O Protagonista Personiano

Conhecimento Cinematográfico

São Paulo, Sociedade Anônima (1965), obra atemporal de Person, está de volta aos cinemas em restauração 4K. Uso o termo “atemporal”, adjetivo padrão para publicidade de relançamentos, quase como uma provocação: afinal, chega a ser curioso como a história de uma cidade em eterna transformação na década de 50, filmada na década de 60, ainda consegue ser tão moderna e gerar identificação no público de meio século depois.

Sessão dupla: BEXIGA, ANO ZERO e SÃO PAULO SOCIEDADE ANÔNIMA - Cinemateca  Brasileira

Rogério Sganzerla tem uma definição sobre o “filmar São Paulo” que gosto muito. Diz que o cineasta paulistano recusava a cidade (“Lima Barreto ia filmar no mato; Roberto Santos dirigia-se ao bairro do Brás; Duarte aclimatava dramas ostensivos e espetaculosos na Bahia e interior do estado; Khouri levava sua equipe a montanhas, bosques e ilhas, além de residências fechadas”) até Person filmar a cidade como nunca até então: “filmando tudo”.

Muda-se a cidade, os lugares, as relações. O sentimento é o mesmo. Essa continuidade entre décadas existe até com mais força em outra obra-prima de Person, O Caso dos Irmãos Naves, passado nos anos 30 conectando as torturas do Estado Novo ao regime militar de 30 anos depois.

Mais do que escolha temporal, chama atenção o descolamento dos protagonistas de Person com o mundo ao redor. Isso pode partir da origem do próprio Person em sua formação de cinema, uma trajetória que desconstrói o mito da estreia perfeita de São Paulo S/A. Citando Adhemar Gonzaga: Person muito antes de estrear oficialmente no cinema, fez um filme que ninguém viu (você pode esbarrar nessa frase também resumida na corruptela “Person antes de estrear no cinema, fez um filme”). O filme é Marido Barra Limpa, de 1957, finalizado e modificado por um grupo de produtores da Boca do Lixo que excluíram o nome de Person como diretor. O de ator continuou: “Uma coisa que eu não pude apagar desse pecado de juventude”, diz ele em entrevista, “é a minha participação como ator”. “É um equívoco na minha carreira que persistiu frequentemente (...), eu realmente não tenho a desinibição necessária para ser um ator”. Mesmo já tendo dirigido, sua entrada no cinema é marcada pela sensação de deslocamento que definirá seus protagonistas.

Folha de S.Paulo - A chanchada que Person não quis - 23/09/2002

Após as experiências como ator, Person decide ir à Itália em 1960, com bolsa de estudos no Centro Sperimentale di Cinematografia em Roma. É importante considerar que apesar do neorrealismo já não ser mais uma novidade na Itália e naquele momento já apresentar vertentes estilísticas e declínio do movimento, a ótica era outra para um cineasta brasileiro. As influências neorrealistas, cruciais principalmente para o movimento do Cinema Novo, ainda começariam a aparecer justamente naquela década que se iniciava. Novamente, Person está deslocado - está em contato com uma enorme novidade para o cinema brasileiro que já era parte do passado para o cinema italiano.

É na Itália que escreve o roteiro de São Paulo S/A e, antes de retornar, dirige Al Ladro - Cronaca Urbana (1962). Nesse curta há a primeira aparição do que estamos definindo como a figura recorrente do protagonista de Person: um homem, Beppo, está em uma estação de trem em Roma para ir a Milão, mas o trem só passa em duas horas. A espera, então, faz o homem decidir conhecer a Basílica de Santa Maria para aproveitar o tempo. A situação de estrangeiro ao local é gritante em todos os diálogos iniciais, que consistem no homem pedindo informações às pessoas locais, as quais ele confia, mas que são pouco receptivas. Separo duas:

 

BEPPO

Escuta, acha que dá tempo de visitar a igreja de Santa Maria?

HOMEM LOCAL 1

Santa Maria, qual? Há muitas igrejas de Santa Maria em Roma!


BEPPO

Com licença, onde fica Santa Maria in Aracoeli?

HOMEM NO TELEFONE (falando rápido, incomodado com a interrupção)

É fácil, pegue o 56 ou o 64

BEPPO

Mas eu quero ir a pé…

HOMEM NO TELEFONE (mais incomodado)

Pegue a Via Nazionale e pergunte!

