Corte

Críticas Gerais

É uma típica noite de sexta-feira na cidade do Rio de Janeiro. Duas mulheres de vinte e poucos anos estão sentadas uma em frente a outra em uma mesa de um barzinho movimentado, conversando animadamente. Um garçom se aproxima e as entrega uma garrafa de cerveja e uma porção pequena de batata frita. Elas agradecem em uníssono e erguem seus copos para fazer um brinde. Suas risadas, que irrompem entre um gole e outro, destacam-se dentre os ruídos dos demais clientes e a música ambiente do local.

— Mas, tirando essas situações, o estágio tem sido bem tranquilo. — uma delas fala enquanto tenta, sem sucesso, abrir com a ponta das unhas um sachê de ketchup. 

— Realmente parece melhor que aquele seu outro. Me dá esse negócio aqui, Sofia. — a outra toma para si o sachê, abre-o rapidamente com os dentes e o devolve à amiga, que a observa com uma cara de espanto e nojo comicamente exagerada. As duas riem. — Você é muito fresca.

— Sou mesmo! — Sofia dá de ombros enquanto despeja o ketchup sobre as batatas. — Mas e você, tem alguma novidade?

— Minha vida não é tão movimentada assim não, já te contei tudo. Você que tem que me contar como arrumou esse machucado na perna aí. — Ela diz, inclinando-se para o lado  para fitar o joelho esquerdo de Sofia que, escondido debaixo da mesa, ostenta um longo e avermelhado corte em processo de cicatrização, cercado por pequenas marcas de ralado e envolto por um hematoma arroxeado. — Que história foi essa?

Sofia parece rememorar o ocorrido e também direciona seu olhar para o joelho em questão. Ela puxa para baixo a barra do vestido que está usando, de modo a cobrir por completo o ferimento.

— Ah, não foi nada tão interessante, Sabrina… Foi de quando eu saí na sexta passada e —

— Sexta passada você não saiu com a Jessica? Você também não me contou como foi! — Sabrina protesta, servindo no copo das duas o que restava de cerveja na garrafa. Ela encara Sofia com expectativa e cruza os braços. 

Sofia hesita por alguns instantes, dá um suspiro e finalmente quebra o silêncio.

— É uma história longa, viu, e meio confusa.

— E você vai contar agora!

— Tá bem, então! Deixa eu ver… Eu te contei que a Jessica me chamou pra aquela festa na casa de um amigo dela, né?

Sabrina concorda com a cabeça. A outra continua:

— Pois é, eu fiz de tudo pra arrumar uma desculpa pra não ir, mas no final das contas acabei topando. Fiquei me sentindo culpada de dar um bolo nela, ela tava querendo sair comigo há um tempão e tava muito empolgada. Sem falar que eu sempre invento alguma coisa quando ela me chama pra essas festas… Enfim, nós fomos e chegando lá —

— Pera aí! — Sabrina a interrompe de um jeito estridente, num tom de voz que parece dar os primeiros sinais de efeito do álcool. — Sofia, conta direito o que aconteceu! Você é muito ruim de fofocar, nunca explica as coisas! — Ela aponta para a amiga. — Eu quero todos os detalhes, quero imaginar as cenas na cabeça. Como vocês foram, que roupa tavam usando… Me conta tudo, vai.

— Ai, tá bom. — Diz a outra, bufando. — Ela disse que eu podia ir pra casa dela e de lá a gente ia juntas pra festa, o que eu achei ótimo porque quem conhecia o caminho era ela. Combinamos de sair umas 18h, pra chegarmos lá não muito tarde. Sobre roupa, eu fui com aquele meu vestido vinho de gola alta e estreei aquela bota preta com salto que você me ajudou a escolher. — Sofia dá uma pausa e franze o cenho, pensativa. — Ela foi de saia, uma branca comprida, bonitinha. O resto não lembro.

Sabrina esboça uma careta de reprovação, fazendo a outra gargalhar.

— Bem, melhor que nada. E como tava a festa quando vocês chegaram?

— Não tava muito cheia, até porque a gente deve ter chegado lá umas 19h30min, no máximo. Mas nossa, Sabrina, que luxo de lugar. Chiquérrimo o condomínio, gigantesco. E a casa do tal amigo da Jessica é muito linda, daquelas casas de rico com uma arquitetura mais antiga, sabe? Pé direito super alto, porcelanato, tudo muito bonito. — Sofia bebe um gole de sua cerveja. — Enfim, a gente chegou na festa, falou com ele, pegou uma bebida e ficou circulando um pouco pela casa. Lá pra umas 21h já tava bem cheio e vários conhecidos da Jessica vieram puxar papo com a gente. Até aí tava tudo tranquilo, o climão só começou mesmo quando o ex dela chegou…

— Ih… Mas ela já tava esperando que ele fosse aparecer, né? Ele não é amigo dos amigos dela?

