A novela de Ali e Emmi
Críticas Gerais
Novela é folhetim. Praticamente todos os grandes romances do século XIX, reverenciados até hoje, surgiram como folhetins. Eles eram anexos dos jornais, publicados em geral a cada semana, deixando ao final um gancho para que o leitor ficasse esperando a próxima semana para ver como a história se desenrolava. Igualzinho às novelas.
Novela é melodrama. Este surgiu após a Revolução Francesa, como forma de educar o povo pelo exemplo. Melodrama pode ser característica ou gênero artístico, e na cultura moderna é muito presente e apreciado pelos mais diversos públicos. Assim como as novelas.
Brasileiríssima, como é o título de um documentário sobre as narrativas audiovisuais seriadas, as novelas têm público cativo. E muitos filmes poderiam também se expandir para o formato novela. Um deles é o alemão “Ali - O Medo Devora a Alma”, de 1974.
Na Alemanha pós Segunda Guerra Mundial, vive sem grandes aspirações a faxineira Emmi (interpretada por Brigitte Mira). Um dia, ela entra num bar frequentado por imigrantes. Lá ela conhece o homem que mudaria sua vida: o marroquino Ali (papel de El Hedi ben Salem). Por ser mais novo que ela e, além disso, estrangeiro, as pessoas ao redor de Emmi não apoiam o relacionamento que se inicia. Eles terão de enfrentar tudo e todos para ficarem juntos. É puro suco de novela.

“Ali - O Medo Devora a Alma” é refilmagem de outro melodrama clássico, do diretor considerado o maior representante do melodrama no cinema, Douglas Sirk: “Tudo o que o céu permite”, de 1955. Nele, uma mulher de meia-idade, viúva e com filhos crescidos, se apaixona por seu jardineiro, um homem mais novo. Numa cena icônica, a mulher recebe de presente de Natal dos filhos uma televisão, para a qual ela deve dedicar sua atenção e evitar “distrações” com o jardineiro. Essa cena numa novela hoje viralizaria.
Você sabe o que é meet cute? É um clichê: o primeiro encontro fofinho entre dois personagens. O meet cute de Emmi e Ali acontece no bar de imigrantes, onde a sexagenária entrou para se proteger da chuva e também para ouvir a animada música que tocava lá dentro. Ali, ali estando, é praticamente desafiado por sua amiga barista a convidar a senhora para dançar. Ela aceita. Tem início uma linda história de amor.

Há no filme personagens suficientes para todos aqueles núcleos narrativos tão comuns nas novelas. Temos a filha de Emmi, Krista, e seu marido Eugen, que zombam do namoro da senhora. Temos os vizinhos, colegas de trabalho e donos de lojas locais que reagem mal ao casamento de Ali e Emmi. Uma novela daria a chance de desenvolver as histórias destes núcleos, que certamente seriam ricas e interessantes de se ver.
“Ali - O Medo Devora a Alma” foi dirigido, produzido e roteirizado pelo alemão multitarefas Rainer Werner Fassbinder, cuja vida daria também uma novela. Nascido em 1945, ele passou a infância no cinema, onde era mandado pela mãe, que teve de trabalhar como tradutora após se separar do marido. Entre 1967 e 1982, Fassbinder fez mais de 40 longas-metragens, três curtas, 24 peças, dois seriados e quadro clipes musicais. Ele faleceu aos 37 anos, vítima de overdose. Não seria uma novela com final feliz.
Eu desacostumei de ver novela, mas da novela de Ali e Emmi eu não perderia nenhum capítulo.




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