As “lembrotíferas” estão destruindo a cultura popular no cinema

Críticas Gerais

Recurso que busca atrair pessoas para o cinema apelando para a memória afetiva empobrece narrativas e a contação de histórias.

No primeiro episódio da vigésima temporada de South Park (Paramount+), intitulado “Lembrotíferas” (ou “Mememberries” no inglês), J. J. Abrams, o diretor de Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força (20th Century Fox/ Disney, 2015), é contratado pelo estado norte-americano para fazer um reboot do hino da nação, de modo que este passe a acomodar as demandas contemporâneas do movimento feminista que, em 2016, há exatos dez anos, ganhava força e presença representativa na arte, em especial no cinema, graças ao então novo Star Wars seguido pelo horrível As Caça-Fantasmas (Columbia Pictures/ Sony Pictures, 2016). Isso porque, segundo o desenho, não havia nos Estados Unidos outra pessoa capaz de fazer um reboot para “salvar” algo como ele, o suposto salvador de Star Wars, um autor capaz de unir o passado e o presente em uma obra que se tornaria popular pelo mérito de ativar a memória afetiva de milhões de fãs da franquia Star Wars em todo o mundo.

O episódio justifica o poder de J. J. Abrams como oriundo das “lembrotíferas”, frutas roxas animadas e falantes prontas para consumo, compostas inteiramente de nostalgia e entusiasmo. No desenho, cada uma das frutas presas ao mesmo cacho, como uvas, dialoga com a outra com o objetivo de reviver uma memória específica que deixa a parceira feliz. O diálogo entre as frutas fofinhas e infantilizadas explica seu efeito nostálgico – “Você lemba do Chewbacca?” pergunta uma. “Eu lembo!” responde outra, com satisfação e emoção. “Você lemba dos stormtroopers?”, pergunta uma terceira. “Ah, eu lembo!” responde uma quarta, alegre e feliz por se lembrar de algo do seu passado – os personagens de Star Wars, reavivados por Abrams no novo filme. E assim por diante, não se limitando apenas a Star Wars ou à cultura popular, mas incluindo também ressentimentos nostálgicos políticos e sociais norte-americanos. As lembrotíferas, como South Park, não têm qualquer tipo de filtro.

As lembrotíferas são a metáfora perfeita para ilustrar o ridículo do cinema comercial que, como nunca antes, se inclina em ativar a nostalgia do público para fazer bilheteria e vender produtos licenciados. Não ironicamente, os produtores de South Park diagnosticaram isso em um novo filme da franquia de Star Wars, o primeiro em dez anos, que contava uma história parecida com o melhor qualificado e mais bem avaliado até então, com os mesmos personagens, entre alguns novos cujas construções se assemelhavam às dos antigos, as mesmas linhas de diálogo e o mesmo enredo. Exceto pela esperança de conquistar novos públicos para além dos fãs mais velhos da franquia, o filme trazia nada de novo; uma fraqueza convertida em força com o caráter nostálgico. Afinal, os nossos personagens favoritos estavam aparecendo novamente na grande tela, de uma forma ou de outra, e isso se provou ser bom o suficiente. Aqui, o cinema percebeu o que outras indústrias já constatavam: a nostalgia traz dinheiro fácil.

Não é difícil perceber o efeito alucinógeno das lembrotíferas no senso comum, em especial nos grupos de fãs de franquias da cultura popular, entre os quadrinhos, o cinema, a TV, a música. Nas discussões em que se pode participar por aí, da internet a conversas de bar, é nítida a avaliação positiva de uma obra cinematográfica pela mera participação especial repetida de um ator que viveu o mesmo personagem há 20 anos, pelo retorno de um personagem que, no passado foi morto em tela ou, pior ainda, um item utilizado para fazer uma “referência” explícita – sim, o estúdio precisa que você perceba – à obra base. A história? Confusa. O roteiro? Furado. A construção dos personagens? Não se preocupe, haverá mais três filmes para isso. A essência da história que este reboot tenta recriar? As referências falam mais alto. Então eu odeio Star Wars: Episódio VII? Não, de forma nenhuma. Vamos a uma comparação didática e cristalina.

No derivado excepcional Rogue One: Uma História Star Wars (2016), Darth Vader, o icônico vilão do filme que moldou a cultura popular no cinema em 1977, aparece por cerca de um minuto em uma única cena do filme. Resultado de um roteiro muito bem escrito por Gareth Edwards, Tony Gilroy e Chris Weitz, somado à direção excelente de Gareth Edwards, a cena se tornou um clássico instantâneo pela intensidade poderosa com a qual trouxe Darth Vader de volta às telas desde 2005. Na cena, Vader, imbatível, combate um grupo de rebeldes armados com uma violência assustadora, nunca antes vista nas telas de cinema, apesar dos quadrinhos e jogos da franquia terem auxiliado a construir esta imagem feroz do personagem juntos dos demais filmes.

Já na patética série Obi-Wan Kenobi (2022), dirigida por Joby Harold e Hossein Amini, feita apenas para promover o Disney+ envolta em trinta e oito camadas de nostalgia diferentes, Vader (Hayden Christensen) – Você lemba do Darth Vader? Ah, eu lembo! – reaparece com muito mais tempo de tela, agora com uma força equiparada à de seu arqui-inimigo e protagonista da série, Obi-Wan (Ewan McGregor) – Você lemba do Obi-Wan? Eu lembo! –, mas inexplicavelmente enfraquecido e humilhado por Reva (Moses Ingram), uma personagem NPC (non-player character) sem carisma algum, esvaziada de qualquer característica que explique sua existência. Para se ter uma ideia do nível do que estamos falando, ao fim da série Darth Vader pergunta a Obi-Wan o que este queria ao persegui-lo. A indagação seria justa não fosse o próprio Vader quem perseguiu Obi-Wan, ao longo de toda a temporada. Mas nada disso realmente importa, porque nossos personagens favoritos aparecem em tela diversas vezes, e se encontram em duas batalhas que, narrativamente, não fazem o menor sentido para uma história curta e coesa, mas que é divertido de assistir porque remetem à épica batalha entre os dois personagens em Star Wars: Episódio III (2005). Ah, eu lembo!