Sofia assente.

— Pois é, ela chegou até a pensar em não ir quando soube que ele ia, mas o amigo dela disse que não tinha motivo, que ia ter bastante gente e eles nem iam interagir muito... Mas quando ele chegou já deu logo de cara com a gente e ficou aquela situação constrangedora. Depois disso, nós ficamos o tempo todo tentando evitar ele. — Sofia pega três batatas do prato e mastiga rapidamente. — Come mais aqui, Sabrina. — Ela diz, apontando para a porção pela metade. A outra obedece e esvazia seu copo.

— Mas continua, vocês ficaram fugindo dele e…?

— A gente resolveu ir pra parte de fora da casa. Inclusive, a área externa também era linda, tinha uma piscina imensa, um jardim todo arrumadinho e umas mesinhas com guarda-sol. Tava bem vazio até, mas assim que a gente sentou numa das mesas uma colega da Jessica veio falar com a gente, uma tal de Ana. Acho que você não conhece ela. É uma garota lá da faculdade, mas de outro curso.

— Hum, entendi.

— Então, essa Ana tava junto com dois caras que Jessica e eu nunca tínhamos visto. Eles se apresentaram, mas nem lembro os nomes. Disseram que estudavam engenharia na USP e tavam no Rio por causa de um congresso de robótica da UFRJ. — Sofia se ajeita na cadeira. — Honestamente, a gente acha que eles entraram de penetra na festa. Jessica disse que nenhum dos amigos dela conhecia os dois.

Sabrina apoia os dois cotovelos na mesa e repousa o queixo sobre as mãos, com uma expressão de curiosidade e divertimento no rosto.

— E como é que eles eram?

— Eram até que bonitos, viu. Deviam ter uns 25 anos, tinham um papo legal. Um era mais alto e magro, o outro era mais forte. — Sofia ri. — Esse fortinho ficou tentando flertar com a Jessica no início, foi meio engraçado. — Ela come mais uma batata— Mas foi aí que começou a questão toda…

— Ihhhhhhhh… Fala!

— Então, a gente ficou conversando um bom tempo. Eles contaram o que tavam achando do Rio, o que gostavam de fazer lá em São Paulo, esse tipo de coisa. Até uma hora que a Ana chamou nós duas pra pegar mais bebida lá dentro da casa, e no caminho começou a falar que os caras tinham convidado ela pra ir numa outra festa depois dali e que ela queria saber se nós duas não animávamos de ir também. Eu obviamente achei a ideia péssima, mas a Jessica… 

Sofia para de falar subitamente, deslocando sua atenção do olhar interessado da amiga para a bolsa em seu colo, a qual passa a revirar em busca de seu celular. Sob chiados de protesto da outra, ela encontra o aparelho, que se ilumina imediatamente após ser segurado. A visão do horário na tela de bloqueio a faz ter um sobressalto: já são 22h36min. 

— Ih, Sabrina, olha a hora. — Sofia vira o celular na direção da outra. —  A boate não abria às 22h?

— Nossa, verdade! Vamos terminar aqui e ir então. — Sabrina responde. 

As amigas comem as poucas batatas restantes com rapidez e Sofia termina de beber sua cerveja em um único e longo gole. As duas pedem a conta ao garçom, pagam e saem do bar, tudo isso em pouco menos de cinco minutos. 

Elas atravessam a rua, viram à esquina e seguem em frente, afastando-se do bar a passos largos e apressados. Enquanto Sabrina veste uma saia prata curta, uma blusa branca com decote nas costas e um salto plataforma branco, Sofia usa um vestido azul plissado e uma sapatilha preta. Ambas têm seus cabelos presos e estão com uma maquiagem leve.

Elas caminham lado a lado, em silêncio, por alguns minutos. Considerando o horário, há ainda bastante movimento na rua em que estão, com muito botecos e restaurantes abertos. O barulho vindo desses estabelecimentos e os ruídos de motor dos carros e motos que passam por ali cortam o silêncio, sendo ainda possível ouvir, ao longe, a batida de uma música pop dançante. 

