Crítica | O Convite

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Foto: A24/Divulgação

Longa estreia nesta quinta (9)

Há momentos em nossas vidas em que vivemos empacados. Ou que temos que lidar com os rumos em que nossas vidas tomaram. Isso acaba nos tomando de uma maneira, que nem demos conta do quão mudamos – e também do quão as coisas ao redor mudaram, inclusive nossa vizinhança, dos quais se trabalha para se manter a boa e velha convivência.

Neste cenário, estão Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde), um casal que se vê preso à rotina da própria relação. O relacionamento está à beira do colapso, mas ambos levam com a barriga, do jeito que dá. Até eles casualmente convida seus vizinhos Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz) para um jantar. No entanto, o que era pra ser uma noite tranquila e descontraída, se transforma numa sequência repleta de reviravoltas inesperadas ao se descobrir que o misterioso casal, talvez, sejam adeptos de orgias e de relações abertas, e que estariam dispostos para realizar O Convite (The Invite, EUA, 2026).

Olivia Wilde, que já mostrou um trabalho primoroso em Booksmart (2019), repete a fórmula da comédia de situações neste seu novo filme que chega aos cinemas nesta semana. Wilde vem amadurecendo o seu tino na sua direção, nos proporcionando uma química exalante entre o quarteto de protagonistas pouco antes vista recentemente. Angela e Joe são um reflexo recente dos casais contemporâneos que estão passando em pleno período balzaquiano: se encontrando numa fase em que a rotina e as necessidades familiares dominaram e eclipsaram sonhos e desejos. Em que a realidade se impôs às próprias expectativas, em que você a aceita a muito contragosto, e que não há outra alternativa, a não ser: aceitar.

Já o casal Hank e Piña são justo aquela grama que a consideramos mais verde. Aquele casal da época de escola ou faculdade que aos nossos olhos é perfeitinho, sem defeitos, em que (quase) nada dá errado. E é o casal que dá o sacode em Joe e Angela, que tentam ser legais, mas que no fundo não suportam os vizinhos – nada de muito diferente que vemos no cotidiano. Além da direção de Wilde e do ótimo roteiro assinado por Rashida Jones e Will McCormack, a atuação do elenco é que faz com que O Convite seja um deleite. Em cada cena em cada gafe é cometida, a melhor é sempre a próxima.

Apesar de se apresentar inicialmente como uma comédia, O Convite mostra também um lado dramático que cada ator e atriz aqui possuem. Sendo que já se conhece bem esses lados de Olivia Wilde, Penélope Cruz e Edward Norton. Por aqui vemos um lado mais dramático de Seth Rogen, que mesmo tenha trabalhado dramaticamente muito bem em longas como 50% (2011) e Os Fabelmans (2022), ainda é um ator com forte ligação com a comédia. Vemos um Joe que não consegue lidar com suas frustrações, com seus considerados “fracassos”, refletindo o que muitos que se calcificaram com as dores e imposições da vida, e fiquem extremamente desconfortáveis quando confrontados, aqui no caso por Piña e Hank. Mesmo tendo uma ampla participação do quarteto, é por meio de Joe em que se desperta a reflexão mais profunda, quando “enterramos” nosso eu-sonhador em prol daquilo que é imposto pela sociedade.

É redundante dizer que O Convite é um dos melhores filmes do ano, em meio a outras gratas surpresas de produções autorais originais e fracassos de blockbusters. Obter convites assim instigantes e curiosos é lisonjeável, e não podem ser ignorados ou desperdiçados – por outro lado, não é todo mundo que consegue receber tais convites tão bem.

Nota: 📼📼📼📼📼

Bônus-Track: Sade — Kiss of Life

 

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