A Melancolia do Sucesso: La La Land e o Preço dos Sonhos

Críticas Gerais

Dez anos desde o lançamento de “La La Land: Cantando Estações”. Lembro-me de quando fui ao cinema para assistir o provável filme que ganharia o Oscar e acabar me surpreendendo com sua história e seus dilemas. Para comemorar essa efeméride, o relançamento está marcado para o dia 20 de agosto, dessa forma somos convidados mais uma vez, ou pela primeira vez,  a assistir uma das obras mais marcantes do cinema recente.  Em primeiro plano, o longa de Damien Chazelle se apresenta como uma carta de amor à Era de Ouro do cinema americano, com números musicais exuberantes e aquela estética encantadora. Já por trás dessa fantasia, há uma reflexão melancólica sobre o preço do sucesso e o conflito constante entre os sonhos e a realidade.

Trabalhar com arte não é algo fácil. Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) vivem nesse dilema que impacta qualquer um que já tentou, ou pensou, em viver disso. Ela sonha em se tornar atriz, mas enfrenta audições frustrantes enquanto trabalha servindo café dentro de um estúdio de cinema. Ele é apaixonado pela história do jazz e luta para preservar sua essência, se recusando a abrir mão de seus princípios artísticos. Deixando claro que o talento e a dedicação não é algo que importa em um mundo regido pelo capital e pela lógica de mercado.

Los Angeles ferve em sua essência, o que acaba deixando com que a cidade deixe de ser apenas o plano de fundo para a história contada e acaba se tornando um personagem assim como Mia e Sebastian. Uma grande metrópole, que assim como as outras, alimenta os sonhos ao mesmo tempo em que cobra um preço alto por eles. Nesse contexto, o encontro entre os personagens parece quase inevitável. Dois artistas perdidos encontram um no outro o apoio necessário para continuar acreditando.

Essa trajetória dos dois é narrada através das estações do ano –  por isso que eu adoro o subtítulo em português –  que funcionam como um reflexo da própria relação do casal. No inverno, predominam a frieza, aquele momento onde o relacionamento dos dois passa a sensação de desencontro e isolamento. Tons azulados e sombras profundas, enquanto o desenho de som enfatiza os ruídos da cidade, transmitindo uma forma de solidão dos personagens.

Com a chegada da primavera e do verão, o romance floresce e o filme parece se transformar junto as estações. Ganhando cores vibrantes e enquadramentos luminosos. Os ruídos urbanos cedem lugar às canções e aos duetos dos personagens, trazendo aquela sensação de calor no romance dos dois. Algo como se o amor fosse capaz de suspender, ainda que temporariamente, as exigências do mundo real.

Mas inevitavelmente, o outono chega. Em inglês, “fall” em uma tradução literal, significaria “queda”. É quando a necessidade de sobreviver fala mais alto. Sebastian aceita integrar uma banda de pop-jazz da qual discorda artisticamente. No entanto, é nesse projeto que alcançaria a estabilidade financeira, enquanto Mia se entrega completamente à carreira. O sucesso começa a afastá-los. A fotografia perde o brilho, adotando tons mais sóbrios. A montagem passa a privilegiar cortes mais secos, evidenciando a distância emocional entre eles. Até na trilha sonora há essa ruptura, trocando o jazz intimista dos clubes e do piano de cauda ao espetáculo grandioso dos palcos e do teclado. Abafando a conexão que existia entre os dois.

É justamente nesse momento que o filme se diferencia para mim. Ele não acaba tratando o amor como algo insuficiente, mas reconhece que, muitas vezes, ele não é capaz de vencer as circunstâncias da vida. E quais são os esforços precisos para alcançar seus sonhos? Mia e Sebastian precisam fazer escolhas. E, entre elas, está justamente abrir mão da pessoa que caminhava ao seu lado desde o início.

Essa construção culmina no ápice. Um epílogo ambientado no Seb's, o tão sonhado clube de jazz de Sebastian. Em cerca de dez minutos, sem praticamente uma única palavra, Damien Chazelle entrega uma verdadeira aula de narrativa visual. Através de uma realidade imaginada, o filme apresenta tudo aquilo que poderia ter acontecido caso as escolhas da vida tivessem sido outras e se as escolhas tivessem sido diferentes. É a materialização do eterno “e se?”.

Quando a música termina e as luzes se acendem, Mia e Sebastian trocam apenas um último olhar. Não existe ressentimento ou arrependimento. Há somente o reconhecimento, e eu diria que até em forma de agradecimento, de que ambos conseguiram realizar os sonhos pelos quais tanto lutaram, mas que essa conquista exigiu um sacrifício daquele amor.

Dez anos depois de seu lançamento, La La Land continua me emocionando porque compreende essa verdade difícil de aceitar. Nem todos os grandes amores foram feitos para durar. Alguns existem justamente para nos transformar e nos conduzir até a pessoa que nos tornaremos.

Comentários 1

V
Valeria Petean7 de agosto de 2026
Esse filme é lindo!

Deste autor