Crítica - Dia D
Críticas Gerais
Se existe uma pergunta que certamente já nos indagamos é a clássica “Estamos sozinhos no universo?”. Para o autor Carl Sagan, seria “um tremendo desperdício de espaço” caso estivéssemos sozinhos aqui na Terra (uma frase citada inclusive no excelente Contato), e para o bem e para o mal, existe essa curiosidade inerente na humanidade de descobrir isso, algo que a ficção científica já buscou retratar de diferentes maneiras na história do Cinema, e que claro, ouvimos muito falar em diversos relatos de avistamento de OVNIs ou de abdução através de amigos e conhecidos. Trazendo o cineasta Steven Spielberg de volta ao gênero que o consagrou e cuja discussão temática o fascina ainda mais, Dia D equilibra intensidade e fascínio de forma espetacular, revelando-se uma obra fantástica e de tirar o fôlego.
Ancorando sua história em um jovem rapaz que é perseguido por uma agência secreta interessada em esconder a verdade sobre alienígenas enquanto uma meteorologista passa por uma experiência única, Dia D busca criar uma narrativa moldada em um clima conspiratório que nos abduz no primeiro minuto e que se sustenta brilhantemente até o último segundo, algo que é ressaltado pela câmera nervosa e a trilha sonora carregada de mistério que evoca as clássicas tramas conspiratórias de décadas atrás. Com isso, o filme se mostra absolutamente intenso, nos levando a sentir o desespero de seu protagonista enquanto é perseguido assim como a curiosidade inerente da experiência que a meteorologista interpretada por Emily Blunt passa, permitindo que a montagem vá saltando aos poucos entre seus núcleos narrativos e pontuado por intensas sequências de ação, enquanto o roteiro gradualmente amarra a história, tanto nas pistas quanto nas recompensas, e que culmina em um desfecho que é impossível desgrudar os olhos da tela do cinema. E melhor ainda é que os personagens são interessantes e nos envolvem na história (e que o elenco os defende muito bem), e nesse aspecto, Emily Blunt se destaca ao criar uma personagem que aos poucos se vê fascinada com o que experienciou, descobrindo uma força surpreendente, mas também indicando uma tocante vulnerabilidade como no momento que sua personagem tem uma forte crise de pânico, Josh O’Connor evoca muito bem a coragem de seu personagem, revelando-se um herói de ação que não acredita sê-lo – algo que remete a muitas figuras na filmografia de Spielberg –, Colin Firth surge intenso como o vilão do filme e Eve Hewson convence em sua personagem, e há um momento capaz de causar arrepios onde em um único plano seu olhar muda de forma assustadora.
Retornando aos filmes de alienígena, é sempre maravilhoso ver Spielberg no cinema espetáculo que ele faz como ninguém, e a genialidade do cineasta já é percebida logo nos minutos iniciais, que como um soco, nos pega de surpresa com o que estamos assistindo (até cheguei a pensar que estavam passando o filme errado), para em seguida através da fotografia iluminar o protagonista com uma luz branca vinda de cima, brincando com a clássica imagem de abdução, o que automaticamente leva o nosso olhar a ele, e nos leva para dentro do filme no processo. Aliás, é fascinante perceber como Dia D conversa com Contatos Imediatos Do Terceiro Grau, já que ambos trazem protagonistas diante de algo extraordinário que os leva a abdicar da própria vida justamente para que possam encontrar um sentido lógico para o que estão vivendo (ou neste caso, revelar uma verdade que a humanidade merece saber), e para isso, o filme nos deixa propositalmente tão no escuro quanto os personagens, e emociona quando entendemos o sentido, mais que isso, é o fascínio pelo desconhecido que nos ancora ao filme. Além disso, Spielberg mostra mais uma vez seu olhar para enquadramentos brilhantes e movimentos de câmera sensacionais, como aqueles que se movimentam dentro e fora do carro ou aquele que vemos a câmera revelar o alienígena (o que me lembrou o trabalho de câmera visto em Minority Report - A Nova Lei e Guerra Dos Mundos), encontrando também o cineasta que adora criar invencionices visuais e sequências brilhantes como aquela que se passa em um galpão onde um grupo não consegue ver o outro e que envolve uma fuga silenciosa, ou a pura mágica cinematográfica como na linda sequência que revela toda a verdade para os protagonistas (e as sequências de ação são um espetáculo por si só).
