De Queixo Caído

Críticas Gerais

Apesar da força da mordida do crocodilo-do-nilo ser imensa, os músculos da sua mandíbula são bem fracos. Isso quer dizer que seria fácil de imobilizar um deles, se eu tivesse que fazer isso. Isto é, se chegasse a esse ponto por algum motivo. Os domadores de crocodilo só precisam sentar na boca do bicho ou prender a mandíbula superior e inferior com uma fita adesiva. Daí, o crocodilo fica praticamente inútil.

Esse é o tipo de pensamento que eu costumo ter durante o recreio quando a impecável, reluzente Bia Maesterson fica à espreita da sua próxima presa.

Ver a Bia em ação é como testemunhar um jogo baseado em espera, mas também é como ver uma performance. Geralmente, eu me sinto como um daqueles fotógrafos da National Geographic que se escondem num cantinho qualquer ou atrás de um arbusto, só para observar aquilo que eles sabem que vai acontecer, que é inevitável. Ou seja, para ver um daqueles predadores que sempre atacam.

E é batata, a Bia sempre ataca também.

Estudar algo por muito tempo faz com que você comece a ver as coisas de um jeito mais intuitivo. É quase como um instinto materno, de algum jeito você começa a entender e até a prever certas mudanças de humor ou comportamentos. É assim que eu sei quando a Bia escolhe a sua próxima vítima só de ver o jeito que os olhos dela se estreitam e as suas pupilas dilatam. Eu também percebo quando ela fica em silêncio do nada, às vezes até no meio de uma conversa, assim que algo lhe interessa, muitas vezes movida por um acesso de tédio. Ela inclina a cabeça, talvez para sentir o vento passando, foca em ouvir um sussurro ou murmúrio, sua atenção passeia pelo pavimento até onde um aluno do nono ano está boiando como uma isca, solitário e inseguro. Essas são as presas fáceis, aquelas que não têm um grupo para protegê-las. Bia sabe que vítimas não vão fugir, que não vão sequer lutar contra ela.

Hoje é a vez da Michelle.

Eu soube disso assim que entrei na escola de manhã. Michelle era uma aluna nova que veio de outra escola, que tinha o cabelo crespo e escuro, um jeito meio ansioso e hesitante. Quando ela passou, dava quase para sentir o gosto da timidez dela, algo entre cobre e hortelã velha, que deixou uma sensação estranha de algo elétrico queimando no fundo da minha garganta. Ela queria ser mais do que era, mas não sabia como. O mais seguro seria manter a cabeça baixa. E se eu conseguia pressentir a introversão e relutância da Michelle, a Bia também acabaria completamente imersa por essa impressão. Ela já tinha aquele brilho frio no olho quando Michelle passou meio de raspão por ela.

– Garota nova. – A Bia zombou, mascando alto um chiclete de menta extra forte, sua marca registrada. Ela examinou seu alvo da cabeça aos pés, do cabelo afro até os tênis Nike recém-comprados.

Eu admito que tinha algo de majestoso na Bia, algo de etéreo no brilho da pele dela que fazia com que todos se sentirem seguros na sua proximidade. Ela era bonita, mas não do jeito que você imagina; havia algo mais poderoso na maneira precisa como ela se arrumava. Cada fio de cabelo era penteado de forma deliberada. Ela media cada uma das suas expressões e movimentos, até o menor movimento de sobrancelha.

Quando ela olhava para você, o tempo parava indefinidamente, como se estivesse nas mãos dela.

Isso aconteceu especialmente no caso da Michelle, que tinha rezado por um milagre assim, desejando ser vista e encontrar um abrigo contra o calor escaldante do escrutínio alheio. Ela parou no meio do caminho e olhou para cima, maravilhada. Não ajudava em nada o fato do seu rosto jovem trazer estampado um misto de beleza e inocência. Ela parecia tão cheia de esperança por ter sido notada. Eu podia sentir seu desespero, aquela atração urgente e irresistível se movendo na direção do sorriso cintilante de Bia. Bia se deleitou com isso. Ela decidiu dividir sua bondade superficial em pequenas frações, tal qual um dono de bicho de estimação faz com a ração se o bicho tem a tendência de comer demais. No fim, Daria no mesmo se a Michelle tivesse simplesmetne nadado na direção dos dentes de Bia, que estavam à sua espera.

– Hum... Oi, tudo bem? — Michelle correspondeu aos olhos famintos de Bia com o seu próprio olhar voraz.

