Conhecendo - A Morte do Demônio
CuriosidadesNo final dos anos 1970, três jovens universitários de Michigan decidiram que iam fazer um filme de terror. Eles não tinham dinheiro, não tinham estúdio e não tinham experiência profissional. O que eles tinham era uma câmera de 16mm, uma determinação cega e uma cabana caindo aos pedaços no meio do nada. Esses jovens eram o diretor Sam Raimi, o produtor Robert Tapert e o ator Bruce Campbell. O resultado dessa aventura mudaria o cinema de horror para sempre.
O Curta-Metragem que fisgou os investidores
Antes de dar vida ao clássico que conhecemos, o trio precisava provar que conseguia assustar o público para conseguir financiamento. Com apenas 1.600 dólares, eles filmaram um curta-metragem chamado Within the Woods (1978). O curta funcionou como um protótipo, apresentando os elementos que se tornariam a assinatura da franquia: o livro dos mortos, a possessão demoníaca e a icônica câmera em primeira pessoa correndo pela floresta simulando a "força invisível". Munidos com o curta, eles conseguiram arrecadar cerca de 350 mil dólares com investidores locais, como dentistas e empresários de Detroit para rodar o longa-metragem.

O Calvário nos Bastidores: "O Filme de Terror Mais Doloroso da História"
As filmagens de The Evil Dead (1981) começaram no inverno de 1979 em uma cabana real e isolada em Tennessee, sem água encanada e com um frio congelante. O que deveria durar algumas semanas se arrastou por meses, e as condições se tornaram insalubres.
Os bastidores da produção são lendários pelo nível de sofrimento da equipe:
- Efeitos Práticos Extremos: A maquiagem dos demônios (Deadites) levava horas para ser aplicada. As famosas lentes de contato brancas e grossas usadas pelos atores eram feitas de vidro óptico rígido, o que cortava a visão quase por completo e causava dores terríveis após poucos minutos de uso.
- Sangue Caseiro: O sangue artificial era uma mistura pegajosa de xarope de milho (Karo), corante alimentício e cremes. Ao final do dia, o xarope secava nas roupas e na pele dos atores sob o frio intenso, fazendo com que as roupas ficassem duras como papelão e que arrancassem pelos do corpo ao serem retiradas. Bruce Campbell chegou a queimar móveis da própria cabana nos últimos dias para que a equipe não congelasse.

A Câmera Inventiva de Sam Raimi
Sem orçamento para equipamentos profissionais como trilhos ou guindastes, Sam Raimi usou a pura criatividade para criar a linguagem visual do filme. Ele inventou a "Vas-O-Cam": uma câmera montada em uma tábua de madeira simples que era carregada por dois operadores correndo o mais rápido que podiam pelo pântano e pela mata, criando aquele efeito de velocidade frenética e desesperadora do demônio perseguindo as vítimas.

O Empurrãozinho do Rei do Terror
Apesar de finalizado, o filme teve dificuldades para encontrar distribuição. Tudo mudou no Festival de Cannes em 1982, onde o mestre do terror Stephen King assistiu a uma exibição. King ficou tão impressionado que escreveu uma resenha para uma revista chamando The Evil Dead de "o filme de terror mais ferozmente original do ano". Essa frase foi usada nos pôsteres e abriu as portas dos cinemas do mundo inteiro para o filme.
O "Pai" de um Clichê (A Cabana na Floresta)

Embora não tenha sido o primeiríssimo filme a usar um isolamento rural (filmes como Massacre da Serra Elétrica já existiam), The Evil Dead (1981) lapidou e imortalizou o subgênero da cabana na floresta. O arquétipo dos “cinco jovens que viajam para uma cabana isolada e libertam um mal antigo ”sem querer" virou a fundação de quase todo o cinema de terror moderno, sendo referenciado e desconstruído décadas depois por produções como O Segredo da Cabana (2011).
Evil Dead 2 (1987) - Sequência, Remake ou "Reboot"?

Evil Dead II (conhecido no Brasil como Uma Noite Alucinante 2) é uma das sequências mais fascinantes e bizarras da história do cinema.
Muitos espectadores ficam confusos com os primeiros dez minutos de Evil Dead II (1987). Como Sam Raimi não tinha os direitos do primeiro filme, para recapitular a história, ele optou por refazer os eventos do original de forma ultra-resumida, mas com uma grande diferença, no primeiro filme, cinco amigos vão à cabana. No segundo, apenas Ash (Bruce Campbell)e Linda (Denise Bixler) vão para lá.
O filme opera em uma espécie de realidade alternativa. Não é um remake total, mas uma "recontagem" condensada para colocar o público no clima antes de iniciar a verdadeira continuação (que começa exatamente quando a força invisível arremessa Ash pelas árvores).
É em Evil Dead II que Bruce Campbell deixa de ser a vítima covarde do primeiro filme para se transformar no ícone da cultura pop que conhecemos hoje.
No primeiro filme, Ash está longe de ser o "fodão" que conhecemos. Ele é um jovem comum, tímido e visivelmente o mais covarde do grupo de amigos. É aqui que o personagem é redefinido para sempre. O isolamento e o terror na cabana quebram a mente de Ash, e é dessa loucura que nasce o herói clássico de ação.

