Crítica | Idiotas

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Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Comédia ácida encontra na melhor atuação de Kiernan Shipka um dos seus grandes trunfos e usa o absurdo para discutir escolhas, crenças e as consequências das decisões que tomamos

Por Andreza Nunes

Gosto de Dave Franco, realmente porque ele nunca parece limitado a um único papel. Como ator, consegue circular entre terror e comédia com uma facilidade que poucos conseguem, somado a isso existe um olhar muito particular quando ele está atrás das câmeras. O Aluguel (2020) e Alguém Que Eu Costumava Conhecer (2023) mostram isso de maneiras completamente diferentes. Foi por ele que Idiotas (Idiots, EUA, 2026) despertou minha curiosidade, mesmo sendo uma comédia, gênero que não costuma estar entre minhas primeiras escolhas. Exibido no Festival de Sundance, o filme ainda reúne O'Shea Jackson Jr. e Mason Thames em uma história que sabe exatamente o quanto quer ser absurda.

Na trama, Mark (Franco) e Davis (Jackson Jr.) recebem a missão de levar um adolescente rico, interpretado por Thames, até uma clínica de reabilitação. O que parece um serviço relativamente simples, rapidamente ganha outra proporção quando a viagem sai do controle. A graça está menos na situação em si do que na maneira como esses três personagens, com personalidades tão distintas, são obrigados a conviver durante esse percurso.

Mark e Davis funcionam quase como opostos. Mark tem uma visão mais realista e crua da vida, enquanto Davis é mais sonhador e conduz suas decisões a partir de crenças. Mason, por outro lado, está em outro lugar. Seu personagem é mimado, inconveniente e completamente acostumado a ultrapassar limites. Ele não parece apenas alguém que tomou algumas decisões ruins, mas um garoto que ainda não entende que as escolhas têm consequências. E é aí que o filme encontra uma de suas ideias mais interessantes: o quanto as decisões que fazemos determinam os caminhos que passamos a percorrer, mesmo quando acreditamos que ainda temos controle sobre eles.

O roteiro não está interessado em transformar essa discussão em uma lição de moral. Pelo contrário. Idiotas preferem colocar seus personagens em situações cada vez mais absurdas e deixar que o próprio caos produza as perguntas. O humor é ácido, escrachado e deliberadamente pouco preocupado em ser politicamente correto. Há uma disposição clara de provocar o espectador, inclusive quando algumas situações ultrapassam o limite do plausível. Só que o exagero não está ali por acaso. A hipérbole é justamente o mecanismo que permite ao filme falar sobre comportamento, escolhas e diferentes maneiras de enxergar a vida sem abandonar a proposta de uma comédia.

E se existe alguém que surpreende dentro dessa proposta é Kiernan Shipka. A atriz está muito distante da imagem que o público construiu a partir de trabalhos anteriores e encontra aqui uma personagem com outra energia. É, para mim, a atuação mais madura de sua carreira. Até a referência à série Sabrina funciona porque brinca com essa expectativa que ainda existe em torno da atriz, ao mesmo tempo em que mostra que ela pode ocupar um lugar completamente diferente em cena. Shipka tem presença, personalidade e uma liberdade que faz pensar que talvez este seja o tipo de papel capaz de abrir uma nova fase em sua carreira.

No fim, Idiotas é um filme com personalidade. Não porque seja necessariamente uma comédia para todos os públicos, mas porque sabe qual experiência quer proporcionar e não tenta se adaptar para agradar quem procura outro tipo de humor. Dave Franco ajuda a sustentar essa mistura com sua versatilidade, Mason Thames abraça um personagem difícil de gostar e Kiernan Shipka surge como a grande surpresa. É uma comédia que transforma o absurdo em ferramenta para falar sobre escolhas, consequências e diferentes formas de enxergar a vida. 

Nota: 📼📼📼

 

 

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