A escola inteira se assustou. Ninguém nunca respondia a Bia, muito menos correspondia ao seu olhar. Fazia dois anos desde a última vez que alguém tinha feito isso, e ele quase morreu. Era obviamente um desafio.

Foi a primeira vez que eu vi a Bia quieta. As garotas ao redor dela se aproximaram de Michelle, rindo meio sem jeito. Elas olharam para sua líder, esperando uma deixa dela. Claire, de cabelos longos e lisos, a segunda no comando, puxou um de seus preciosos fios de cabelo dourados até quase arrancá-lo. Mandy, a terceira do trio, mordeu o lábio até tirar sangue.

O sinal da escola tocou e quebrou o silêncio, mas ninguém ousou se mexer.

Naquele momento, eu só conseguia ver duas opções para a Bia. Se ela tentasse abocanhar Michelle agora mesmo, isso significaria reconhecer o poder dela, o que não era uma boa jogada. Mas isso eliminaria o problema de uma vez só. Não que a Bia fosse se saciar com isso, porque ela gostava da perseguição, de incentivar a confiança alheia antes das suas mandíbulas se fecharem contra a vítima. A segunda opção seria deixar aquilo passar, fingir que tudo estava normal. Para então, arquitetar como ela persegueria Michelle, dali em diante.

Se eu sei de uma coisa, é que os crocodilos são uma espécie paciente. Bia expirou para relaxar, fez com que seu sorriso voltasse para o rosto, o que serviu como uma deixa para as pessoas à sua volta também relaxassem.

– Tão lindo. – Bia estendeu sua mão e pegou um dos longos cachos escuros de Michelle. Ela puxou o fio com um pouco de força demais antes de soltá-lo.

Talvez o que me assustasse fosse o fato da Michelle não saber no que estava se metendo. Ali de pé, do lado dos armários dos estudantes, ela não sentiu o perigo de rondar tão perto de si. Ela não sabia que assim que ela ficasse sozinha mais tarde, durante o recreio, olhando para a própria sombra, isso significaria que sua morte seria inevitável.

Ela olhou para Bia com um sorriso sincero e radiante, como alguém cuja vida acabou de mudar, e respondeu:

– Obrigada.


Bia e seu bando se posicionaram no jardim. Elas escolheram o lugar a dedo. Tem uns arbustos e girassóis que quase escondem as três, mas ainda permitem uma visão clara do resto do corpo estudantil.

O almoço é um momento complicado. Eu terminei aprendendo que a melhor maneira de sobreviver é ficar circulando de um lugar para o outro. Costumo me esconder atrás de grupos aleatórios, interagir com alguém só para estar misturada com os outros. Todo mundo já estava ciente de que deveria se aproximar daqueles girassóis. Além disso, as pessoam sabiam que não era uma boa ficar sozinho em qualquer lugar da escola.

Todo mundo sabia disso, menos a Michelle.

Durante o meu tempo aqui na escola, eu testemunhei muitas mortes. Mesmo assim, por alguma razão eu ainda tinha alguma esperança na Michelle. Ela me dava a impressão de que tinha uma chance por causa dos seus olhos, do fogo dentro deles. Parecia obra do destino, ela tinha que ser a pessoa que iria derrubar os crocodilos, fazê-los morder o vácuo antes que conseguissem arrancar o seu sangue. Eu via algo nela de secreto e deliciosamente violento.

A hora chegou. Bia mirou o outro lado do pavimento, cruzou olhares com a pequena Michelle, que estava parada de pé, meio sem jeito e sozinha.

As barrigas das três garotas rastejaram para fora da vegetação, elas se posicionaram à vista de todos. Eu estava perto de uma cerca, com vista privilegiada, observando a situação. Meu fascínio mórbido me prendia ali, acompanhando cada momento enquanto as garotas encurralavam a jovem Michelle. Ela parecia assustada, mas sem medo. O show tinha começado.

– Você gosta de chiclete? – Bia perguntou com um tom gentil.

Michelle assentiu de olhos arregalados.

– Sim, claro que eu gosto!

– De que sabor?

– De morango, claro! – Michelle afirmou. – O de melancia também é bom. Eu gosto dos que têm sabor de fruta...

– Que tal hortelã? – Bia perguntou, parecendo um pouco decepcionada.

Michelle deu de ombros, um pouco honesta demais para seu próprio bem:

– Eu até acho bom, mas gosto mais do sabor de morango.

