Adam Sandler no Sandlerverso | Ame-o ou deixe-o
Críticas GeraisÀ essa altura do campeonato, com mais de 35 anos de carreira lançando filmes à rodo na praça, não tem outra opção quando se trata de Adam Sandler. Ou você ama o cara ou odeia. Ou - como diz o Desafio propriamente - você é fã ou hater. Por mais que isso seja uma generalização, correndo o risco de alguém comentar que é ‘indiferente’ à sua obra, devo reiterar que é impossível - repito, impossível - você não ter amado um filme do ator na mesma medida que odiou algum outro. Por isso a referência totalitarista do título. Não há outra opção.

Adam Sandler engraçado VS Adam Sandler sério VS Adam Sandler nem lá nem cá
No entanto, dentro desta régua autoritária de amar ou odiar Adam Sandler original, temos o equilíbrio com a sua outra versão: o Adam Sandler sério. Quase uma unanimidade reconhecer seu talento quando nos deparamos com essas atuações específicas de sua carreira. Podemos usar exemplos como “Joias Brutas”, “Embriagado de Amor”, “Reine Sobre Mim”, “Homens, Mulheres e Filhos”, “Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe” e o mais recente “Jay Kelly”. Não necessariamente Adam está 100% ‘sério’ nesses filmes, mas são produções que demandam uma dramaticidade maior por parte do ator, fazendo com que ganhe destaque justamente por ser uma faceta ofuscada pelas produções blockbuster que permeiam boa parte de sua filmografia, e o que o sustenta por anos (não à toa, Adam Sandler foi considerado o ator mais bem pago de Hollywood em 2025, segundo a Forbes).

Por sua vez, temos o Adam Sandler nem lá nem cá, do qual consiste em: filmes que são comédia a princípio, até que ele começa a pesar o clima e vira um drama sobre solidão, como “Espanglês”, “Tá Rindo Do Quê?” e “Trocando os Pés” (esse aqui tem um ‘pezinho’ no Sandler sério, com perdão do trocadilho, pelo fato de eu dar pouca risada, porém ele tenta te fazer rir, aí que tá o problema). Não vou considerar “Click” aqui, porque sinto que ainda há muito mais o Adam bobalhão original (o do chamado Sandlerverso mesmo) do que o nem lá nem cá - se é que deu para entender.

É válido apenas mencionar esses filmes para destacar que eles estão fora dessa análise ‘ame-o ou deixe-o’, pois seria muito fácil defendê-los. São ótimos filmes, alguns até premiados e considerados cult hoje em dia. O difícil mesmo é defender “Cada Um Tem A Gêmea que Merece”. Dito isto, antes de analisar e citar alguns filmes 8 ou 80 do nosso eterno Billy Madison, preciso deixar claro em que lado estou de verdade. Não vou negar, gosto do Adam Sandler. Porém, fui pegar meu Letterboxd para dar uma olhada nas minhas notas com seus filmes e, curiosamente, boa parte deles havia dado ½ ou 1 estrela de cinco. Isso me fez refletir: eu gosto do Adam Sandler mesmo? Ou gosto mais do conceito por trás do que efetivamente seus filmes?

Adam's Song
Inclusive um fun fact altamente aleatório que ilustra meu amor/ódio pelo cara: lá no começo de 2020, criei uma página de memes sobre bandas. O nome era “Casulo do Emo Careca Memes”. Começou com memes de bandas emo, mas aí fui levando mais para minha praia, evoluindo para indie, pop punk, rock alternativo etc. Acontece que vez ou outra eu flodava o feed com fotos do Adam Sandler relacionadas à música.

Até que dediquei um mês inteiro (setembro, pois é o mês do seu aniversário) postando todo santo dia fotos e vídeos com montagens do Adam Sandler em algumas bandas. Por exemplo, um dos memes que mais fez sucesso foi um frame do “Este é o meu Garoto”, com Sandler sendo Julian Casablancas, do The Strokes, e o personagem do Andy Samberg (nosso eterno Peralta) como Alex Turner, do Arctic Monkeys.

A página teve um certo boom ali na comunidade por alguns meses. Um ponto que ajudava no engajamento era que todo final de mês eu compartilhava uma playlist com todas as bandas mencionadas naquele período nos posts. Acontece que talvez um dos grandes causadores do fim da página tenha sido o próprio Adam Sandler. Pelo fato de eu postar durante todos os dias de setembro apenas coisas relacionadas ao Sandler, muitas pessoas deixaram de seguir a página.



