Cavaleiro dos Sete Reinos Temporada 1 (Crítica)

Críticas Gerais

Crítica: O Cavaleiro dos Sete Reinos – 1ª temporada

Nota: 8,5/10

Depois de uma década em que Westeros parecia cada vez mais interessado em dragões, guerras civis e famílias se destruindo em salas enormes, O Cavaleiro dos Sete Reinos faz uma escolha quase subversiva: diminuir o tamanho da história.

E funciona.

A primeira temporada tem seis episódios e adapta O Cavaleiro Andante, de George R. R. Martin, acompanhando Sor Duncan, o Alto, e Egg. A série recebeu uma recepção crítica bastante positiva, com 94% no Rotten Tomatoes, embora a aprovação do público tenha sido mais moderada, em 79%. 

🟢 O maior acerto: Dunk e Egg

A alma da série está na relação entre os protagonistas.

Peter Claffey transforma Dunk em um herói curiosamente simples. Ele é enorme, forte e sabe lutar, mas não é um estrategista genial nem um jogador político. É um homem tentando fazer o que considera certo.

Já Dexter Sol Ansell faz de Egg uma excelente contraposição. O garoto é inteligente, provocador, curioso e muito mais importante para a história do que sua aparência inicialmente sugere.

A química entre os dois é excelente. A própria crítica internacional destacou repetidamente essa dupla como o principal motivo para a série funcionar. 

E existe uma diferença importante em relação a Game of Thrones: a amizade é o centro da história, não o poder.

🟢 Westeros visto de baixo

Essa talvez seja a ideia mais interessante da temporada.

Game of Thrones normalmente mostrava reis, rainhas, grandes lordes e generais.

House of the Dragon colocou a aristocracia Targaryen no centro.

Aqui, acompanhamos um cavaleiro errante praticamente sem dinheiro e um garoto que esconde uma identidade gigantesca.

Isso permite conhecer um Westeros muito mais cotidiano.

Tavernas, estradas, torneios, camponeses, pequenos nobres e cavaleiros esquecidos. É um mundo que existia nas outras séries, mas raramente ficava no centro da câmera.

A crítica brasileira do Omelete também destacou justamente essa mudança de escala, descrevendo a produção como uma aventura de capa e espada concentrada na amizade entre Dunk e Egg.

🟢 O humor é uma boa surpresa

Aqui está uma das maiores diferenças.

A série é bem mais engraçada que Game of Thrones e House of the Dragon.

E não é simplesmente uma tentativa de transformar Westeros em sitcom. O humor nasce principalmente da personalidade dos personagens e das situações absurdas em que Dunk se mete.

Isso cria um contraste interessante:

Westeros continua sendo brutal, mas os protagonistas ainda conseguem rir.

Alguns críticos consideraram o humor excessivo, principalmente as piadas envolvendo funções corporais. Outros acharam justamente essa irreverência um dos grandes diferenciais da produção. 

Para mim, funciona na maior parte do tempo, embora a série às vezes force a mão.

🟡 O problema: a história é pequena demais

Aqui está minha principal crítica.

A proposta de ser uma história menor é boa.

Mas menor não deveria significar lenta.

Em determinados momentos, a temporada parece estar esticando uma história que funcionaria melhor como um filme de aproximadamente duas horas e meia.

A própria recepção crítica apontou essa questão: alguns avaliadores consideraram que a narrativa tinha pouco material para preencher seis episódios.

E isso fica evidente principalmente na primeira metade.

Você passa bastante tempo acompanhando Dunk tentando conseguir uma oportunidade no torneio, conhecendo personagens e esperando a história realmente engrenar.

Quando finalmente engrena…

acabou.

É quase como preparar uma espada durante cinco episódios e só no sexto lembrar que era para usá-la.

🟡 A ação poderia ser melhor distribuída

Quando a série decide ser épica, ela consegue.

O torneio e especialmente o Julgamento dos Sete mostram que a produção possui capacidade para entregar cenas de ação muito boas.

Mas existe uma questão de expectativa.

Quem chegar esperando algo parecido com as grandes batalhas de Game of Thrones provavelmente ficará decepcionado.

A proposta é outra.

A ação é mais pessoal e menos espetacular. Isso é uma escolha válida, mas algumas sequências poderiam ter recebido mais espaço.

🟡 Os personagens secundários

Esse é outro ponto que poderia melhorar bastante.

Dunk e Egg recebem atenção suficiente.

Os demais, nem sempre.

Alguns personagens aparecem, têm potencial, começam a ficar interessantes e desaparecem antes que a série consiga desenvolver completamente suas personalidades.

Isso também afeta particularmente as personagens femininas. Críticas internacionais apontaram que elas acabam tendo participação bastante limitada na temporada. 

É uma pena porque Westeros fica mais interessante justamente quando consegue apresentar diferentes perspectivas sociais.

🔴 O que pode incomodar fãs de Game of Thrones

Se você espera:

grandes guerras;

dezenas de personagens;

conspirações políticas;

dragões;

batalhas gigantescas;

mortes chocantes constantemente;

reviravoltas a cada episódio;

essa não é a série.

E isso não é necessariamente um defeito.

Na verdade, acho que copiar Game of Thrones teria sido o pior caminho possível.

A série encontrou uma identidade própria dentro do mesmo universo.

🟢 A ambientação é excelente

Visualmente, é uma produção HBO bastante cuidadosa.

A direção consegue fazer Westeros parecer simultaneamente familiar e diferente.

Os torneios têm uma estética mais próxima de uma aventura medieval tradicional, enquanto as estradas e pequenas comunidades dão à série uma sensação quase de road movie medieval.

A fotografia também recebeu elogios, especialmente nas cenas de torneio e nos ambientes mais naturais. �

Rotten Tomatoes Editorial

E a trilha sonora sabe quando brincar com a nostalgia de Game of Thrones sem transformar tudo em fan service.

🟢 O episódio 4 é o ponto de virada

"Seven" é provavelmente o episódio que melhor demonstra o potencial da série.

É quando a narrativa finalmente abandona a sensação de aventura episódica e transforma o conflito de Dunk em algo realmente perigoso.

A partir daí, a série ganha peso.

E o contraste é interessante:

começamos com uma história quase cômica sobre um cavaleiro pobre tentando entrar em um torneio e terminamos diante de consequências muito mais sérias.

Essa progressão é um dos melhores aspectos da temporada.

🟢 O final

Sem entrar em spoilers desnecessários:

o final funciona justamente porque não tenta transformar Dunk em um novo Jon Snow ou Daenerys.

Ele continua sendo Dunk.

Um homem simples tentando descobrir que tipo de cavaleiro quer ser.

E Egg começa a ganhar uma dimensão muito maior.

A temporada termina deixando uma sensação clara de que estamos apenas vendo o começo de uma amizade que poderá se tornar historicamente importante dentro de Westeros.

Isso é particularmente interessante porque o espectador já conhece parte da história futura daquele mundo.

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