algumas tentaram, mas seu medo tomou a frente.”

“Você fala como se estivesse aqui há tanto tempo.”

Ela ouve a voz suspirar.

“Desde que eu era um menino.”

“O que aconteceu com você.”?

“Isso não vem ao caso. Vai me ajudar ou não.”?

“O que eu preciso fazer.”?

“Espere pelos últimos raios de sol. Os espectros não se sustentam na luz do dia. Irei te explicar como executar o ritual e assim que anoitecer você o faz.”

O relógio marca 19:00 em ponto. O restante de sol se põe sobre a vizinhança. Enquanto espera a pouca claridade desaparecer, a menina tenta arrancar da voz misteriosa mais informações sobre o passado.

“Então, você sempre morou aqui, em Des Moines quero dizer.”?

“Desde que a minha memória me permite lembrar.”

“Como você se chama.”?

“Costumavam me chamar de Johnny.”

“O seu nome me soa familiar, mas não sei de onde.”

“Melhor não pensar a respeito.” - responde ele com amargura.

Através da janela do porão, nota-se que a luz do dia se foi. A menina se levanta e se dirige às escadas. A voz a chama novamente:

“Espere.”

A menina repara no ar um canivete suíço erguido como se estivesse por conta própria.

“Pegue isto, você vai precisar.”

“Mas, pra quê.”?

“O sangue de um inocente.”

A menina encara o instrumento cortante espantada e toma coragem para pegá-lo. Ao voltar para a sala, ela forma um círculo de velas com atenção em frente ao espelho de madeira. Com o celular preso no cinto de sua calça e a lanterna acesa, ela pega uma caixa de fósforos ao lado do canivete e acende as velas, uma a uma. Com o círculo aceso, ela desliga a luz do celular e o coloca afastado das velas. A noite está escura e silenciosa e um trovão emite um estrondo alto. Por fim, ela abre a lâmina afiada do canivete e faz um corte bruscamente na palma de sua mão. Ela deixa gotas de sangue caírem sobre o círculo até cessarem e nota ondulações vindas do espelho. A voz de Johnny volta a se comunicar telepaticamente:

“Agora, repita depois de mim, ó espíritos das trevas, ouçam meu apelo.”

“Ó espíritos das trevas, ouçam meu apelo.” - ela repete.

“Libertem essa alma há tantos anos presa por um crime que não cometeu.” -  continua Johnny, agora sua voz ficando mais grave.

Os trovões começam a intensificar.

“Libertem essa alma há tantos anos presa por um crime que não cometeu.”

“Espíritos das trevas, tomem forma, revelem suas faces e voltem para o lugar de onde nunca deveriam ter saído quando essa alma um dia foi feliz.”

“Espíritos das trevas, tomem forma, revelem suas faces e voltem para o lugar de onde nunca deveriam ter saído quando essa alma um dia foi feliz.” - grita a menina.

Um grande relâmpago causa um estrondo.

Os espectros negros, vistos apenas pela luz das velas, rondam o círculo em que está a menina. Ela olha em volta abismada, enquanto o vento causa o farfalhar das árvores.

A menina se sente acuada e sem ação por um determinado tempo até que a luz de uma vela se apaga. Johnny a alerta:

“Rápido, não perca tempo, se todas as velas se apagarem será tarde demais.”!

Ela se concentra. Mantendo o foco no espelho, ela abre os braços e respira fundo. Ela os ergue para frente e com esforço, consegue mandar os espectros novamente para dentro do espelho num ato de telecinesia. Uma forte corrente de vento entra pelas janelas, apagando as velas em círculo e repentinamente as luzes da casa se acendem apesar da velha rede elétrica. A menina limpa sua narina escorrendo uma gota de sangue e olha em volta o vazio da casa, pisando em um objeto caído no chão do qual ela não havia notado. Um porta-retrato com o vidro tendo quebrado mostra um casal demonstrando intensa felicidade junto de um menino adolescente de não mais que doze anos. Percebendo algo a mais por trás da fotografia, ela retira de dentro um recorte de papelão do que parece ter sido uma embalagem de leite, onde há um anúncio com uma foto do mesmo menino com a descrição: “DESAPARECIDO! VOCÊ VIU ESTE MENINO.”?

Usando um velho taco de beisebol deixado em um dos cantos da sala, ela estilhaça o espelho em pedaços que se dissipam.

Ao raiar do dia seguinte, ela deixa a casa como se estivesse saindo de um lugar conhecido. A grama agora está verde e viva e a aura do ambiente manifesta uma leveza há muito tempo perdida. No portão aberto, foi deixado um carrinho vermelho para entrega de jornais contendo um sobrenome agora um tanto apagado. A menina olha para os lados na esperança de encontrar o dono do objeto, mas tem uma surpresa.

À sua frente está um homem em torno de um pouco mais de cinquenta anos, sorridente com seus cabelos castanhos escuros longos e ensebados, olhos castanhos radiantes e algumas sardas no rosto. A menina se alegra:

“Johnny, esse é você.”?

Ele confirma com a cabeça e olha para o carrinho deixado na calçada. Ele olha com incentivo para a menina.

“Você está dando ele para mim.”?

Johnny acena com a cabeça que sim e estende a sua mão.

No mesmo momento em que ela coloca a sua mão sobre a de Johnny, ele se desfaz em milhares de borboletas brancas voando alto para o céu. Com lágrimas nos olhos, ela diz emocionada:

“Adeus, Johnny.”

Antes de montar na bicicleta, ela se lembra do último jornal que falta a ser entregue. Curiosamente, a notícia em destaque contém o seguinte artigo: “CASO DE MENINO DESAPARECIDO NOS ANOS 80 É FINALMENTE ARQUIVADO. MÃE DA VÍTIMA ACREDITA QUE O FILHO AGORA ESTÁ EM PAZ.”

Sorrindo, ela enrola o jornal novamente e prende o carrinho vermelho atrás de sua bicicleta, pedalando a caminho de casa, sem notar uma das borboletas pousar em seu ombro.

 

 


 

Comentários 1

B
Bia Matera6 de agosto de 2025
Esse final com certa esperança foi bem bonito e mesmo com ele, a história foi forte o bastante pra me prender e dar um pouco de medo. Ótimo texto! Parabéns!</br>Me lembrou aquelas séries de terror para crianças dos anos 90 e 2000, como Clube do Terror ou A Hora do Arrepio.

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