Até que chegou outubro e estava insustentável, eu postava e flopava instantaneamente, tanto post no feed quanto stories, forçando-me a dar uma pausa na página. Hiato este que perdura até hoje. E não pretendo voltar. Obrigado, Adam Sandler. Você matou a minha brisa. Tá certo que eu escolhi por livre e espontânea vontade fazer a parada mais nonsense possível, mas poxa vida a página era minha, bateu a ideia e decidi fazer. Fui fiel ao que me propus. Ficou na memória, pelo menos. RIP Emo Careca.

A fórmula Sandler
Voltando ao objetivo central, assim como alguns cineastas, Adam Sandler apresenta certas figurinhas carimbadas que estão sempre presentes nas suas produções. É a chamada ‘Panelinha do Adam Sandler’. Basicamente são todas aquelas pessoas que vimos nos dois filmes de “Gente Grande”. Chris Rock, David Spade, Rob Schneider, Kevin James, Steve Buscemi, Jonathan Loughran, Norm Macdonald, Nick Swardson, entre outros. Normalmente, Adam está lá de boa na sua casa e aluga seus amigos para fazer um retiro de férias, aí acabam aproveitando para fazer as peripécias deles, com algum malandro gravando tudo. Além disso, existe o lado do Adam Sandler voltado à animação (“Hotel Transilvânia" é praticamente a galera de “Gente Grande” como monstros clássicos), e também atuando apenas como produtor executivo (com sua própria produtora Happy Madison Productions) e fazendo pequenas participações especiais nos lançamentos desses mesmos amigos. Podemos citar exemplos como “Gigolô por Acidente” e “O Zelador Animal”.

Ah, e um detalhe sempre recorrente é que Adam Sandler, com seu lookinho clássico de tiozão do churrasco, com bermuda longa, boné de beisebol, camiseta de algum time de basquete, e algum tênis da Nike, todo esquisito e com humor duvidoso e politicamente incorreto, conquista o coração da mulher mais bonita do filme. Sempre você vai ver o Adam com uma Salma Hayek da vida, ou a Jennifer Aniston, Drew Barrymore, entre outras. Além disso, o cara é tão família que sempre coloca a esposa Jackie Sandler para fazer uma participação especial avulsa, sem contar as filhas que estão ganhando destaque nos últimos filmes, como Sunny e Sadie Sandler.

Ademais, também existe a trilha com cara de Adam Sandler. Sempre vai ter aquela “Escape (The Piña Colada Song)” - If you like piña coladas, and getting caught in the rain - ou também Beach Boys para nos deixar ambientados sentindo a maresia com “Wouldn't It Be Nice” e “Kokomo”. Ainda pensando na vibe praia, sol, haviano, sempre vai ter a “Pass the Dutchie”, da banda Musical Youth. Podemos também lembrar de alguma cena em que Sandler levou um pé na bunda e começa a tocar aquela “Baby Come Back” do nada. Ou também, vamos ter algum momento que todos estão dançando ao som de “You Spin Me Round (Like a Record)”. Mas a skin não ficaria completa sem a clássica de playlist rock wins “I Was Made for Lovin’ You” do Kiss. Normalmente, as músicas de seus filmes trazem essa sensação de conforto. São bem populares, transmitindo uma nostalgia que já está instaurada ao revisitar seus filmes mais clássicos.

Dito isto, todos esses elementos não são necessariamente ruins. Não para se haver tanto ódio assim com o ator. Muitos filmes-conforto usam dessa mesma fórmula básica para atrair seu público. E, pode apostar, diversos filmes do Adam Sandler devem ser os filmes-conforto de alguém. Podemos citar o “Como Se Fosse A Primeira Vez” como um dos principais nesse quesito. Mas o que causaria tanto ódio então? O problema mesmo está naquela extremamente complexa e relativa: a comédia.
O bobalhão Adam Sandler
Adam Sandler é cria do stand-up americano, começou sua carreira no final dos anos 80 até que começou a despontar mesmo quando integrou o SNL (Saturday Night Live) nos anos 90. Lá ele aprimorou seus personagens, deixando aflorar sempre seu lado musical inclusive, com paródias e imitações de outros artistas, além de firmar parcerias que duram até hoje como com Chris Rock e David Spade. Já no cinema, debutou com o “Going Overboard”, de 1989. Desde seus primeiros filmes como protagonista ou com papeis secundários, Sandler criou essa persona ‘bobalhona’. Seu humor sempre foi baseado no adulto sem noção, inconsequente, o ‘crianção’ que só atrapalha. A partir dessas construções de personagens que o ator emplacou seus primeiros sucessos como “Billy Madison: Um Herdeiro Bobalhão”, em 1995, e “Um Maluco No Golfe”, em 1996. Nestes, já temos os indícios de diversos elementos que se tornaram o toque de midas do ator: o protagonista bobo, os personagens excêntricos que aparecem de vez em quando, o par improvável sendo uma moça bonita que destoa do protagonista, muito humor físico que apresentam situações embaraçosas cujas consequências serão importantes para o arco de aprendizado do principal, e - especialmente - a chuva de piadas o tempo todo.

