Fora de Cartaz #1 | Dia dos Namorados
RecomendaçõesO amor raramente é o que nos prometeram. Por baixo dos gestos bonitos, existe um tecido muito mais denso, feito de solidão, medo, instabilidade e, algumas vezes, traição e dor que fogem à nossa compreensão. Ninguém fala muito sobre isso. Nos ensinaram que o amor verdadeiro é puro, e que quando está doendo, talvez não seja amor de verdade. Mas essa é a maior mentira que nos contaram.
A vida de um casal é atravessada por forças que convivem em silêncio, o desejo e o ressentimento que dividem a mesma cama, o cuidado e a crueldade que nascem do mesmo lugar, a intimidade que tanto aproxima quanto sufoca. E a gente vive tudo isso sem muito espaço para entender, porque a narrativa que herdamos nunca soube lidar com a ambiguidade.
O cinema, quando quer, abre essa ferida com uma honestidade que a vida cotidiana raramente permite. Ele não nos consola, nos reconhece. E é isso que os filmes dessa lista fazem, cada um à sua maneira, cada um com o seu olhar e o seu tempo, escolhendo representar o amor que existe, que nos cerca.
Esta seleção não é sobre o amor romântico, que fique avisado.
Desencanto — David Lean, 1945

Antes de tudo, é preciso dizer que Desencanto é um filme sobre o que não acontece. Laura é uma mulher casada que conhece um médico numa estação de trem, e o que se desenvolve entre eles cabe inteiramente nos gestos contidos, nos olhares que duram um segundo a mais do que deveriam. Lean filma o desejo como uma coisa que envergonha, e é justamente aí que o filme fere. A culpa não vem da traição concreta, mas da imaginação do que poderia ser. O amor que aparece aqui é o amor impossível não por circunstância, mas por escolha. E essa distinção custa caro.
Viagem à Itália — Roberto Rossellini, 1954

Um casal inglês viaja à Itália para vender uma propriedade herdada. É tudo. E é o suficiente para Rossellini dissecar um casamento em decomposição com a crueldade silenciosa de quem observa sem intervir. Katherine e Alex mal se olham. Falam sobre coisas práticas. O peso entre eles é todo o não-dito acumulado em anos. O que torna o filme extraordinário é que Rossellini não explica esse peso, apenas o filma, deixando que o paisagismo napolitano, as ruínas de Pompeia e a vida abundante ao redor desse casal morto-em-vida façam o trabalho. Godard chamou este filme de o nascimento do cinema moderno. Não é difícil entender por quê.
O Desprezo — Jean-Luc Godard, 1963

Godard adapta Moravia, escala Brigitte Bardot e Jack Palance, e faz um filme sobre como o desprezo nasce, não de um ato de traição, mas de um olhar. De uma hesitação. De um marido que deixa a esposa ir de carro com outro homem e finge que não importa. O Desprezo é um estudo sobre o momento exato em que o amor vira outra coisa, e sobre como esse momento raramente é dramático. Às vezes é um instante banal, e você só percebe depois que já passou. Godard filma isso com uma grandiosidade quase irônica, os exteriores de Capri, a música de Delerue, os primários das paredes do apartamento, como se a beleza do enquadramento estivesse em permanente conflito com a fealdade do que acontece dentro dele.
Cenas de um Casamento — Ingmar Bergman, 1973

Feito originalmente para a televisão sueca em seis episódios, Cenas de um Casamento é talvez o retrato mais completo que o cinema já fez de como dois seres humanos podem se amar e se destruir ao mesmo tempo, e continuar voltando um para o outro mesmo assim. Johan e Marianne são cultos, articulados, conscientes de seus próprios padrões. E é exatamente por isso que dói tanto: eles sabem o que estão fazendo enquanto fazem. Bergman não poupa ninguém, nem os personagens, nem o espectador. O que emerge é algo próximo de uma dissecação, o amor visto por dentro, com todas as suas contradições expostas, sem anestesia.
Possessão — Andrzej Żuławski, 1981

Nenhum filme dessa lista leva a ruptura amorosa tão longe quanto Possessão. Żuławski filma o fim de um casamento como se fosse um pesadelo de corpo inteiro, literalmente. Anna, interpretada por Isabelle Adjani numa performance que raramente encontra par no cinema, não apenas se separa do marido, ela desintegra. O horror que o filme constrói não é metáfora fácil, mas a linguagem que o diretor encontrou para dizer algo que as palavras não alcançam, que o amor, quando parte, pode levar a sanidade junto. Possessão é excessivo, perturbador e absolutamente necessário.
Búfalo '66 — Vincent Gallo, 1998

Billy Brown sai da prisão sem ter ninguém para quem ligar. Ele sequestra uma jovem e a obriga a fingir ser sua namorada diante dos pais que nunca souberam amá-lo. Em tese, é o início de uma história de amor. Na prática, Búfalo '66 é um filme sobre o que acontece com alguém que nunca aprendeu a ser amado e o que isso faz com a capacidade de amar de volta. Gallo dirige, escreve e protagoniza com uma autoindulgência que é, ela mesma, parte do retrato. Layla, interpretada por Christina Ricci, oferece ao mundo algo que parece improvável, a gentileza. E é na tensão entre a brutalidade dele e a ternura dela que o filme encontra sua estranha e incômoda beleza.
Cinco Centímetros por Segundo — Makoto Shinkai, 2007

O que Shinkai nos mostra não é exatamente um amor complicado, mas um amor que simplesmente não consegue sobreviver ao tempo e à distância. Cinco Centímetros por Segundo é uma trilogia de momentos, um reencontro, uma espera, uma passagem de anos. A dor que o filme carrega é a da saudade que não se transforma em nada, do sentimento que permanece mesmo quando a pessoa já foi. Shinkai trabalha com animação de uma beleza quase dolorosa, os flocos de neve, os trilhos de trem, a luz que muda de estação, como se a natureza soubesse de perdas que os personagens ainda estão tentando entender. É um filme silencioso sobre tudo que ficou por dizer.
Praia do Futuro — Karim Aïnouz, 2014

Aïnouz coloca o amor num corpo que precisa partir para existir. Donato é um salva-vidas cearense que, depois de não conseguir salvar um turista alemão, vai embora com o irmão da vítima para Berlim. Praia do Futuro é um filme sobre o amor e o abandono como faces de uma mesma escolha, e sobre o peso que essa escolha deixa nos que ficam. O Brasil de Aïnouz é quente, físico, carregado; a Berlim que ele mostra é o oposto. E é nesse contraste de corpos, climas e afetos que o filme respira. Não há vilão aqui, só pessoas que amam de maneiras que não cabem no mesmo espaço.
História de um Casamento — Noah Baumbach, 2019

Baumbach começa História de um Casamento com o que há de mais bonito em dois seres que se amaram, e então passa o resto do filme mostrando como isso não foi suficiente. Nicole e Charlie se divorciam, e o processo revela camadas que o próprio amor havia enterrado, ressentimentos antigos, sonhos abdicados, versões de si mesmos que foram perdidas dentro da relação. O que diferencia o filme de um drama de divórcio comum é que o diretor mantém a ternura intacta mesmo no meio da destruição. É um dos retratos mais honestos que o cinema recente fez sobre o que significa deixar alguém que você ainda ama.
O que une esses filmes não é o pessimismo. É a honestidade. Nenhum deles diz que o amor é ruim, eles dizem que ele é complexo, e que essa complexidade merece ser confrontada. Porque talvez o que o amor precise não seja de idealização, mas de testemunho. E o cinema, quando está no seu melhor, é exatamente isso, um testemunho sobre a vida.
Com carinho,
Lô


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