– Experimenta. – Bia ofereceu para Michelle um chiclete stick embalado da cor azul.

Michelle olhou relutante para a oferta de Bia e balançou a cabeça.

– Não, obrigada.

A raiva de Bia era palpável. Ela sorriu de um jeito duro para a garota e enfiou o chiclete no rosto dela:

– Pega.

Michelle olhou em volta, como que pedindo ajuda. Agora que o show tinha começado, o pátio estava quase deserto. Todo mundo sabia quando era hora de desaparecer.

Exceto eu. Não saberia dizer o motivo. Talvez fosse um desejo ingênuo de justiça, de combater por tabela meus próprios ressentimentos através de Michelle. Talvez fosse porque eu sabia que haveria derramamento de sangue. Eu acabei ficando.

Michelle cedeu quase imediatamente.

– É bom. – Michelle assentiu depois de um segundo mascando o chiclete. – De hortelã.

– Hortelã extra forte. – Bia respondeu, com malícia. Ela puxou outro chiclete do pacote. – Pega outro.

Michelle pareceu querer discutir, mas pensou melhor. Ela pegou o chiclete embalado e segurou na sua mão. Por um momento, Bia ficou esperando. Quando Michelle não fez menção de abrir o segundo chiclete, Bia abriu para ela e o enfiou na boca da garota.

– Mastiga.

Michelle estava chocada, mas obedeceu. Minhas mãos tremiam. Eu me segurei. Não tinha nada que eu pudesse fazer. Intervir agora seria ir contra a natureza, quando a natureza tinha escolhido a Michelle. Ainda assim, uma raiva visceral me sacudiu no fundo do meu corpo. Bia puxou outro chiclete, abriu e enfiou de novo na boca da Michelle. Dessa vez, Michelle protestou, tentando empurrar Bia para lá, mas Claire e Mandy seguraram seus braços para mantê-la no lugar. Bia puxou mais um chiclete.

Quando a caixa de chicletes já tinha ficado toda vazia e a boca de Michelle estava inchada, Bia sorriu para ela.

– Mastiga. – Ela mandava quando Michelle parava de mexer a boca.

Michelle lutou para mastigar, num esforço contra a grande massa que amolecia na sua boca e grudava nos seus dentes. O brilho nos olhos de Bia indicavam a satisfação prazerosa e sádica que ela estava sentindo. Ela viu Michelle tentando dizer algo. Mas a imensa gosma de chiclete rolou sobre a língua de Michelle e parou perto do fundo da sua garganta. Ela engasgou, quase cuspindo aquela bola, mas Bia cobriu os lábios da pobre garota com a mão.

– Continua mascando.

O rosto de Michelle estava completamente vermelho. Era visível que estava difícil para ela respirar. A massa pegajosa era grande demais, seus lábios lutavam para se fechar apesar dela, sua mandíbula lutava para se mover. Mas ela não tinha escolha. Ou mastigava ou sufocava.

Bia riu.

A morte foi lenta e árdua, mas perto da marca dos cinco minutos, Michelle começou a chorar. Eu já conseguia ouvir o estalo da sua mandíbula. Começou suave, tipo o ponteiro dos minutos de um relógio, mas então foi ficando mais e mais alto, e assim que chegamos aos dez minutos, eu ouvi o estalo tão familiar. Michelle soltou um grito ininteligível.

Neste momento, a Michelle não conseguiria fechar sua mandíbula nem se tentasse. Seu queixo ficou mais protuberante, ligeiramente deslocado do resto do rosto, caído para baixo. A bola de chiclete rolou lentamente para fora e caiu no chão, fazendo um som que parecia o de um tapa.

Eu vi aquela gosma cheia de saliva se expandir e secar no asfalto. Bia e sua trupe se afastaram, tais quais umas víboras, e a Michelle ficou lá, olhando para o céu sem nuvens, de boca escancarada.


De todas as mortes que testemunhei, a da Michelle foi a que não saia da minha cabeça. Enquanto andava pelos corredores da escola, na minha cabeça, o som ritmado dos meus sapato batendo no chão se misturava com aquele estalo dos músculos e ossos da mandíbula dela. A risadinha da Bia se divertindo com a situção ecoava em cada canto por onde eu passava. À noite, antes de dormir, tudo que eu via era aquele pedaço de chiclete azul rolando da língua manchada de azul da Michelle, seus olhos implorando por ajuda. No fundo, eu sabia que meu desejo era que a Bia morresse.