Inevitavelmente, o humor acaba sendo muito divisível sempre. E isso não é exclusividade de Adam Sandler. O que pode ser engraçado para mim pode não ser para você. Sem contar todo o debate que pode se promover ao redor da questão do humor, o que era aceitável e o que não era, o politicamente correto, o que pode ser tratado como ofensivo ou não, entre outras discussões. Acontece que existe um humor mais ‘família’ que (quase) sempre está presente nos seus filmes, por isso o apego emocional por tanta gente. Por exemplo, o filme considerado mais ‘emocionante’ do ator pelo grande público é “Click”, de 2006. Aqui temos uma comédia que, apesar dos absurdos e piadas escatológicas, reforça seu destaque pelo desmembramento de um drama familiar tocante. Isto é, você ri e pode até sentir vergonha alheia em alguns momentos, porém no final a recompensa é garantida justamente pelo desfecho tocante.

Além disso, outros exemplos do seu catálogo usam esse tom mais familiar, como “Esposa de Mentirinha” e “A Herança de Mr. Deeds”. Normalmente, são filmes bem divertidos com uma ou outra piada problemática que, no fundo, acaba passando batido pois deu tudo certo para a família protagonista no final. Ou seja, o saldo é positivo por serem inofensivos.

Entretanto, à medida que o tempo foi passando, Adam se sentiu tão livre em explorar todos os lados do grande leque da comédia, que começou a produzir alguns exemplares desconfortáveis, no mínimo. O maior exemplo disso é o “Este É O Meu Garoto”, de 2012. Aqui temos ‘piadas’ relativizando temas pesados e criminosos como abuso e violência sexual, além de reforçar estereótipos ao suavizar quando a vítima é um menino. Por mais que haja uma parceria até que produtiva entre Sandler e Andy Samberg, é inevitável não revirar o estômago em alguns momentos. Além disso, podemos citar outros filmes dos quais abusam de piadas machistas, homofóbicas, dentre outras que eram, infelizmente, comuns - servindo como um retrato e produto de sua época - como a própria duologia “Gente Grande”.

Outrossim, também podemos citar a fase que continua até hoje: a fase Netflix. Desde seu primeiro lançamento com a gigante do streaming, “Os 6 Ridículos”, Sandler oscila entre lançamentos surpreendentes e outros muito ruins. Particularmente, a partir daqui eu realmente comecei a ficar muito decepcionado com seus filmes. Até então dava para tirar algumas coisas. A própria paródia de faroeste dos “Ridículos” apresenta uma história tão estupidamente idiota que você até ri em alguns momentos, vendo o drama dos irmãos perdidos do Adam Sandler. Só que daí ele veio com “Zerando A Vida”, “Sandy Wexler”, “Lá Vem Os Pais”, “O Halloween de Hubbie” e “Um Maluco No Golfe 2”. Todos esses eu odiei, sem exceção. Parece que Sandler ligou o piloto automático e só foi indo, como se fossem apenas produtos para a plataforma mesmo (o que, de fato, foi). Entre eles tiveram alguns lançamentos que ganharam destaque, como o próprio “Joias Brutas” e “Os Meyerowitz”, além de retomar sua parceria de muito carisma com Jennifer Aniston em “Mistério no Mediterrâneo” e “Mistério em Paris”. Porém, nenhum com aquele selo de comédia familiar conforto de Adam Sandler. Devo dizer que algumas produções de Sandler/Netflix eu nem sequer quis conferir (spoiler: todas que não citei no texto eu não vi), porque cheguei no limite. Nesta fase eu escolhi pelo ‘deixe-o’ mesmo.