— Você sabe o caminho mesmo, né? — pergunta Sofia, de repente.

— Claro que sei, tá chegando já. Só seguir nessa rua e virar à esquerda daqui a duas quadras. — Sabrina responde, fazendo gestos com a mão para indicar o percurso que acabou de descrever. — Ah, continua contando o negócio da festa! — Ela diz, cutucando o braço da amiga.

— Ahhhh, verdade. Eu falei que a Ana queria que a gente saísse dali e fosse numa outra festa com os caras, né?

 Sabrina acena com a cabeça e Sofia continua:

 — Então, eu falei pra Jessica que não achava muito legal, mas ela disse que queria ir e ficou me enchendo o saco pra ir junto. Eu podia ter ficado ali na casa do amigo dela e deixado ela ir só com a Ana? Até podia, mas eu tava contando com a companhia dela pra voltar pra casa, né… Sem falar que eu não tinha intimidade com quase ninguém naquela festa além dela, e os poucos que eu conhecia eram insuportáveis. Ah, inclusive – Ela bate no braço de Sabrina de um jeito brincalhão. — Aquela sua amigona tava lá, sabia?!

Sabrina dá um longo suspiro.

— Lá vem… Quem? — A outra ergue as sobrancelhas e ri. — Aposto que é a Cláudia.

— Ela mesma! Tava lá com o grupinho todo…

— Nossa, insuportável… — Sabrina faz uma cara de desgosto. — Mas continua, você então foi pra tal festa?

— Fui, infelizmente. A gente voltou lá pra fora pra falar com os caras e foi. Os dois e a Ana disseram que a outra festa era pertinho dali, numa casa de shows. Chamaram um carro de aplicativo e fomos embora. Acredita que coube todo mundo num carro só?

— Nossa, mas cinco pessoas?!

As duas viram à esquerda, na esquina que Sabrina havia dito anteriormente que deveriam. 

— Pois é, achei que o motorista não fosse aceitar, mas o carro também era bem grande. Enfim, demorou horrores pra chegarmos no lugar, mas a gente chegou. Já devia ser mais de 1h da manhã. — a cara de espanto de Sabrina faz Sofia rir. — Juro pra você. A casa de shows era muito grande, tinha um muro preto super alto e umas luzes coloridas que vinham lá de dentro. Um dos caras que tava com a gente disse que precisava achar o convite dele pra que a gente pudesse entrar, o que eu já —

— Sofia, acho que é ali! — Sabrina exclama, indicando um aglomerado caótico de pessoas no fim da rua, na frente do que aparenta ser a entrada de uma boate.

As duas aceleram o passo na direção do local apontado. Chegando mais perto, torna-se possível distinguir, em meio aos jovens alvoroçados e alcoolizados que ali esperam, a existência de duas filas de tamanhos diametralmente opostos: enquanto a da direita parece estender-se infinitamente, fazendo curvas pela calçada e chegando a ocupar parte do meio-fio, a da esquerda possui apenas três pessoas, que aguardam pela sua vez de entrar com expressões muito evidentes de orgulho. Sem hesitação, as amigas se juntam à fila da esquerda.

— Ser produtora tinha que ter alguma vantagem, né?! — Sabrina sussurra no ouvido de Sofia, enquanto brande dois ingressos VIP como se fossem um leque. A outra sorri de um jeito convencido. 

— Tá podendo, ein.

— Estamos! — Sabrina junta os ingressos na mão e cruza os braços. — Mas continua contando! Vocês chegaram na festa e…?

— Ahhh, verdade. A gente chegou lá e ficou esperando um dos caras achar o convite pra entrar, né. Mas enquanto ele tava procurando, eu fiquei observando o pessoal que entrava no clube e comecei a achar muito esquisito, Sabrina…. Tinha gente com umas roupas super chiques, uns casacos grandes com capuz… Um negócio meio “De Olhos Bem Fechados”, sabe?

A pequena fila em que as duas se encontram começa a avançar.

— Nossa, mas que casa de show era essa?!

— Eu nem lembro o nome. Sei que eu olhei pra Jessica naquela hora e ela também tava pensando a mesma coisa. Foi então que ela puxou o celular e pesquisou na internet o nome do lugar pra ver o que aparecia… — Sofia faz uma pausa dramática, enquanto um sorriso parece querer irromper de seus lábios. — Sabrina, você não vai acreditar que lugar era aquele.

— Ai meu Deus, o que era?!

