Paul Newman, o anti Eastwood e Hawks - comentário sobre Uma Lição Para Não Esquecer (1971)
Aspectos SocioculturaisUma Lição Para Não Esquecer, filme de 1971 dirigido pelo grande Paul Newman, termina sua história com um dedo do meio póstumo do personagem de Henry Fonda aos trabalhadores em greve. A imagem simboliza a vitória do individualismo nessa batalha travada pelos Stampers, a família protagonista do filme, sobre o coletivo. O dedo do meio de Henry Fonda é em teoria a marca final de uma obra direitista e anti-socialista que reforça os mitos liberais americanos.
Bom, isso tudo é verdade. Mas o que faz Uma Lição Para Não Esquecer um grande filme é que não é tão simples assim.
A história do filme segue uma família de madeireiros que se recusam a participar de uma greve, fato que revolta todos da cidade que não fazem parte do círculo social da família. Ainda no início do filme um dos filhos do patriarca da família, Leeland (Michael Sarrazin), retorna à casa e traz consigo novos sentimentos ao resto dos familiares, em especial Hank (Paul Newman) e sua esposa Viv (Lee Remick). Nós acompanhamos os dramas dessa família enquanto eles tentam finalizar a entrega de um contrato enquanto batalham o julgamento dos trabalhadores em greve.

Ao mesmo tempo em que o segundo filme dirigido por Newman se encontra materialmente mais à direita, e pode ser lido como uma cartilha pró-individualismo, ele é também um dos filmes trabalhistas essenciais do cinema estadunidense e traz consigo uma grande exposição da podridão contida nessa mentalidade liberal das personagens. Por isso seria injusto condená-lo à direita sem antes fazer uma análise do que realmente está sendo dito pela obra.
Paul Newman, inimigo de Nixon, esquerdista como indivíduo e direitista como diretor?
Para entendermos o filme precisamos dar uma olhada em seu diretor, Paul Newman, sem dúvida alguma uma das maiores estrelas da história de Hollywood.
Politicamente ele era abertamente esquerdista, defendeu fervorosamente a luta pelos direitos civis nos 60 e foi um aliado próximo de Martin Luther King - inclusive uma de suas fotos mais famosas foi tirada na marcha sobre Washington em 1963.
Devido seus posicionamento políticos, em 1971, mesmo ano de lançamento do filme em questão, ele foi colocado em uma lista de inimigos do então presidente Richard Nixon.

Sabendo de tudo isso, Uma Lição Para Não Esquecer se torna mais interessante do que já é. Não por se tornar esquerdista automaticamente pelo seu diretor também ser, isso não faria sentido algum, mas porque é possível ver o progressismo de Newman dentro da obra, mesmo talvez não sendo tão aparente.
Anti-Hawks
O filme se inicia tal qual um filme de Howard Hawks, somos introduzidos à uma comunidade e a partir dela a história é contada. Porém, enquanto as comunidades, e a sensação de pertencimento são fundamentais ao cinema de Hawks, Newman quebra essa noção.
Um filme interessante de se comparar a esse é Hatari! (1962). Assim como no filme de Newman os personagens precisam entregar um contrato enquanto lidam com suas situações interpessoais. O foco dos filmes se encontra nas relações das personagens enquanto o trabalho é utilizado como artifício, e é na maneira em como esse artifício é utilizado que demonstra a diferença fundamental entre Hawks e Newman.
Enquanto Hawks usa o trabalho para unir as personagens e reforçar as conexões de sua comunidade, Newman o utiliza para os quebrar.