Após ser forçado a decepar a própria mão possuída com uma motosserra, Ash desiste de chorar e decide lutar. Ele acopla a motosserra no braço, pega uma espingarda cano curto (sua famosa Boomstick) e adota uma postura cínica e cheia de frases de efeito ("Groovy", "Hail to the king, baby"). Ele se torna uma mistura de herói de quadrinhos com um personagem de desenho animado hiper-violento.
Ash quebrou o padrão dos heróis de terror dos anos 80. Enquanto outras franquias focavam nos monstros (Jason, Freddy, Michael Myers), Evil Dead se sustentou nos ombros do seu protagonista humano.
Army of Darkness (1992) - A Mudança Radical de Gênero: Adeus, Terror!

Se o primeiro filme era terror puro e o segundo era uma comédia de terror, o terceiro chuta o balde de vez. Sam Raimi usou o orçamento bem maior da Universal Pictures para realizar um sonho de infância: fazer um filme de aventura e medieval, misturando monstros e humor rasgado.
A atmosfera do medo que foi estabelecida pelos filmes anteriores é totalmente substituído pela galhofa e pela ação. Os demônios assustadores (Deadites) agora parecem vilões de desenho animado que fazem piadas enquanto lutam.
A Censura e os Cortes: O Sangue Sumiu?
Uma das maiores surpresas para quem assiste à trilogia em sequência é a ausência quase total de gore no terceiro filme.
Enquanto os dois primeiros nadavam em baldes de sangue e tripas, Army of Darkness (1992) recebeu a classificação indicativa PG-13 nos EUA (inadequado para menores de 13 anos).

Sam Raimi teve que amenizar a violência visual para que o filme pudesse passar em mais salas de cinema e atrair o público adolescente. O terror visceral deu lugar à violência de desenho animado (estilo Looney Tunes), onde decapitações de esqueletos geram poeira e ossos quebrados em vez de sangue.
Essa evolução transforma a saga Evil Dead em uma das poucas franquias onde a mudança drástica de tom e gênero entre os filmes não destruiu a marca, mas sim a consagrou.
A Morte do Demônio (2013) - O Significado Real De Remake

Após mais de 20 anos sem um filme nos cinemas (desde Army of Darkness em 1992), Sam Raimi e Bruce Campbell decidiram passar o bastão.
Ele foi vendido como um remake, mas funciona perfeitamente como uma continuação indireta. Ele se passa no mesmo universo dos filmes originais (o carro do Ash, o Oldsmobile Delta 88, aparece abandonado e coberto por vegetação perto da cabana), mas foca em um grupo de personagens totalmente novo.
Se os filmes originais do Sam Raimi abraçaram a comédia pastelão com o passar do tempo, o filme de 2013 faz o caminho inverso, no comando do diretor Uruguaio Fede Alvarez (Alien: Romulus) qualquer traço de humor ficou no passado. O filme é um terror de sobrevivência claustrofóbico, sério, tenso e extremamente violento.

Diferente do clássico onde jovens vão apenas passar as férias, a versão de 2013 dá um motivo dramático e muito mais maduro para eles estarem isolados, O grupo vai para a cabana isolada para apoiar a protagonista, Mia (Jane Levy), em um processo de desintoxicação de drogas.
Isso é genial para o roteiro, porque quando Mia começa a ver coisas e agir de forma estranha devido à possessão do Naturom Demonto (o livro dos mortos dessa versão), seus amigos acham que são apenas os sintomas terríveis da crise de abstinência. Isso atrasa a reação deles e sela o destino de todos.