Sabrina segura o ombro esquerdo da amiga e a encara com expectativa.

— Era simplesmente uma casa de swing.

— O QUÊ!?

— Juro pra você!

As duas caem na gargalhada. A fila avança mais um pouco.

— Meu Deus, Sofia, aonde você foi se meter… — Sabrina diz, ainda entre risos.

— Pra você ver o nível da situação…

— E o que vocês fizeram depois? Vocês não entraram lá não, né? — a pergunta sai em um tom irônico, e é recebida por Sofia com uma expressão de horror.

— Claro que não! Jessica e eu fomos embora dali na hora. A Ana que quis ir com eles, acho que ela tava sabendo que tipo de festa que era…

Elas voltam a rir.

— Mas e os caras, falaram o quê? Como vocês saíram dali?

— Ih, ficaram bolados os dois, mas a gente não tava nem aí. Eles ficaram falando um monte de abobrinha lá na porta e Jessica e eu só saímos andando, não demos a mínima. Mas não acaba por aí, não…

Sofia interrompe sua fala quando a fila se move novamente. Dessa vez, as duas se veem diante de um portão preto fosco e de um segurança carrancudo, a quem Sabrina entrega os ingressos VIP que traz consigo. Só depois disso que o homem as cumprimenta, abrindo uma brecha estreita no portão para que as duas adentrem o estabelecimento.

Ao cruzarem a entrada, elas se veem diante de um pequeno lance de escadas e um corredor, que as leva até o que parece ser uma espécie de hall da área VIP da boate. O chão desse cômodo é coberto inteiramente por um carpete vermelho e possui quase todas as suas paredes envidraçadas, permitindo uma visão panorâmica de uma ampla pista de dança abaixo, que se encontra cheia de gente. Uma batida veloz de música eletrônica, oriunda de lá, preenche o ambiente, ainda que consideravelmente abafada pelo vidro. A sala possui também bancos acolchoados nos cantos e algumas mesas com banquetas adornadas, além de um buffet e um bar mais ao fundo, completamente aberto para que a meia dúzia de pessoas presentes ali se sirva.

As amigas varrem todo o seu entorno com um olhar maravilhado e sentam-se em uma das mesas, viradas para a pista. 

— Nossa, bem que você disse que aqui era incrível! — Sofia diz depois de alguns instantes.

— Sabia que você ia gostar. Mas e o que houve depois que você e Jessica saíram de lá?

— Então, a gente saiu de lá tensas, né, mas rindo muito da situação ao mesmo tempo. Entramos numa loja de conveniência 24 horas de um posto bem ali perto. Mas aí que veio outro problema. — Sofia faz uma pausa, dando de ombros. — A gente não fazia ideia de como ir embora dali. Não tava passando ônibus, não tinha táxi e nenhum motorista de aplicativo aceitava a corrida. E a gente nem sabia direito que lugar era aquele.

— Cara, que loucura! — Sabrina tem no rosto uma expressão de choque.

— Pois é, Sabrina… Fui ficando desesperada, não fazia ideia do que a gente podia fazer pra sair dali naquele horário. Foi então que a Jessica olhou melhor a nossa localização no mapa e lembrou de um conhecido dela que morava bem ali perto…

Sabrina franziu a sobrancelha.

— Quem?

— Você vai rir muito.

— Quem era?! Diz logo!

— O Tiago… — Ao perceber o semblante confuso da amiga, Sofia complementa. — O que divide apartamento com o Gabriel…

— AI MEU DEUS!

— Pois é…

— EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ FOI PARAR NA CASA DO GABRIEL!

A reação exagerada de Sabrina faz Sofia rir de um jeito envergonhado.

— Nós fomos. Ela ligou pro Tiago perguntando se teria problema e ele disse que não, então a gente foi andando até lá. Era perto mesmo, mas a gente foi o caminho todo morrendo de medo. 

— Cara… Não sei nem o que dizer. 

— Ainda tem mais. Quando a gente entrou na portaria do prédio deles, eu vi que a Jessica tava bem mais bêbada que eu. Acho que tudo que ela bebeu bateu mesmo naquela hora. Assim que o Tiago recebeu a gente, ela começou a passar mal. Coitado, o banheiro dele ficou imundo. — Sofia boceja e se ajeita no banco. — Enfim, com isso da Jessica, eu até esqueci de perguntar do Gabriel. Só notei que ele não tinha aparecido ainda quando a gente começou a ouvir uma briga vindo do quarto dele.