Alguém poderia pegar exemplos da Marvel (Disney) e da DC (Warner Bros.) nos cinemas para ilustrar como a nostalgia tem feito grandes milagres para as salas de cinema. Assistir aos três Homem-Aranha do cinema juntos foi vivaz, sobretudo porque a história é ótima, apesar dos muitos furos. Da mesma forma foi muito empolgante ver Deadpool contra Wolverine (vivido novamente por Hugh Jackman – Lemba dele?) em uma história sem pé nem cabeça, que ao menos contempla muitas cenas de ação bem dirigidas envolvendo ambos os co-protagonistas e outros personagens de filmes bem antigos da Marvel – que jamais compartilharam com outros a mesma tela de cinema não fosse pelo milagre nostálgico para o público e do retorno financeiro que a Marvel precisava. Mas essa história não para por aí.

Em março de 2025 a Marvel fez um stream de seis horas de duração no YouTube para anunciar o elenco de Vingadores: Doomsday (ou Vingadores: Dr. Destino), que estreará em dezembro este ano. Longos intervalos separavam a onda de atores e atrizes que estrelam o filme, de volta aos personagens que encarnaram no cinema ao longo dos últimos vinte anos. Mas não se engane, porque eles não apareceram no vídeo. A Marvel teve a pachorra de fazer uma transmissão de seis horas de duração para mostrar cadeiras com os nomes do elenco. Sim, cadeiras! O vídeo conta com quase seis milhões de visualizações.

Este relevante e imponente evento [sic] sucedeu o anúncio da volta de Robert Downey Jr. – Lemba dele? Ah! Eu lembo! – ao universo cinematográfico da Marvel (o MCU), apresentado na última San Diego ComicCon, onde o mundo foi surpreendido com a derradeira declaração de desespero da Marvel, que anunciava o retorno de seu ator mais querido pelo público de volta às telas, agora no papel de um dos vilões mais importantes dos quadrinhos. Querido porque Downey Jr. representou o Homem de Ferro brilhantemente no cinema por mais de uma década, um personagem cativante e bem escrito ao longo de seu extenso desenvolvimento entre filmes (que variam de medíocres a excelentes), o que não se pode dizer de nenhum outro personagem das produções recentes da Marvel, que nos últimos anos vem enfrentando uma grave crise de imagem de marca por desagradar seus fãs fieis, como eu, com produções irrelevantes e de baixíssima qualidade que pouca gente assistiu, principalmente orientadas ao Disney+.

A Disney não é a única viciada em ordenhar a vaca da nostalgia para produzir dinheiro, embora seja, talvez, o melhor exemplo disso, visto que ela o faz de uma forma escancaradamente desleixada. Este é um artifício compreendido por outras marcas associadas direta e indiretamente ao entretenimento. Ainda pensando no cinema, não é à toa que entre as dez maiores bilheterias de 2025, havia apenas dois títulos originais, Pecadores (Warner Bros.) e F1 (Sony Pictures/ Apple Studios), enquanto os outros títulos se dividiam entre reboots, origens, sequências e derivados de propriedades intelectuais já estabelecidas no cinema. Neste ano teremos O Diabo Veste Prada 2 (Searchlight/ Disney), que ninguém pediu mas que muita gente assistirá por curiosidade, Avatar 3 (Searchlight/ Disney), que também ninguém pediu mas foi prometido, Mestres do Universo (He-Man) [MGM/ Amazon], Mandalorian e Grogu (que será a mesma coisa que vimos em três temporadas de The Mandalorian) [Disney], Toy Story 19 (Disney) e mais continuações, origens, sequências e derivados.

O problema das lembrotíferas não recai sobre a ideia de se contar uma história derivada, mas sim de se ativar uma lembrança nostálgica para chamar a atenção do público com referências reconhecíveis, apenas para que o espectador possa se sentir atraído pela história (ou promessa de história) e, com isso, comprar o que o estúdio – ou a marca, em linhas gerais – está vendendo, do ingresso ao produto licenciado. Ao longo da última década, do Star Wars de J. J. Abrams até hoje, temos visto na cultura popular uma oferta incansável de conteúdos rasos, mal escritos, dirigidos, interpretados e animados que buscam alimentar muito mais a nossa vontade de voltar ao passado do que a nossa necessidade de viver o presente.

Embora em uma ou outra produção algo se salve, algumas com maior qualidade do que outras, o som deste “balançar de chaves” (ou key jangling, como se diz no inglês), tem uma única serventia: atrair o espectador para que o vislumbre do que se menciona em tela chame mais atenção do que aquilo que se pode extrair da obra. Mostrar o personagem favorito de alguém em tela não faz daquele um bom filme, mas faz com que o indivíduo tenha uma emoção quentinha despertada dentro dele porque o transporta do presente infernal para o passado que lhe é seguro, porque já foi vivido, logo está resolvido, sem qualquer risco de frustração ou infelicidade. Não é de hoje que o conflito entre essência e aparência nos persegue.

 

Comentários 0

Ainda não há comentários.

Deste autor