Não podemos falar desse filme sem falar da Mia (Jane Levy), ela começa o filme como a vítima fragilizada e a primeira a ser possuída (gerando algumas das cenas mais icônicas e perturbadoras do filme).
No terceiro ato, ela passa por uma transformação e assume o papel de "Final Girl", herdando o legado de casca-grossa do Ash, culminando em um confronto final épico e sangrento sob uma chuva de sangue.
O uso de efeitos práticos (maquiagem, próteses, baldes de sangue real) em uma era onde o cinema estava saturado de CGI malfeito foi visto como um enorme acerto e um respeito profundo ao cinema de raiz.
Na indústria do terror, arrecadar quase seis vezes o valor do seu orçamento é considerado um sucesso estrondoso. Foi esse desempenho que provou que a marca Evil Dead ainda era lucrativa no século XXI e abriu as portas para futuras obras.
Ash vs Evil Dead (2015-2018): Celebração Definitiva Do Trash

Se o filme de 2013 foi para um lado sombrio e realista, a série Ash vs Evil Dead (lançada em 2015 pelo canal Starz) fez exatamente o oposto, recuperando toda a raiz da franquia original e da nostalgia dos anos oitenta.
A sua premissa segue trinta anos após os eventos de Army of Darkness, Ash não é um herói condecorado. Ele é um cinquentenário barrigudo, que mora em um trailer, trabalha como estoquista em uma loja de departamentos (a ValueStop) e passa as noites bebendo em bares baratos tentando impressionar mulheres.
O mal não volta por um plano maligno complexo, mas sim pela pura estupidez de Ash. Ele fica chapado de maconha com uma mulher em seu trailer e, para impressioná-la recitando poesia, ele abre o Necronomicon e lê as palavras proibidas em voz alta. O mal desperta novamente.

Apesar do amor gigante dos fãs e da aclamação crítica, a série sofria com a pirataria em massa e a baixa audiência no canal pago Starz, o que levou ao seu cancelamento.
E após o cancelamento da série, Bruce Campbell anunciou oficialmente que estava aposentado fisicamente do papel de Ash Williams, alegando que o corpo já não aguentava mais as exigências físicas (e a quantidade de sangue) que o personagem exigia.
A Morte do Demônio: A Ascensão (2023) - Adeus à Cabana na Floresta

O maior trunfo de A Morte do Demônio: A Ascensão foi quebrar a regra de ouro da franquia. Pela primeira vez na linha principal de filmes, a história não se passa em uma cabana isolada na floresta, mas sim no coração de uma metrópole: um prédio residencial condenado e claustrofóbico em Los Angeles.
O diretor Lee Cronin (Maldição Da Múmia) conseguiu isolar os personagens de forma genial. Um terremoto destrói as escadas, quebra os elevadores e corta a energia do prédio, transformando um andar de apartamentos em uma armadilha mortal tão isolada quanto qualquer floresta.
A trama acompanha duas irmãs distantes: Beth, uma técnica de som de bandas que acabou de descobrir que está grávida, e Ellie, uma mãe solo que vive com seus três filhos (Danny, Bridget e Kassie) no prédio condenado.
O filme equilibra o gore extremo e visceral do remake de 2013 com pitadas do humor negro e sadismo bizarro dos filmes originais. Espere muito uso criativo de objetos domésticos (como um ralador de queijo) e, claro, a tradicional motosserra.
A Lore do Livro (O Necronomicon)

Uma das maiores curiosidades para os fãs da franquia é a revelação de que existem três volumes conhecidos do Livro dos Mortos (Naturom Demonto ou Necronomicon Ex-Mortis).
O primeiro é o livro dos filmes originais de Ash Williams.
O segundo é o livro do remake de 2013 dirigido por Fede Alvarez.
O terceiro é o livro que aparece em Evil Dead Rise, que possui um design ligeiramente diferente, com dentes na capa e veias salientes.
A Morte do Demônio: Em Chamas (2026) - Casos de Família

Sendo uma continuação direta dos acontecimentos de A Ascensão (2023), o sexto filme da franquia estreia este ano nos cinemas.
O filme brinca com a ideia de que "os votos feitos no casamento continuam valendo mesmo após a morte", transformando o luto e as picuinhas de família em uma bizarra e sangrenta reunião familiar vinda do inferno.
Evil Dead Wrath (2028) - De Olho no passado

Enquanto o recém-lançado Em Chamas (Evil Dead Burn) apostou em uma história contemporânea e urbana, Wrath vai dar um passo atrás para contar uma história de origem. Diferente dos últimos lançamentos, Evil Dead Wrath será uma prequela direta do filme original de 1981 criado por Sam Raimi.
A história se passará no ano de 1972 (quase uma década antes dos eventos do primeiro filme com o personagem Ash Williams).
O enredo deve explorar como as forças do Necronomicon (o Livro dos Mortos) já atormentavam e faziam vítimas na região bem antes do clássico grupo de amigos encontrar a famosa cabana na floresta.
A produção continua blindada pelos criadores originais, Sam Raimi e Rob Tapert, garantindo que o banho de sangue e o terror raiz continuem intactos e tem estreia prevista em Abril de 2028.




















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