"Backrooms": Labirinto do Inconsciente

Críticas Gerais

Atenção: Esse texto pode conter spoilers!


A presença oculta no conceito de “Backrooms” é profundamente inquietante porque evoca um sentimento latente em todos nós, mesmo que muitas vezes seja difícil nomeá-lo. Não se trata apenas de medo ou do desconhecido, mas daquela sensação estranha de entrar em um lugar que parece familiar, "confortável" e silencioso demais.  Como se esse espaço já existisse em nossa mente muito antes de projetado na tela.

O filme de Kane Parsons compreende perfeitamente essa atmosfera, sendo este um dos maiores méritos da adaptação. Diferente dos curtas originais publicados no YouTube, que priorizavam o mistério puro e a experiência sensorial daquele universo, o longa-metragem expande a premissa para o campo psicológico e existencial. Em vez de apenas replicar os elementos visuais já consagrados, a obra opta por provocar uma identificação desconfortável. Torna-se, assim, uma experiência distinta para cada espectador, que é convidado a encontrar uma parte escondida de si mesmo em meio aos infinitos corredores de tons amarelados.

No íntimo, o conceito de Backroom funciona como uma representação física do nosso inconsciente. Um território quase invisível e intocável, onde ficam guardados os sentimentos mais obscuros que não demonstramos a ninguém. Todos nós possuímos esse refúgio interno, onde escondemos falhas, arrependimentos, angústias e tudo aquilo que tentamos evitar no cotidiano.

Esse labirinto materializa o íntimo de Clark, interpretado por Chiwetel Ejiofor. O homem, na faixa dos quarenta anos, vive preso a uma existência melancólica e sem perspectiva após ser abandonado pela esposa. Dono de uma loja de móveis em decadência, ele parece ter perdido a vontade de seguir em frente, movendo-se no automático e cercado por ambientes vazios que refletem seu estado emocional. Os corredores surgem, então, como uma extensão de sua própria mente, um cenário construído por memórias, traumas e inseguranças jamais enfrentados.

Tentando encontrar um sentido para continuar vivendo, Clark busca ajuda em sessões com a psicóloga Mary, vivida por Renate Reinsve. Inicialmente, ela surge como uma figura motivacional, insistindo que as coisas vão melhorar e que há uma saída para aquela dor. Contudo, o filme é inteligente ao revelar que Mary também carrega suas próprias feridas e vulnerabilidades. Assim como seu paciente, ela possui Backrooms internas e, aos poucos, o espaço psicológico apresentado passa a consumi-la também. As dores de ambos começam a se misturar dentro daquele labirinto.

A estética do longa causa um estranhamento peculiar por se distanciar do terror tradicional. O desconforto provém do vazio, da repetição e do silêncio. As luzes parecem nunca se apagar e os corredores parecem não levar a lugar nenhum, transmitindo uma nítida sensação de aprisionamento emocional. É como revisitar uma lembrança esquecida da infância, um sonho bizarro de muitos anos atrás ou um canto perdido da própria mente. Cada corredor parece existir fora do tempo e cada sala transmite, simultaneamente, abandono e permanência, o que impede o espectador de se sentir seguro, mesmo nos momentos de calmaria.

É por isso que há uma nostalgia tão perturbadora no terror da obra. As Backrooms carregam a sensação de cenários que já conhecemos, mesmo sem nunca termos estado neles. Sejam eles, escritórios desertos, corredores escolares, salas antigas, carpetes gastos e iluminação artificial. Há o medo constante de estar perdido, mas também uma conexão involuntária com o ambiente. São locais desprovidos de identidade própria que, paradoxalmente, despertam lembranças íntimas, transformando o banal em algo profundamente melancólico.

O aspecto mais interessante do filme é que ele preserva o mistério dos curtas originais sem render-se a explicações didáticas ou fechadas. Existem respostas, mas elas nunca anulam a interpretação pessoal. Pelo contrário, o longa compreende que o conceito só funciona plenamente quando o público projeta as próprias angústias naquele espaço. O verdadeiro terror nasce justamente dessa identificação.

 

Comentários 1

A
Ander Cover29 de maio de 2026
Tô muito interessado por esse filme, principalmente por conta dessa estética onírica e carga psicológica que vc comentou! Confesso que não sabia sobre os curtas, vou verificá-los pra chegar no final de semana e assistir esse aqui no hype!

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