— Como assim?

— Ele tava numa briga muito feia com a namorada. O Tiago me disse baixinho que eles tinham terminado no dia anterior e que ela tinha ido ali pra pegar as coisas dela, mas ele pediu pra eles conversarem e ela aceitou. Claramente a conversa não tava nada bem. 

— Inacreditável, Sofia… Você deve estar feliz então, agora ele tá solteiro.

Sofia bufa.

— Já desencantei dele tem tempo, foi uma coisa de momento…

— Mentira, você era fissurada nele. — O comentário faz a outra revirar os olhos. — Você era completamente louca nele, não adianta falar que não.

— Eu era! Não sou mais! — Sofia retruca, fingindo irritação. — Só sei que quando eu percebi que a situação ali ia ficar muito constrangedora e que a Jessica não ia ter condições de voltar comigo, eu comecei a tentar conseguir uma corrida de aplicativo a todo custo, mesmo estando absurda de cara…

— Mas já era que horas? O Tiago não quis que você dormisse lá? 

— Já devia ter passado das 3h da manhã. Ele quis sim, disse que não tinha problema e tal… Mas a amiga dele é a Jessica, né, não tenho essa intimidade nem com ele, nem com o Gabriel. Isso sem falar que eu nem teria lugar pra dormir, e ainda tinha a briga de casal rolando… No fim das contas, achei melhor tentar voltar pra casa. Só que enquanto eu tentava pedir, os dois saíram do quarto e —

— SABRINAAAA!

O chamado em tom estridente, vindo da entrada do hall, captura a atenção das duas de imediato, provocando um pequeno susto e fazendo com que se virem em sua direção, sobressaltadas. Parada a dois passos da entrada, está uma mulher loira, na faixa dos 40 anos, que usa um vestido rosa de paetês e as fita com um olhar de surpresa e um sorriso amplo no rosto. Ela se aproxima e as duas se levantam para cumprimentá-la.

Sabrina a abraça demoradamente.

— Achei que você não fosse animar de vir! — Ela diz para a mais velha, com as mãos em seus ombros de modo carinhoso. Vira-se, então, para Sofia. — Sofia, essa é a Sheila, lá do trabalho. Essa daqui é minha amiga Sofia.

Sofia acena de um jeito simpático e Sheila se inclina para abraçá-la também.

— Como tá a festa hoje? Tão gostando? — Sheila pergunta para elas, visivelmente empolgada por as ter encontrado ali.

— Chegamos ainda agora, mas parece ótima! — Sabrina responde. Ela inclina a cabeça na direção do bar. — Que tal uma bebida, meninas?!

Sofia e Sheila recebem bem a sugestão e as três se direcionam para o bar, servindo-se de três taças de vinho branco. Enquanto degustam a bebida lentamente, imitando trejeitos de sommeliers, as mulheres abordam uma série de assuntos diversificados: trabalho, faculdade, relacionamentos, a eleição presidencial que se aproxima e os últimos capítulos da novela das 21h. Em meio ao papo e ao vinho, mais de uma hora se passa, até que Sheila decide descer na pista para dançar, deixando as duas outras mulheres para trás.

— Quer terminar aqui e ir pra lá também? — Sofia pergunta, apontando para as taças pela metade que ambas seguram. Elas estão de pé, encostadas em uma parede próxima ao buffet.

— Pode ser! — Sabrina dá um gole na bebida. — Mas e aí, você foi embora da casa do Gabriel e a Jessica ficou por lá?

— Ahhhh, sim. Então, como eu tava dizendo, quando eu ainda tava tentando pedir um carro pra ir embora, o Gabriel e a namorada saíram do quarto… — a voz de Sofia sai levemente arrastada. — Bem, ex-namorada. Eles tavam discutindo ainda e ele tava com a maior cara de choro, pareceu super sem graça quando viu a gente. Enfim, resumindo, eu peguei as minhas coisas, me despedi do Tiago e da Jessica, que já tava quase dormindo, e desci pra portaria pra continuar tentando arrumar a corrida. Só que quando eu tava esperando lá embaixo, alguns minutinhos depois, a ex dele desceu também. Ela tinha me visto lá em cima, mas a gente não tinha se falado.

— E ela falou alguma coisa com você?

— Ela viu que eu tava com o aplicativo aberto no celular e perguntou se eu tinha conseguido um carro já. Falou de um jeito simpático até, mas o clima todo era muito constrangedor. Eu disse que não e ela falou que também não tava conseguindo. — Sofia bebe todo o conteúdo da sua taça de uma vez, em um longo gole. — Foi então que ela sugeriu que a gente voltasse juntas.