Por sinal, o filme é um espetáculo técnico, e nisso, sou obrigado a mencionar a fotografia assinada por Janusz Kaminski (parceiro de Spielberg desde o monumental A Lista De Schindler), que mantém uma atmosfera sóbria, adota uma câmera nervosa e explora visuais marcantes através das luzes intensas ou dos enquadramentos precisos (como a sequência que as luzes externas iluminam um quarto de hotel ou o plano que revela uma perseguição de carro intensa de forma distante), enquanto a trilha sonora do mestre John Williams é uma aula de como construir a tensão da narrativa assim como ressaltar o fascínio pelo desconhecido e claro, da emoção de muitos momentos do filme. E se os efeitos especiais são excelentes, o design de som além de impecável em seus efeitos sonoros e na mixagem precisa, é brilhante ao adicionar o som peculiar dos alienígenas de forma subliminar desde o início do filme, como se indicasse que eles já estivessem ajudando silenciosamente os personagens.
Interessado em discutir os efeitos que uma revelação desse impacto causaria na sociedade, o roteiro encontra maneiras de debater o assunto nos momentos de respiro da narrativa, se tornando eficaz por retratar a visão do lado de quem considera justo revelar toda a verdade quanto para aqueles que preferem esconder a verdade, e o que aconteceria nas duas alternativas. Por sinal, o filme até surpreende por encontrar personagens para debater essas vertentes, já que ao trazer uma freira que acredita na vasta imensidão do universo nos surpreendemos que essa afirmação venha de uma mulher religiosa (especialmente quando levamos em conta algumas religiões mais extremistas em seus fundamentos), e o fato do vilão se chamar Noah (ou Noé, em tradução) não é por acaso, já que é irônico que o homem que colocou animais em uma arca para levá-los a um novo mundo na Bíblia seja retratado aqui como um homem que não mede esforços para esconder a verdade e impedir que os leve a um novo mundo. E o fato é que uma revelação desse porte, ao menos para mim, é maior do que qualquer coisa, e que sim, causaria um impacto monumental na sociedade.
O que nos traz ao desfecho do filme, que certamente levará alguns espectadores a se frustrarem por não retratar as consequências do que acontece, mas devo isso mais à disciplina de Spielberg como cineasta (e também ao otimismo que permeia grande parte das suas obras): Ao terminar o filme com uma frase dita por alguém importante depois de uma série de revelações na televisão, e conhecendo o estado da humanidade hoje, eu não ficaria exatamente surpreso se muitos achassem que era tudo falso ou que simplesmente não aceitariam a realidade daquilo que foi revelado. E é isso que torna seu desfecho fascinante e curioso, já que o precedente seria único demais para ser retratado no Cinema (ao menos na forma demonstrada aqui), com isso, permitir que o espectador pense nas possibilidades da história após seu desfecho é um pouco melhor do que continuá-la. E se a mais avançada das inteligências já percebeu um dos nossos grandes problemas como humanidade é porquê retrocedemos mais do que deveríamos. De fato, talvez escutar e ter empatia com o próximo seja o que precisamos para evoluir.
Gênero: Suspense/Ficção Científica
Duração: 145 Minutos
Classificação Indicativa: 12 Anos (Violência e Linguagem Imprópria)
Distribuição: Universal Pictures
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Emily Blunt, Josh O’Connor, Colin Firth, Eve Hewson, Colman Domingo, Wyatt Russell e Elizabeth Marvel
Essas e outras críticas, você pode ler aqui:
https://criticasdefilmes1.wordpress.com/













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