No cinema de Hawks a relação do indivíduo com seu trabalho é o que o faz valoroso. E ao mesmo tempo em que isso é uma celebração do individualismo em seus próprios méritos, ela é sempre acompanhada de uma valorização do coletivo.
Em Uma Lição Para Não Esquecer o indivíduo sobressai o coletivo, o trabalho não é algo que une as personagens, apenas às afasta.
A cena em que essa noção é feita evidente é uma próxima ao final quando Viv implora a seu marido que fique em case e ceda à greve, quando o patriarca da família os interrompe ela pergunta à ele o motivo de eles continuarem trabalhando:
“Por quê? Por quê?”
“Que diabo, você não sabe? Para continuar, essa é a razão! Para dormir, e transar e comer, e beber e ir continuando.”
“E isso é tudo?”
“Querida, isso é tudo que existe”
Essa cena é o momento em que Hank perde sua esposa, e nós perdemos qualquer pretensão de achar valor nessas personagens. O que segue essa cena se assemelha à um ato divino contra eles por finalmente admitirem a razão por trás de suas ações - ato que não deixa de ser trágico por isso -, uma árvore quebra e arranca o bravo de Henry (Henry Fonda) fora, que acaba o matando, e essa mesma árvore cai sobre Joby Stampler (Richard Jaeckel) que incapaz de sair debaixo dela mesmo com os esforços de Hank acaba de afogando, nessa que é uma das grandes cenas da história do cinema estadunidense.

Anti-Eastwood?
Sendo bem honesto essa comparação é a razão por trás desse comentário. Clint Eastwood, famoso conservador e republicano é ao mesmo tempo o diretor responsável por algumas das obras mais progressistas do cinema contemporâneo, enquanto Paul Newman, esquerdista, é o realizador de uma obra anti-trabalhista e supostamente de direita, essa dicotomia por só só é fascinate, porém o que mais me interessa nessa relação dialética não é as diferenças entre os dois e sim suas semelhanças.

Ambos, a partir de suas obras, conduzem grandes análises sobre os Estados Unidos. Eastwood em seu grande corpo de filmes investiga a relação de seu país com a violência, enquanto utiliza de sua persona como ator para repensar o conceito de masculinidade. A figura famosa do forasteiro silencioso é transformada na de homens falhos que retratam a violência como algo sem sentido, o heróico dá lugar ao trágico. Uma possível síntese da filmografia do Eastwood seria a falha, a falha de indivíduos, e comunidades, do sistema e dos Estados Unidos como um todo. Não a toa, em seu último faroeste, Cry Macho, a felicidade só é encontrada fora dos Estados Unidos.
Newman por sua vez, encena a masculinidade como um mal que aflige todos. Os homens tiram as vozes de suas mulheres e as subjulgam a um papel de subserviência, enquanto as isolam do resto do mundo e falham em se conectar com elas. Newman atribui à suas personagens uma qualidade depressiva em todas as suas interações, sendo somente quebrada quando a norma masculinista também é. Viv e Leeland terminam o filme mais resolvidas do que começaram, Viv em especial, sua jornada termina com ela abandonando Hank e em sua independência indo atrás de felicidade. Por sua vez, Hank continua a viver pelas normas masculinas, mesmo quando acaba de testemunhar a morte de seu irmão ele ainda se mostra preso nos papéis de gênero. A única cena em que vemos o personagem baixar um pouco sua guarda é na discussão com Leeland em frente ao hospital no qual confronta seu irmão com o fato de ter sido abusado em sua adolescência por sua madastra, a mãe de Leeland:
"Eu queria ver você se esborrachar
do mesmo jeito que a minha mãe
quando ela bateu no chão."
Você ainda fica jogando a culpa dela em cima de mim, né? Bom, deixa eu te falar uma coisa, garoto. Eu tinha 14 anos e ela, 30. Talvez você já tenha idade suficiente
para me ajudar a descobrir quem diabos estava comendo quem."
Os dois diretores enxergam os Estados Unidos como um lugar falho e a partir disso criam seus filmes em busca de desmascarar esse fato.
Eles também compartilham uma simplicidade formal que busca dar um tempo de respiro à suas cenas. A câmera dos dois não dá floreios em busca de mirabolantes composições, mas sempre acha uma maneira de criar planos de tirar o fôlego.
Conclusão
Voltando a cena final que me referi no começo do texto. Seria fácil enxergá-la como uma vitória triunfante de Hank, mas o que ela revela é muito mais complicado do que isso. Sim, em um sentido individual liberalista é um triunfo sobre os grevistas, mas a imagem do dedo do meio póstumo de Henry é em sua totalidade um grande vazio, Hank ao final do filme é um homem quebrado que perdeu sua família, com exceção do seu irmão, devido suas próprias escolhas, e que depois dos eventos do filme não parece ter um futuro melhor à sua frente. O final de Uma Lição Para Não Esquecer é uma tragédia disfarçada de triunfo.
















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