Backrooms | Crítica

Críticas Gerais

 

Em 2022, um curta lançado diretamente no YouTube se tornou um fenômeno na plataforma e com 78 milhões de visualizações consagrou-se como uma das maiores creepypasta da internet. The Backrooms tinha uma premissa simples, porém efetiva: explorar a sensação inquietante causada por espaços liminares, através de um found footage. A popularidade foi tamanha que o jovem diretor conseguiu um contrato com a A24 para transformar sua ideia em um longa-metragem. 

O prólogo do filme evoca bem o sentimento desolador causado pelos vídeos que o inspiraram, é evidente o talento de Kane Parsons para, em poucos minutos, trabalhar o desconforto provocado por aquele “não-lugar”, onde a lógica do tempo-espaço não parece se aplicar. Longos corredores vazios e sem saída se estendem ao infinito, aprisionando o público através do ponto de vista da câmera, sem saber o que se espreita a cada virada. No suposto silêncio perfeito do confinamento, cada ruído desconhecido se torna ensurdecedor. 

Backrooms (2026)” Sneak Peek : r/backrooms

Passada essa breve e inquietante introdução, somos apresentados aos nossos representantes em tela: Clark, um frustrado vendedor de móveis de baixa qualidade, incapaz de superar a partida de sua esposa e Mary, sua psicóloga que aos poucos se revela igualmente assombrada por traumas do passado. A falta de traquejo de Clark e sua insatisfação com a vida profissional e amorosa geram momentos cômicos nessa parte inaugural da história, nos aproximando de seu personagem por mais imperfeito que seja. No auge de sua inquietação mental, propenso ao alcoolismo, o protagonista encontra um portal para outra realidade. 

Contudo, ao contrário de filmes como Nárnia ou Harry Potter, sua descoberta não o leva para uma bela terra fantástica permeada por magia e encanto. Longe disso, os backrooms do título são grandes espaços que simulam versões distorcidas da realidade, com paredes verde-amareladas, uma luz de escritório, intermináveis corredores e escadarias que não obedecem a nenhuma lógica e não levam a lugar algum. A claustrofobia é provocada tanto por paredes espremidas, quanto pela imensidão dos cômodos não povoados. Uma vastidão esmagadora que não parece ter fim pode ser tão aprisionante quanto um cubículo fechado.

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O mais curioso sobre esse labirinto cheio de entradas e saídas, com portas de todos os tamanhos - inclusive, uma delas é tão comicamente pequena que lembra uma cena de Alice no País das Maravilhas - é o fato dos personagens saírem e entrarem livremente. Há uma quebra de expectativa em relação ao portal que nunca se fecha, o enclausuramento advém da forma como Parsons explora a geografia confusa do local e não de uma prisão propriamente dita. Entrar, permanecer e retornar são escolhas deliberadas. Uma criativa abordagem que reforça a ideia de celas mentais, das quais você pode simplesmente sair e não voltar, basta querer.

O formato found footage usado nos curtas do YouTube não é completamente descartado, e o diretor utiliza-o pontualmente, sem ficar preso a ele, mas  aproveitando-se dele para enfatizar o medo causado por aquilo que não se vê, limitando do campo de visão do espectador. Quando abandona o found footage, fica mais livre para mostrar mais da arquitetura dos backrooms. Há uma cena de vertigem, em que uma escada sem apoio é filmada de cima para baixo, enquanto objetos caem numa imensidão profunda, sem que o chão seja visível. O tipo de efeito de profundidade impossível - ou muito difícil - de se alcançar caso o diretor se restringisse ao found footage. Assim, alternando entre formatos, consegue trabalhar a fotografia para transmitir sensações diversas. Se os planos abertos oprimem quem assiste pela imensidão do local, os planos fechados, por sua vez, aprisionam. Já a câmera trêmula na mão é, por si só, inquietante, e quando bem utilizada, eleva exponencialmente a ansiedade, sem se tornar um truque barato.

Backrooms: Um Não-Lugar (2026) – Meio Amargo

Na primeira metade do filme, o estreante diretor domina elementos do audiovisual para criar terror explorando os medos subconscientes e inexplicáveis causados pela geografia desses espaços. A trilha sonora incômoda mistura-se aos sons de criaturas que - a princípio - não são vistas para causar aflição tanto nos personagens, quanto na plateia, que se vê totalmente imersa naquela perturbadora realidade. 

É uma pena que tudo isso seja prontamente escanteado na segunda metade repleta de diálogos expositivos, nada sutis, através dos quais buscam-se explicações não requisitadas para o surgimento e o funcionamento dos backrooms. Há até mesmo a figura de um cientista que tenta dar-lhes  uma importância desnecessária, afirmando se tratar da descoberta mais importante da história da humanidade - o que não faz nenhum sentido. O horror despertado advinha justamente da falta de conhecimento acerca daquilo, a partir do momento que algo pode ser racionalizado e estudado, o efeito por ele causado passa a ser minimizado.

A expositividade não é apenas inoportuna, como também aborrecida, quebrando totalmente o bom ritmo estabelecido pelo longa até então. A tensão se esvai e é substituída por desabafos repetitivos sobre traumas aguados e desinteressantes. As conversas são fracas, mal encaixadas e ao invés de fortalecer a sensação de perigo, enfraquece-a. O que até então caminhava muito bem, cai na lógica hollywoodiana de se explicar até não aguentar mais, deixando uma ou duas pontas soltas para causar o falso efeito no público de que acabaram de assistir um filme muito difícil de ser entendido - parecido com aquilo que Nolan faz ao final de Interestelar.

Backrooms First Reviews: An Unsettling, Atmospheric Freakout That Will  Dismantle Your Sense of Reality | Rotten Tomatoes

Por não conseguir escapar dos métodos de um estúdio com preocupações mercadológicas, um filme com tudo para ser bom, acaba sendo apenas mediano, sustentado pelo charme dos primeiros cinquenta minutos. De qualquer forma, Parsons se prova capaz de conduzir bem uma narrativa de gênero, utilizando-se de técnicas cinematográficas para evocar sentimentos, quem sabe com mais liberdade criativa seu próximo projeto possa atingir seu potencial completo.

 

Nota: 3/5

 

 

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