Crítica - Bugonia
Críticas Gerais
Bugonia é um suspense psicológico intenso na forma com que desenvolve sua história e no desconforto proposital que nos causa.
Trazendo dois homens que sequestram uma empresária acreditando que ela é uma alienígena, Bugonia traz o diretor Yorgos Lanthimos retornando ao suspense psicológico (que funcionou maravilhosamente bem em O Sacrifício Do Cervo Sagrado) depois de anos se entregando a bons filmes de comédia de costumes, logo, é ótimo vê-lo exercitando o seu talento para narrativas desconfortáveis. Com isso, o filme aposta no duelo verbal entre os personagens e na situação naturalmente tensa para sustentar a história, algo que é construído com calma, no estilo slow burn que vai fazendo a situação escalar aos poucos enquanto aumenta o nosso desconforto com o que estamos assistindo. Desconforto que por sinal, é estendido a todos os personagens do filme (do policial que foi babá de Teddy na infância passando por claro, a protagonista do filme que está em uma situação difícil), e que atravessa a tela ao nos fazer sentir esse desconforto (e ajuda muito que a trilha sonora construa esse incômodo desde o início ao apostar em temas carregados de tensão, e que ao mesmo tempo soam dissonantes e meio exagerados, embora incomode ocasionalmente com suas explosões de música após longos silêncios). Além disso, o ritmo do filme se sustenta impecavelmente e sem se tornar cansativo, ainda mais levando em conta a forma com que a história se desenvolve.
Voltando ao seu talento para narrativas desconfortáveis, o diretor Yorgos Lanthimos se mostra disciplinado, permitindo que a situação e os personagens sejam o centro do filme (e a sequência do jantar é um dos pontos altos do filme), deixando de lado o seu estilo atípico com tendência a chamar atenção para si (seja nos temas que trata como nas situações bizarras que apresentam, incluindo também o seu humor mais sombrio), e remetendo no processo a obras excelentes como Rua Cloverfield, 10 e O Abrigo. E se reclamo que seus filmes nos deixe emocionalmente distantes, aqui essa ausência serve ao filme, já que ao trazer os personagens tentando dialogar e buscando uma saída para a situação, este se mostra mais racional e por isso, inquietante, já que sabemos que a situação não acabará bem para ninguém. E pior, ao trazer um protagonista à beira da insanidade (e que acredita em teorias da conspiração bizarras), o filme foge da ideia de ridicularizar o personagem (ou de pintar o filme com tons de comédia), o que acentua a tensão. Claro que aqui e ali o diretor faz divagações como os breves flashbacks em preto e branco que surgem desnecessariamente mais fantasiosos que a sobriedade da narrativa (como o fato da mãe do personagem flutuar após entrar em coma, onde antes disso ela estava cheia de agulhas enormes) ou se entregue a bizarrices (e isso inclui o final do filme), mas estas surgem mais disciplinadas, por outro lado, não deixa de ser divertido que o filme adote a teoria da Terra plana para os letreiros que surgem ao longo do filme já que o filme tem personagens conspiracionistas.
Por outro lado, tenho minhas dúvidas quanto à reviravolta ao final (e não leia o restante desse parágrafo caso não tenha visto o filme): Comprovando que os teóricos de conspiração estavam de fato certos, é aqui que o filme mergulha de vez no abstrato e retrata a nave dos andromedanos, que por sinal, é visualmente deslumbrante. E é aqui que o roteiro e a direção voltam a tecer seu comentário: Ao levar os andromedanos a tomar a decisão de aniquilar a humanidade que percebemos o quanto a humanidade já não tem mais muita salvação. Em termos de comparação, se no recente Dia D, os alienígenas já perceberam nossas piores características e ainda assim, acreditam no nosso melhor, em Bugonia, eles já observaram o bastante para ter certeza que não há motivos para acreditar em nós (e a mensagem se completa pelo fato de Yorgos Lanthimos, que sempre buscou estudar a humanidade em suas obras, aqui parece encontrar uma conclusão no estudo temático de suas obras). Se por um lado, o filme acerta na mensagem e no impacto que causa no espectador com a série de imagens de pessoas mortas, por outro lado, ao adotar o design da Terra plana no seu observatório, não sei se o filme está dizendo que os conspiracionistas da vida real estejam certos. Além disso, há certos elementos do filme que acredito funcionar melhor na primeira vez que se assiste ao filme, mas nem tanto quando vistos depois, quando já sabemos a reviravolta (como a protagonista se afastar do armário do seu escritório ao final do filme).
Contando ainda com excelentes atuações (Emma Stone se sai muito bem como uma mulher diante de uma situação difícil, mas que busca demonstrar segurança em suas ações enquanto tenta escapar, Jesse Plemons está fantástico, e o ator é inteligente ao evitar ao máximo tornar seu personagem em uma caricatura, onde retrata Teddy como um homem que tem convicção nas suas crenças, mas que as demonstra com imensa segurança, e além de demonstrar imenso carinho com o seu primo, o ator também nos leva à desconfiança constante acerca das faculdades mentais dele, enquanto Aidan Delbis surge como a figura mais humana, e também a mais trágica do filme) e uma excelente fotografia (a paleta de cores é expressiva e visualmente agradável, e cuja razão de aspecto nos enclausura com os personagens), enfim, é um filme que pode não agradar a todos os gostos, mas que eu particularmente, achei muito bom.
Refilmagem de Jigureul jikyeora! de 2003.
4 Indicações ao Oscar 2026 nas categorias de Melhor Filme, Melhor Atriz – Emma Stone, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora Original.
Gênero: Suspense
Duração: 118 Minutos
Classificação Indicativa: 18 Anos (Violência Extrema e Linguagem Imprópria)
Distribuição: Universal Pictures
Direção: Yorgos Lanthimos
Elenco: Emma Stone, Jesse Plemons, Aidan Delbis, Stavros Halkias e Alicia Silverstone
Essas e outras críticas, você pode ler aqui:
https://criticasdefilmes1.wordpress.com/











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