Porém, não vou negar os anos 2010 por completo. Por mais ruins que sejam (são filmes ruins sim, desculpa), eu acabo me divertindo muito com “Um Faz de Conta Que Acontece”, “Pixels”, “Juntos e Misturados” (esse aqui é bem fraco, mas é Sandler e Barrymore juntos novamente, então tá tudo certo), e o tenebroso “Cada Um Tem Gêmea Que Merece”. Este último é considerado por muitos (vide campeão absoluto do Framboesa de Ouro) como o pior filme de todos de sua filmografia. Contudo, há um fator que - mesmo que soe um desrespeito à sua carreira para alguns - acaba me divertindo bastante: Al fuckin’ Pacino. Eu já escrevi um artigo inteiro sobre toda sua excelente filmografia na década de 70 - caso queira conferir. Lá ressaltei todo o meu apreço pela lenda. Portanto, por mais ridículo que possa ser o seu papel aqui, eu acho muito engraçado ver esse Al Pacino mais velho todo garanhão se engraçando com a irmã gêmea irritante do Adam Sandler (interpretada pelo próprio meliante).


Apesar de tudo, o prime do Adão está nos anos 2000, pegando ainda ali o final da década de 90, com o “O Paizão” de 1999. A partir daí é só pedrada: “Little Nick: Um Diabo Diferente”, “...Mr. Deeds”, “Tratamento de Choque” (esse aqui tem o Jack Nicholson P da vida com o Adam Sandler, isso é ótimo), “...Primeira Vez”, o próprio “Click”, “Eu os declaro marido e… Larry”, e o exótico “Zohan: Um Agente Bom de Corte”. Neste aqui Sandler é um agente secreto israelense que forja a própria morte para viver seu verdadeiro sonho de ser um cabeleireiro (só essa premissa aqui já dá um pano pra manga enorme… negócio mais nonsense impossível). Todos esses filmes são bem problemáticos, piadas religiosas, estereotipadas, xenofóbicas, entre outras. Mas é aquilo, são produtos de seu tempo e fazem parte de uma pequena porcentagem do todo das obras. Portanto, aqui eu ainda era ‘ame-o’, pois Sandler estava em seu auge criativo.

Sandlerverso Forever
Por fim, devo complementar dizendo que Adam Sandler original teve ótimos momentos ao longo de sua carreira. Seu grande destaque, certamente, é “Click”. Aqui ele uniu todas as tribos. Mesmo podendo desagradar em alguns momentos pela exacerbação de suas bobagens, aqui tem coração. O suprassumo do final de filme otimista dos anos 2000 com a música “You Get What You Give” do New Radicals. Além disso, na sequência temos “Como Se Fosse A Primeira Vez” e “Esposa de Mentirinha”. Depois temos os clássicos da sessão da tarde como “Afinado no Amor”, “O Rei da Água” (bem tosco, mas divertido que só ele…), “O Paizão” e “A Herança do Mr. Deeds”. No mais, adicionaria “Eu os declaro marido e… Larry”, “Gente Grande” (só o primeiro, o “2” é intragável) e “Zohan”. Esses seriam os meus favoritos do Adam Sandler original, aquele bobalhão inconsequente. Já os meus favoritos da vida estão no escopo do nem lá nem cá e do sério. E não é desse Adão Sandro que estamos falando…

Ame-o ou deixe-o, Adam Sandler está aí até hoje fazendo suas maracutaias, enquanto também ousa às vezes com projetos mais artísticos. Ame-o ou deixe-o, todo ano terá um novo filme do cara, e pode ser a desculpa perfeita para aproveitar a tarde de um final de semana deitado na sua cama ou sofá, comendo uma pipoca, tomando uma coquinha, e esquecendo da vida por pelo menos 1 hora e 30 minutos. Ame-o ou deixe-o, Adam Sandler já cravou seu nome na história como um dos atores comediantes mais influentes de todos. Adam Richard Sandler, senhoras e senhores!

Segue meu top 10 do Sandlerverso original:
Cena pós-créditos:

Para mim:
A - Arctic Monkeys
D- Daft Punk (Comeback)
A - Avenged Sevenfold
M - Mac Demarco
S - Strokes
A - Arcade Fire
N - Nine Inch Nails
D - Dope Lemon
L - Libertines
E - Eagles of Death Metal
R - Radiohead

























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