A natureza itinerante dos irmãos Coen, e o poder de registro do cinema - E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?

Aspectos Socioculturais

A grande marca autoral que rege os filmes dos Coen é a maneira como eles constroem a história americana em seus filmes. Os dois irmãos são como autores itinerantes que viajam pelas regiões de seu país ao decorrer do tempo, analisando os marcos temporais que construíram o pensamento dos Estados Unidos.

Em seu grande filme, Onde os Fracos Não Têm Vez, eles analisam a crueldade de um tempo em mudança; em Fargo registram os costumes e manias de uma região enquanto exploram os piores atos possíveis da alma humana; eu posso continuar catalogando cada um de seus filmes procurando essas relações e elas estariam lá.

Essa característica itinerante está em sua maior representação neste filme. E Aí,  Meu Irmão, Cadê Você? é um filme que assim como Onde os Fracos Não Têm Vez captura um momento de passagem do tempo. Um momento em que os Estados Unidos chegavam ao novo século, ou melhor, um momento em que uma região do país chegava nesse momento. E para registrá-la estão os Coen e suas personagens. Os três protagonistas caminham sob a região enquanto encontram em suas jornadas as figuras que fazem parte do folclore do sul, servindo como testemunhas das maneiras sulistas, positivas e muito negativas, que aqui existem como artifícios narrativos à obra.

A escolha de capturar esse momento da região Sul do país gera em sua concepção uma carga humorística à obra, tendo em vista que ao colocar esse momento de mudança em uma região caracteristicamente conservadora os irmãos mostram o quão retrógrado é o pensamento que rege o seu país. Exibindo como o pensamento geral ainda se mantém o mesmo em muitas formas.

O cinema como registro histórico 

Essa análise histórica que os irmãos constroem sobre os Estados Unidos passa também por um diálogo interessante que eles criam em seus filmes com o cinema americano. Não estando tão interessados em um registro verossímil da realidade quanto em capturar a maneira como o cinema enxerga as regiões e períodos retratados, o cinema dos Coens acaba por substituir o real pelo cinematográfico, e nessa escolha suas obras passam a refletir o poder que o cinema possui como documento, e em nenhuma outra obra deles isso se faz tão claro quanto nessa. 

O exemplo que mais me salta a cabeça é a maneira como a figura do gangster é tratada aqui, não contendo dimensionalidade alguma em seu retrato pois é assim que o cinema dos anos 30 o filmaria. É uma figura “infantil” que relembra a cena de Scarface em que Hawks filma seu protagonista com o brilho de uma criança ao ter suas mãos em uma arma, não existia nessas figuras a “malícia” que o cinema pós anos 60 atribuiria a elas, havia sim um lado sombrio, mas um que era aceitável à sociedade, sob a ótica dos órgãos censores. E assim foi construída a imagem dos gangsters de chapéu, sobretudo e metralhadoras, e é assim que os Coens o retrata.

Toda imagem em E Aí, Irmão, Cadê Você? é construída a partir do cinema que cerca os anos 30, ou pela maneira como esse período é historicamente filmado. Ele parte de Scarface, à As Vinhas da Ira, à O Nascimento de Uma Nação, e essas inspirações servem como reinvenção e reflexão ao mostrar a evolução do cinema e a estagnação do pensamento regente. O cinema pode ter evoluído em seus retratos, mas o que cerca esses retratos ainda se mantém o mesmo de várias formas, e muito devido as consequências de antigos retratos feitos pelo cinema, O Nascimento de Uma Nação foi feito em 1915 e há o argumento de que ainda precisamos superar as suas consequências.

Quase 100 anos se passaram e ainda pessoas são perseguidas pela sua cor, quase 100 anos se passaram e ainda políticos supremacistas estão em lugar de poder.

Uma das imagens finais do filme escancaram isso, vemos Everett e sua família passando por um Billboard que promete um futuro melhor enquanto caminham em direção ao mesmo cenário bucólico que toma conta do resto do filme. O futuro melhor não passa de uma promessa material, enquanto o pensamento dominante continuará sendo o mesmo, mudando somente quando, e se for, beneficiar aqueles em poder.

 

Comentários 0

Ainda não há comentários.

Deste autor