Hoje eu como carne nem que seja de gente

Críticas Gerais

Hoje é Sexta-feira Santa. As ruas estão mais vazias, as peixarias lotadas e, em muitos lares brasileiros, a carne vermelha será substituída por uma abstinência que menos remete à paixão de Cristo e mais à tradição repetida como um ritual automático. É justamente num dia como este que me pego pensando em Zé do Caixão.

À Meia-Noite Levarei Sua Alma, lançado em 1964, em um Brasil que mergulhava nas sombras da ditadura civil-militar, José Mojica Marins não apenas inaugurava o terror nacional – pelo menos, de forma tão frontal – como também expunha, sem pudor, as tensões culturais de um país profundamente marcado pela religiosidade. Mojica não criou um horror importado, de castelos europeus ou monstros sobrenaturais distantes. Ele construiu um terror enraizado no Brasil – nas crenças, nos medos e, sobretudo, nas contradições do brasileiro comum.

Zé do Caixão não é um vampiro, não é um lobisomem, tampouco uma criatura fantástica. Ele é um homem. E talvez isso seja o mais perturbador.

O Brasil que Mojica captura em sua obra é fruto de um sincretismo religioso complexo. Catolicismo ibérico, crenças indígenas, religiões africanas e, posteriormente, o espiritismo europeu: tudo isso se mistura para formar uma matriz religiosa única, marcada tanto pela devoção quanto pelo medo. Não se trata apenas de fé – trata-se de um sistema simbólico que organiza o cotidiano, define comportamentos e, claro, alimenta o imaginário do terror.

Mojica entendeu isso como poucos.

Ao construir À Meia-Noite Levarei Sua Alma, ele não apenas utilizou elementos religiosos como pano de fundo, como os transformou em matéria-prima narrativa. A Sexta-feira Santa, por exemplo, deixa de ser apenas uma data litúrgica e passa a ser um dispositivo dramático. O simples ato de comer carne se torna um gesto de rebeldia, quase um manifesto. É justamente nessa ruptura que o horror começa a se insinuar.

Zé do Caixão é, em essência, um niilista. Ele rejeita Deus, zomba dos rituais, despreza as crenças populares. Num país onde a religiosidade é profundamente entranhada no tecido social, essa postura não é apenas controversa, mas também ameaçadora. Ele não teme o sobrenatural e é por isso que se torna monstruoso. Enquanto os outros personagens vivem sob o peso do medo – medo de espíritos, de maldições, de punições divinas – Zé se coloca acima disso tudo, como alguém que acredita estar livre dessas amarras.

Mas Mojica é astuto. Ele provoca o espectador durante quase todo o filme, apenas para, no final, subverter essa lógica.

O medo, que parecia restrito aos crentes, alcança também o descrente.

Ao mesmo tempo, em que desafia a religiosidade do público, o filme também a reafirma. Zé do Caixão, que passa a narrativa inteira negando o sobrenatural, acaba sendo confrontado por ele. As almas dos mortos retornam, a punição chega, e o cético sucumbe ao terror que antes desprezava. É um desfecho que, longe de ser conservador, funciona como um espelho das tensões culturais do Brasil da época – e, em muitos aspectos, do Brasil de hoje.

Esse jogo entre provocação e apaziguamento não é acidental. Como destacam André Barcinski e Ivan Finotti, no livro “Zé do Caixão: Maldito - A Biografia”, a obra de Mojica foi profundamente marcada pela reação do público e pela censura, que exigia, muitas vezes, que a ordem moral fosse restabelecida ao final. No entanto, mesmo quando cede a essas pressões, o cineasta não abre mão de tensionar os limites do aceitável. Ele blasfema, ironiza, escancara.

E faz isso com elementos profundamente brasileiros.

O chamado “horror caipira” é talvez a melhor definição para o universo de Mojica. Cemitérios, ruas escuras, histórias de almas penadas, medo do desconhecido – tudo isso compõe um imaginário que não vem de fora, mas do interior do país, das narrativas orais, das superstições que atravessam gerações. Não é o castelo gótico europeu que assombra o espectador brasileiro, mas o beco mal iluminado, a estrada deserta, o cemitério da cidade pequena.

E, claro, a figura do homem de preto.

Zé do Caixão, com sua capa, cartola e unhas longas, é, ao mesmo tempo, uma caricatura e um arquétipo. Ele dialoga com vilões clássicos do horror, mas também com figuras do folclore nacional, com personagens que habitam o imaginário popular. É um híbrido – assim como o próprio Brasil.

Outro aspecto fundamental é como Mojica utiliza a linguagem cinematográfica para reforçar essa conexão com o público. A introdução do filme, com a figura da mulher que se dirige diretamente ao espectador, remete tanto ao teatro quanto às histórias em quadrinhos e programas de televisão da época. É uma quebra da quarta parede que não apenas aproxima o público, mas também o envolve emocionalmente na narrativa.

Até por isso que À Meia-Noite Levarei Sua Alma tenha causado tanto impacto em seu lançamento. Em um Brasil conservador, profundamente religioso e politicamente tensionado, Mojica apresentou um personagem que desafiava todas as normas. Um homem que não respeitava Deus, não respeitava a moral e não respeitava ninguém.

Mas, ao mesmo tempo, ele também ofereceu uma espécie de catarse.

No fimal, a ordem é restabelecida. O herege é punido. O sobrenatural vence.

E o público, aliviado, pode voltar para casa – talvez olhando um pouco mais atento para as sombras da rua.

Revisitar esse filme hoje, em uma Sexta-feira Santa, não deixa de ser um gesto simbólico. Assim como Zé do Caixão, desafiamos, ainda que de forma muito mais inofensiva, certos interditos culturais. Mas, ao contrário dele, fazemos isso com a consciência de que estamos diante de uma obra que não apenas marcou a história do cinema brasileiro, mas também revelou algo profundo sobre nós mesmos.

Porque, no fim das contas, o verdadeiro horror de Mojica não está apenas nos mortos que retornam ou nas almas penadas que vagam pela noite.

Está no espelho que ele coloca diante da sociedade.

Até por isso esse texto só poderia ir ao ar hoje.

Afinal, em um dia como este, entre o sagrado e o profano, entre a fé e a dúvida, entre o medo e a provocação – poucas frases soam tão apropriadas quanto aquela dita, com um sorriso cruel, por um coveiro que ousou desafiar tudo:

Hoje eu como carne.

Nem que seja de gente.

 

Comentários 0

Ainda não há comentários.

Deste autor