A primeira vez que eu vi a Michelle depois daquilo foi numa quarta-feira, duas semanas após o incidente com a Michelle (que era como os funcionários andavam chamando o que aconteceu). Ela estava muda por causa de sua mandíbula inchada e imobilizada após uma cirurgia. Foi então que eu decidi teria que agir.

Declarei minhas intenções ao meu amigo mais próximo, Gerry, um aluno do segundo ano, que tinha aprendido faz tempo que a melhor maneira de sobreviver era se tornar invisível. Ele tinha sido uma das primeiras vítimas de Bia. Dois anos atrás, fora ele que tinha ficado com a boca imobilizada depois de uma discussão enorme com a Bia. Ele nunca me contou exatamente o que aconteceu, mas eu conhecia os efeitos duradouros do seu trauma. Era por isso que ele se encolhia quando Bia passava por nós. Era por isso que ele nunca ficava sozinho nos corredores da escola.

– Vou derrotar a Bia no próprio jogo dela. – Eu disse para ele enquanto caminhávamos até os nossos armários.

Ele não disse nada, mas eu senti que seu corpo ficou tenso.

– O que foi? – Eu me enfiei no meio do caminho dele.

Ele pulou para trás, levandou os braços instintivamente para se proteger. Seus livros caíram no chão. Ele se agachou imediatamente para pegá-los. Eu me abaixei para ajudar.

– Eu consigo. – Declarei confiante.

Quando ele ainda não respondeu, nem sequer reagiu, eu lhe empurrei de leve.

— Ei, me diz alguma coisa. – Insisti.

– O que você quer que eu diga? – Ele sussurrou.

Eu dei um passo para trás. Ele estava prestes a estourar de tanto medo.

– Me ajuda a fazer o que eu te falei.

Gerry balançou a cabeça. Ele olhou para baixo. Franziu as sobrancelhas, segurou a barra da camisa com as mãos, visivelmente desconfortável.

– Gerry...

– Por que agora? Por que, assim de repente, você quer fazer algo assim? – Ele exigiu saber. Seus olhos brilhavam. – Você podia ter feito algo quando foi a vez do Fred ou da Jenna, ou qualquer uma das centenas de vezes antes de agora. Por que justo a Michelle mudou sua opinião, assim do nada?

Eu abri a boca mas fechei de novo. Dei de ombros.

– Sei lá... Quanto tempo você acha que vai demorar até ela ficar entediada de novo? A Michelle é nova, Ger, e ela não teve nem um dia inteiro e normal antes da Bia ir atrás dela. Quer dizer, quanto tempo até eu ser a próxima? Não quero esperar a minha vez. Quero estar preparada.

– Ela vai se formar este ano e você sabe que ela quer terminar a escola de uma vez por todas. Isso significa que ela não vai atacar de novo até o fim do semestre.

– Não tem como você ter certeza disso. Olha a Michelle. Alguém precisa parar ela, Ger. – Eu rebati. – Esse tipo de coisa não pode acontecer de novo. Chega. Já deu.

Gerry olhou para mim como se quisesse discutir, como se pudesse sentir que tinha algo sombrio se transformando dentro de mim. Mas ele pensou por um instante, suspirou e revirou os olhos.

– O que você quer que eu faça?


De acordo com Gerry, Bia sempre carregava um pacote extra-grande de chicletes.

– São trinta e cinco chicletes no total. – Ele me avisou. – E ela não espera o chiclete amolecer antes de enfiar outro na boca, então você tem que estar preparada. As pontas dos dentes dela devem ser bem afiadas.

Nosso primeiro passo foi pequeno, comecei com só um chiclete. Eu mastiguei o dia inteiro, por muito tempo depois do sabor acabar. A esta altura, minha mandíbula doía de tanto mastigar, mas o Gerry me entregou outro chiclete.

– Não para. Agora você vai nesse ritmo até a hora de dormir. E de manhã, bota chicletes de uma só vez na boca. – Ele me entregou o pacote.

Levei o pacote de chicletes para casa e segui as regras. Passei o dia seguinte inteiro mascando dois chicletes de uma vez. A partir do outro dia, passei a mastigar três de uma vez. No fim dessa semana, eu conseguia mastigar sete chicletes de uma vez sem ficar com cãibra no maxilar e sem sentir nenhum tipo de enjoo.

Depois da escola, eu me encontrava com Gerry num lugar seguro no parque, onde nós reencenávamos o confronto com Bia. Ele abria minha boca, enfiava um monte de chiclete e eu mastigava até minha mandíbula doer. No dia seguinte, repetíamos a mesma rotina.

