Crítica - A Noiva!

Críticas Gerais

A Noiva! é um filme excessivamente caótico, inconsequente e pretensioso até demais.
Trazendo uma mulher que é trazida de volta à vida a pedido de Frankenstein, A Noiva! busca criar uma narrativa estilizada e ligeiramente inspirada no cenário punk rock, se deixando contaminar pelos excessos que aparecem na trama e sem nenhuma paciência para desenvolver seus temas. Com isso, o filme se mostra inconsequente em sua lógica interna, atirando ideias, conceitos e temas para todo lado, na expectativa que algo funcione, refletindo, é claro, seus próprios personagens. É uma abordagem arriscada, que pode sim funcionar, mas que ao menos comigo, não funcionou nem um pouco. Curiosamente, o filme acaba remetendo ao subestimado Coringa: Delírio a Dois, porém, sinto que aquela obra era muito mais coesa narrativamente e muito mais controlada em seu excesso.
Infelizmente, tanto a direção quanto o roteiro de Maggie Gyllenhaal (atriz excelente, e foi uma diretora eficiente no seu trabalho de estreia) são completamente desconjuntados: Usando do caos dos personagens como centro para a narrativa, e adotando uma abordagem operística e exagerada, fica claro que a diretora desconhece bom senso e principalmente, disciplina. E basta 15 minutos para termos certeza disso, já que: leva a protagonista a se entregar a uma gritaria sem sentido, traz Frankenstein já implorando por uma companheira através de diálogos péssimos, uma Noiva que sabe-se lá o motivo fala normal e do nada bate um surto de Síndrome de Tourette que não faz sentido dentro da história e da sua lógica interna. E confesso não ter entendido a necessidade de colocar o “fantasma” de Mary Shelley na história, qual o motivo dela assombrar/possuir sua protagonista? Abraçar a sua individualidade como mulher, talvez? Se for o caso, ela nem precisaria estar na história, pois a protagonista alcança isso sem ajuda dela. Por que todo mundo começa a dançar do nada em uma sequência na metade do filme? Dito isso, o excesso da primeira metade acaba exaustando o espectador muito rápido, se tornando excessivamente ridículo, exagerado e que chama muito a atenção para si, é como se a diretora quisesse se gabar das suas habilidades. Talvez se a direção apresentasse seus elementos operísticos e exagerados com mais calma, haveria certa facilidade para mergulhar no filme.
Além disso, ao trazer o movimento feminista para a narrativa, o filme claramente o utiliza de forma cínica (e que servirá de escudo para as críticas negativas), como se quisesse mandar uma mensagem para o espectador, quando é apenas superficial, e confesso que não entendi como a Noiva foi capaz de inspirar uma grande revolução sozinha sem ter dito algo forte o bastante para causar isso (e ver as diversas mulheres abraçando algo que só foi noticiado nos jornais de forma negativa é estranho demais, onde chegam a adotar a mancha no rosto da Noiva, e isso inclui a empregada da personagem de Annette Bening, meio que do nada). E claro, há o simbolismo óbvio do mafioso que corta as línguas de mulheres desafetas, referindo-se claro, de uma maneira de silenciar as mulheres (e isso reflete a maneira com que a detetive interpretada por Penélope Cruz é tratada ao longo do filme de forma a silenciar sua participação da investigação). Aliás, trazer nomes de mulheres importantes pode até ser nobre por parte da diretora, mas é apenas absurdo já que o filme jamais se importa em dar estofo para isso, afinal, como que a Noiva sabe os nomes daquelas pessoas? De onde veio isso? E o que seria a “geometria desobediente” que a personagem de Annette Bening diz lá no desfecho do filme? Com isso, o filme parece mais interessado em gritar sua mensagem do que deixar o público captá-la facilmente.
Claro, nos momentos que o filme demonstra certa disciplina, o filme funciona muito bem, e há bons elementos no filme: A personagem da Noiva funciona muitíssimo bem e é interessante (e a excelente Jessie Buckley explora ao máximo sua personagem, conferindo certa energia, exceto quando está tendo uma crise de Síndrome de Tourette, que ali a atriz se mostra tão exagerada que acaba afastando o espectador) enquanto o monstro de Frankenstein interpretado por Christian Bale surge melancólico, mas também voraz em sua necessidade de uma companhia (e é interessante que o filme retrate isso quando ele se projeta dentro dos filmes que assiste, porém, chega um ponto que essa repetição fique cansativa, martelando o óbvio, e em dado momento até dá a impressão de que eles são capazes de aparecer nos filmes vistos nos cinemas, o que é absurdo demais), e a relação entre os dois que remete a Bonnie e Clyde é eficiente e bem construída. Até mesmo quando o filme não está contaminado pelos excessos, ele funciona de forma bastante eficaz (e a sequência que a Noiva é assediada por um policial é tensa e incômoda). Já tecnicamente o filme é excelente, onde traz um belo design de produção que confere um estilo próprio para o período que se equilibra entre algo clássico e moderno em seus cenários, complementado pelos figurinos caprichados e pela ótima maquiagem (o detalhe da mancha na boca da Noiva é particularmente interessante). Enquanto isso, a trilha sonora apela para o exagero (refletindo a abordagem operística de sua diretora, inclusive na fraca escolha de músicas) e a fotografia tem seus momentos de beleza, embora não chame muito a atenção por parte do tempo.
Logo, confesso que não sei o quê a diretora queria contar aqui e qual o seu objetivo, e colocar um letreiro inicial afirmando que “Mary Shelley escreveu Frankenstein como um desafio” parece mais um recado que ela queria dar para alguém que a desafiou a fazer esse filme. Só isso me parece justificar a existência desse filme.

 

PS.: Há uma cena adicional durante os créditos finais.

 

Baseado no Livro de Mary Shelley.
Refilmagem de A Noiva De Frankenstein de 1935.

 

Gênero: Drama/Romance/Suspense
Duração: 126 Minutos
Classificação Indicativa: 16 Anos (Violência Extrema, Violência Contra Vulnerável, Conteúdo Sexual e Drogas Lícitas)
Distribuição: Warner Bros.
Direção: Maggie Gyllenhaal
Elenco: Jessie Buckley, Christian Bale, Peter Sarsgaard, John Magaro, Annette Bening, Jake Gyllenhaal e Penélope Cruz

 

Essas e outras críticas, você pode ler aqui:
https://criticasdefilmes1.wordpress.com/

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