A viagem através das palavras
Aspectos SocioculturaisSempre que imagino sobre o que define um evento marcante, penso em algo que nos atravessa de fora a fora e, através dessa travessia, nos divide em antes e depois do acontecimento. Portanto, considero que seja algo que nos transforma de tal maneira que nunca mais seremos os mesmos depois dessa vivência, que marca o nosso corpo de fora a fora, a ponto de nos modificar em alguma medida.
Considerando toda essa minha definição de evento marcante, penso sobre a linguagem e como ela pode ser usada para mostrar a nossa existência, nossa destruição e todas as nossas transformações. A comunicação, mediada pela linguagem, nos faz humanos e constitui tudo o que compreendemos sobre o que é ser humano. Olhando por essa perspectiva, não existe nada mais transformador, ou seja, marcante, do que a linguagem.
Refletindo sobre todas essas questões, peguei-me pensando sobre a minha relação com a linguagem e com a escrita. Percebi que, em todos os momentos onde pego o papel e a caneta na mão e começo a rabiscar alguns dos símbolos da linguagem, as letras, sou teletransportada para dentro do meu peito, onde guardo todos os resquícios das marcas daquilo que me atravessou de fora a fora. Consequentemente, sou transformada de fora a fora.
Escrever, para mim, sempre foi como viajar para dentro de mim mesma. Coloco todos os meus pensamentos e sentimentos dentro da minha mala e pego uma estrada de palavras que me leva para o espaço mais íntimo da minha essência. Devo confessar: o lugar em que sou mais honesta e sincera se encontra no meu caderno de poesias, o qual levo comigo para todos os cantos. Nele, guardo diversas confissões e relatos sobre as aventuras de entrar em contato com as minhas interpretações das experiências que vivencio e os sentimentos que as constituem.
Todas as vezes que me teletransporto para dentro de mim, sou tomada por uma mistura de dor e de alívio, pois sempre vai doer entrar em contato com o que a gente guarda sob a pele. Esse grau de intimidade conosco mesmos também envolve se deparar com as partes mais sombrias que tentamos ocultar. Entretanto, há alívio em externalizar e expressar todas essas coisas que existem dentro do nosso âmago. Todavia, como definir a escrita de outra forma que não seja arte?
Quando escrevo, realizo uma viagem artística para as partes que ninguém vê de dentro do meu corpo. É uma aventura extremamente íntima e particular que me revoluciona e constitui uma parcela considerável de quem eu sou. Analisando tudo isso, penso que escrever requer muita coragem, e isso nos modifica em alguma medida; e o que nos modifica de alguma forma também deixa marcas.
Portanto, escrever sempre será a minha viagem mais marcante, pois, sempre que preparo minhas bagagens com sentimentos, vivências e ideias, inicio uma trajetória que começa e termina em mim mesma.
Todavia, a minha viagem inesquecível é a de escrever, seja uma poesia, uma resenha ou um trabalho da faculdade, não importa. A escrita, por ser uma representação simbólica da linguagem, sempre será marcante e, consequentemente, transformadora.



Comentários 0
Ainda não há comentários.