Foi uma jornada difícil. Quando atingimos o marco de quinze chicletes de uma vez só, eu desabei em lágrimas. A minha boca não aguentava e nem tinha sido feita para segurar tantos chicletes por tanto tempo.

– Faz só cinco minutos! – Gerry gritou comigo depois que eu engasguei e cuspi aquela gosma pegajosa.

Eu limpei as lágrimas com minhas mãos trêmulas.

– É coisa demais, Ger. Não dá, é chiclete demais.

Eu lutei para me recompor. Mas ele não me deu trégua.

– De novo. – Ele me entregou quinze chicletes de uma vez.

Olhei para ele desesperada.

– Ger. – Meus lábios tremiam. – Não consigo.

– Ou você faz ou morre. – Ele disse em tom de ameaça. Gerry abriu outro chiclete de hortelã e o enfiou na minha boca.

Lutei para mastigar aqueles chicletes duros.

– Você não quer ver a Bia sofrer? Tem algo sombrio dentro de você. – Ger me provocou, mas ele também estava falando sério. Ele me olhava com um brilho estranho nos olhos, um certo medo. – Você quer que ela sofra.

Eu gemi de dor, mas continuei mastigando com ainda mais força. Por dentro da minha boca estava cheio de pequenos cortes e feridas, mas eu lutei contra a dor que sentia. Consegui abrir os lábios e pedir mais chiclete.

Ao fim de três semanas, eu passei a conseguir mastigar 35 chiclete ao mesmo tempo e por mais de uma hora, sem nem sentir que estava forçando a musculatura do meu maxilar.

– Estou pronta. – Eu disse para o Gerry com uma montanha de chiclete dentro da minha boca.

Ele sorriu e assentiu.

– Você está pronta.


Para atrair a atenção de um crocodilo, tudo o que você precisa fazer é cruzar o seu olhar com o dele.

Parei no meio do corredor feito uma pedra. A multidão se chocou contra mim, mas eu mantive minha posição e esperei. Como um relógio, na hora certa, as três garotas viraram a esquina. Os olhos de Bia pairavam sobre todo mundo, primeiro sobre aqueles que corriam dela, até que seu olhar pousou em mim. Ela me olhou com curiosidade, esperando que eu fugisse dela. Quando eu não fiz o que ela esperava que eu fizesse, ela levantou uma sobrancelha e continuou caminhando até mim.

– Quer chiclete? – Eu puxei um e lhe ofereci antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.

Por um momento, ela se surpreendeu, mas recuperou a pose bem rápido.

– Já tenho um. – Ela apontou para os seus lábios de cor rosa-cereja.

Não vacilei. Apenas sorri para ela de forma calorosa.

– Não é como se dois chicletes fossem o fim do mundo. – Enfiei o chiclete na cara dela. – Você só vai ficar com o hálito ainda mais fresco de hortelã. É isso que você quer, não é? Hálito. Fresco. De hortelã?

O sorriso de Bia desapareceu. Foi então que ela notou que uma multidão começava a se formar. Ela pegou meu chiclete e enfiou na boca.

Eu a observei, sem expressar nenhuma emoção. Puxei outro chiclete e empurrei na sua direção.

– Quem é você? – Ela me perguntou com um tom maldoso e deixou o chiclete ainda embalado cair no chão.

Eu ri alto. Nós duas nos encaramos, nenhuma de nós disposta a sequer olhar para aquela guloseima doce e azul caída no chão. Todos ao redor prenderam a respiração. Lentamente, coloquei a mão no bolso e puxei outro chiclete. Delicadamente, eu o abri e coloquei na minha língua.

– Seu pior pesadelo. – Eu disse a ela, mastigando alto. Fiz uma azul bolha de chiclete na bem frente da cara dela, colado nela, até estourar.

Ela gritou quando a bolha de chiclete estourou contra suas sobrancelhas tão bem cuidadas.

– Sua maluca! – Ela se virou para o grupo ao seu lado e gritou: – O que vocês estão esperando? Segurem ela!

As amigas dela me imobilizaram. Por um segundo, perdi o fôlego. Fios de cabelo castanhos e loiros rodopiaram ao meu redor e cobriram minha visão, e então, caída no chão, percebi que Bia estava em cima de mim, sorrindo para mim com seus dentes brancos cintilantes.

– Você vai se arrepender de ter falado comigo, sua vadia. – Ela enfiou um punhado de chicletes direto na minha boca.