— O quê?! Como assim?! 

— Ela tava do meu lado e olhou meu celular quando eu mudei o destino da corrida para tentar pedir de novo. Perguntou para onde eu tinha colocado e eu disse que ia tentar pedir um carro para o terminal e pegar um ônibus de lá para casa, porque talvez fosse mais fácil do que continuar tentando um direto. Foi então que ela perguntou se podia rachar comigo, caso algum motorista aceitasse. Eu disse que tudo bem e a gente voltou juntas.

Sabrina sacode a cabeça, como que incrédula, e termina sua bebida. Sofia continua:

— E o motorista que levou a gente ainda era meio maluco, ficou com um papo de alienígenas e conspirações da CIA… — As duas riem. — Juro, foi a viagem inteira falando disso, enquanto ela e eu nem nos encarávamos no banco de trás.

— Cara, que loucura…

Elas deixam as taças vazias sobre o balcão e se aproximam do vidro para observar a pista. O olhar delas cruza com o de Sheila, que acena enquanto dança, as convidando para se juntar a ela. Sofia e Sabrina se encaram.

— Vamos lá?! — Sabrina pergunta, recebendo um aceno positivo da outra.

As duas se direcionam para a parede oposta à entrada do cômodo, onde uma discreta porta de vidro fumê dá acesso a uma escada que leva ao salão principal da boate. Elas descem devagar e vão direto ao encontro de Sheila, bem no centro da pista de dança.

A música ali é bem mais alta que no hall VIP e o ambiente é ainda mais escuro, com luzes de led brancas e azuis piscando no teto. A maior parte dos presentes se encontra próximo a uma pequena cabine na lateral da pista, na qual um DJ controla as batidas que se sucedem ininterruptamente.

As três dançam, circulando por todo o espaço. Em meio à diversão, nem percebem as muitas horas que se passam, voltando à realidade apenas quando notam o local mais esvaziado do que antes. Sheila é a primeira das três a ir embora, pouco tempo depois. Sofia e Sabrina decidem enrolar um pouco mais, deixando a boate às 6h da manhã.

Assim que cruzam o portão e dão de cara com o dia amanhecendo, o cansaço parece pesar sobre elas. As amigas andam até um ponto de ônibus vazio e se sentam, em silêncio. Sofia suspira, esfregando os olhos com a palma das mãos. Sabrina a olha de súbito, parecendo ter lembrado de algo importante.

— Sofia, e a perna?

— Ahn?! — A outra murmura.

— O corte na sua perna, como você arrumou? Você disse que foi no dia da festa.

Sofia demora alguns instantes para processar as palavras de Sabrina, estampando na face uma expressão perdida, até que exclama:

— Ihhhh, verdade… Nossa, é muito bobo.

— Conta logo que daqui a pouco seu ônibus chega. — Sabrina diz, impaciente.

— Tá bom, tá bom. Eu peguei o ônibus no terminal pra ir pra casa, né. Quando saltei no meu ponto, pisei num buraco na calçada e o salto daquela bota virou. Não tava acostumada a andar com ela, né… — Ela aponta para o ferimento no joelho, fazendo menção de cobri-lo com a barra do vestido, mas desistindo logo em seguida. — Bati feio com ele na calçada, mas só vi que tinha machucado tanto assim quando cheguei em casa.

Sabrina olha para o machucado, de um jeito um tanto quanto decepcionado.

— Nossa…

— Pois é… 

As amigas encaram a rua com os olhos pesados de sono.

— Vai voltar pra casa como? — Sofia perguntou, sem olhar para Sabrina.

— Vou pegar o metrô assim que seu ônibus chegar.

Sofia balança a cabeça, pensativa. Elas esperam em silêncio por alguns minutos, até verem o tão aguardado ônibus virar a esquina e entrar na rua. As duas se levantam, sinalizam para que ele pare e se despedem com um abraço.

— Avisa quando chegar em casa. — Sabrina diz, enquanto Sofia sobe no ônibus. 

Sem se virar, ela responde:

— Você também.

Elas trocam um último aceno pela janela, com um leve sorriso nos rostos. O ônibus parte, e Sabrina o observa até que suma numa curva. Só depois disso é que ela se vira, caminhando lentamente no sentido oposto, em um misto de exaustão e satisfação.

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