Diabo Veste Prada 2 entende o que mudou
Críticas GeraisVinte anos depois, a continuação troca a nostalgia por uma discussão sobre jornalismo, criatividade e poder.
É sempre uma surpresa quando uma continuação (não exatamente desejada) consegue reverberar de forma positiva vinte anos depois do filme original. O Diabo Veste Prada 2 traz à tona temas extremamente atuais, muito além do simples reencontro com Miranda, Andrea, Nigel e Emily.

Se, em 2006, a jovem Andy Sachs sonhava em entrar para um grande jornal e construir uma carreira como jornalista, duas décadas depois ela precisa pensar em como fazer suas matérias performarem, aumentar métricas e sobreviver em um mundo movido pelo imediatismo da informação e pela lógica do clickbait. O filme acerta ao mostrar que o jornalismo mudou — e muito.
Outro ponto muito interessante é a discussão sobre arte, inteligência artificial e bilionários querendo assumir as mídias. Que tempos tenebrosos.
Ver Miranda — ou melhor, Meryl Streep — com os olhos marejados, falando com um suposto Elon Musk sobre como o humano permanecerá na posteridade através das ideias que saem da nossa cachola, seja na escultura, no cinema, na pintura ou na moda, diante da Última Ceia, de Leonardo da Vinci… é, me emocionou.

Entre looks impecáveis, músicas inéditas muito boas e piadas que agora transitam entre o universo fashion e o corporativo (sim, Miranda agora precisa tomar cuidado com seus comentários, senão o compliance da Runway cai em cima dela), David Frankel acerta ao mostrar essa nova dinâmica do mundo jornalístico sem perder o humor ácido que sempre definiu seus personagens.
O Diabo Veste Prada 2 acerta ao criticar o mundo atual sem abrir mão do humor que sempre fez parte da franquia. Só continua escorregando em um ponto: a vida amorosa de Andy, que, mais uma vez, só serve para nos fazer passar raiva.
No fim, o maior acerto de O Diabo Veste Prada 2 talvez seja entender que, vinte anos depois, a moda deixou de ser o centro da conversa. O poder mudou de lugar. Agora ele está nos algoritmos, nas plataformas, nas métricas e nos bilionários que disputam o controle da informação. É justamente por perceber essa mudança que a continuação encontra um motivo legítimo para existir. E, em tempos em que a criatividade humana parece precisar justificar a própria existência, acho bem-vinda qualquer obra que ainda escolha defendê-la. Como quem escreve este texto.









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