O chiclete que já estava na minha boca acabou sendo empurrado para o fundo da minha garganta. Eu engasguei. Lágrimas quentes escorreram dos meus olhos. Meu corpo teve convulsões, mas Bia continuou me prendendo.

Tossi para empurrar a massa de chiclete contra a palma da mão de Bia. Ela segurou meus lábios ainda mais forte, o suficiente para eu senti-los inchando contra o toque da pele dela. No entanto, tossir ajudou a tirar o pedaço imenso de chiclete que estava preso na minha garganta. Voltei a mastigar. Ela sorriu de um jeito perverso:

–  Isso mesmo. Mastiga, vadia, mastiga.

A multidão começou a cantar essas últimas três palavras como se estivessem enfeitiçados por Bia. Olhei em volta, tentei encontrar o Gerry, mas ele tinha sumido dali.

Estava difícil respirar e Bia não saía de cima de mim. Meus olhos reviraram. Mas no canto da minha vista, vi um clarão de luz refletindo na aparelho de imobilização que prendia a mandíbula de Michelle. Ela estava me encarando com lágrimas presas nos olhos, cheia de raiva, rezando por algum tipo de milagre. Foi o suficiente para eu encontrar o pedacinho de força que ainda me restava.

Eu acertei a crocodila monstruosa da Bia com meu joelho, bem na barriga dela. Ela soltou o ar com força, rolou para o lado. Surpresas, suas amigas me soltaram para ver como ela estava. Eu me sentei imediatamente, recuperei o meu fôlego. Não esperei muito para voltar a agir.

O espaço de tempo entre os ataques de um crocodilo não é muito grande. Eu sabia que só tinha uma coisa: o elemento surpresa. Cuspi a massa de chiclete direto no cabelo de Claire. Ela gritou, tentou tirar o chiclete grudado nela, mas o estrago estava feito. Mandy correu para ajudá-la. Enquanto as duas estavam distraídas, aproveitei a minha chance e avancei.

Bia era feita quase só de carne e perfume. Ela cedeu à minha força rapidamente. Agarrei a sua garganta e usei meus joelhos para prender os seus braços.

– Isso mesmo. – Eu estava ofegante, ansiosa. Enfiei alguns chicletes, com papel e tudo, dentro da boca dela e cobri seus lábios com meu punho. – Mastiga.

Bia tentou se desvincilhar, mas eu não deixei, não me importava mais nada. Fiquei observando enquanto ela engasgava, tossia, até ela finalmente começar a mastigar. Quando tive certeza de que o chiclete estava mole o bastante, enfiei mais um punhado de chicletes embalados na boca dela. Lágrimas rolavam dos seus olhos, deixando rastros escuros e de aparência podre no seu rosto.

Alguém na multidão gritou:

– As embalagens de papel!

Eu realmente não me importava. Tudo que eu via era a mandíbula caída de Michelle. Tudo que eu via era o rosto pálido de Gerry. Tudo que eu via era minha própria fúria, quente e pulsando por todo o meu corpo. Bia arfava, soluçava e tinha convulsões, mas eu pressionei meu punho com mais força contra os seus lábios.

Algo estalou debaixo dos nós dos meus dedos. Bia gritou.

– Gostou disso, né? – Enfiei outro chiclete, desta vez sem o papel, na goela dela.

– Chega! – Mãos me agarraram e tentaram me puxar para longe de Bia. – Você vai matar ela! Você está matando ela!

Meu cotovelo atingiu o rosto de alguém. As mãos ao meu redor recuaram. Eu não conseguia ouvir nada além do zumbido no meu ouvido e os soluços de Bia, que soavam tão deliciosos para mim, que eu poderia lamber aquele som e degustar seu sabor...

Meu pescoço virou para a direita com um estalo. Um zumbido alto encheu meu ouvido esquerdo. Caí mole, segurando minha bochecha e a minha mandíbula, que de alguma forma tinha saído do lugar e agora estava dependurada, frouxa.

As pessoas gritavam:

– O que foi que você fez? Olha o que você fez!

No fundo, acho que eu sabia do que eles estavam falando. Eu estava encarando os olhos da Bia, que estavam vermelhos, cheios de veias, vazios. Seus lábios estavam inchados e azuis. Lentamente, meus olhos viraram.

O mundo estava girando, mas puta que pariu, a sensação de vitória que eu senti quando vi que a Michelle estava sorrindo.

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