 

Na jornada pela cidade, nosso protagonista tem sua carteira furtada (um pickpocket descaradamente bressoniano!) e após correr em desespero, retorna à estação para ver seu trem partindo enquanto ouve vozes mentais em flashback: “filho, te demos tudo o que tínhamos! Não jogue dinheiro fora!”. O protagonista é vítima de uma sociedade por ser alheio ao seu funcionamento. Reforço: sociedade, afinal, assim como o ladrão de bicicletas de Vittorio de Sica, quem causa o problema para o protagonista em Al Ladro não é representado como um vilão ou figura maligna. São as condições sociais que geram as situações.

Essa estrutura é levada para São Paulo S/A, que tem Carlos como um personagem muito interessante para reforçar o sentimento do protagonista de Person: ele não é “de fora”. Ele faz parte da cidade em construção, da indústria automobilística no auge, das aulas de inglês, dos relacionamentos modernos. Ele não poderia ser mais São Paulo. E é justamente por fazer parte que há o sentimento de deslocamento. Carlos tenta fugir frequentemente do seu modo de viver e nunca consegue, afinal, é assim que funciona a sociedade (anônima). Person reforça, agora na classe média paulistana, como as condições afetam diferentes posições sociais. Assim como o protagonista de Al Ladro retorna à estação de trem mesmo sem dinheiro, Carlos retorna a São Paulo (e de carona, por um caminhoneiro mais simples). Gosto do diálogo em que o caminhoneiro oferece um cigarro.

 

CARLOS

Obrigado, deixei (de fumar).

CAMINHONEIRO

Eu também, várias vezes.

 

Em São Paulo S/A, apesar das diversas tentativas, não há fim. Não há saída. O trabalho sempre continua, os relacionamentos sempre voltam. Person volta ao cinema, não mais como ator e faz sua estreia oficial. Para ele e para Carlos, só resta recomeçar, recomeçar, mil vezes recomeçar, recomeçar de novo, recomeçar sempre, recomeçar…

 

No decorrer da história, o homem burguês libertou-se de algumas das mais ofensivas formas de autoridade. Atualmente, submete-se a uma nova autoridade, a um poder anônimo que vem torná-lo instrumento de um conformismo voraz. É impedido de pensar e agir como entidade autônoma, a única atitude que lhe permite a visão autêntica da realidade moral e econômica que o envolve. Entendi fazer de São Paulo S/A. um depoimento contra alguns dos mecanismos que conduzem à automatização do indivíduo numa sociedade como a nossa recém-chegada ao plano de sociedade industrial. A maquinaria econômica ainda não está subordinada ao bem-estar do próprio homem: faz dele um dente da engrenagem. Daí decorre a perda de um relacionamento autêntico do meu personagem com as pessoas e coisas que o cercam, daí sua inútil e desesperada busca de uma saída. Procurada e tentada através de soluções artificiais, e não através de uma atividade espontânea e consciente, realmente libertadora, ele provocará fracassos absolutos.

Luis Sérgio Person em entrevista concedida a Rogério Sganzerla. 

Estado de S. Paulo, 1965.

Apesar do recomeço cinematográfico urbano desde Roma até São Paulo, Person se volta ao interior em três contextos totalmente diferentes para seus protagonistas. O primeiro caso, não exatamente por opção, se passa em Araguari, interior de Minas Gerais, cidade onde ocorreu o caso real dos Irmãos Naves, presos e torturados para confessarem um crime que não cometeram. Mesmo substituindo o espaço urbano como palco, Person encontra nesse caso real o elemento que liga esses protagonistas à Carlos e Beppo, que são vítimas de uma estrutura maior, a qual não tiveram escolha em participar: Beppo é vítima da condição social em uma Itália devastada pela política fascista da Segunda Guerra Mundial. Carlos é vítima da condição industrial crescente em São Paulo, citando novamente a definição de Person, um “poder anônimo que vem torná-lo instrumento de um conformismo voraz”. Os Irmãos Naves, portanto, se conectam com esses personagens fictícios por serem vítimas do Estado Novo.

Ainda nessa linha, trago outros três personagens “menores” da filmografia de Person — e por acaso, o motivo desse texto. A estreia oficial com São Paulo S/A, seguida de O Caso dos Irmãos Naves, faz com que inevitavelmente os filmes seguintes de Person pareçam menos importantes, dada a comparação, mas são nos filmes menores que sinto a curiosidade de buscar a presença do autor, mesmo que tivesse menor ou pouca intenção em estar presente.

O Caso dos Irmãos Naves': Person é corajoso ao escancarar tortura em plena  Ditadura Militar

Após O Caso dos Irmãos Naves, Person é convidado por Mojica para colaborar no seu próximo filme, dirigindo uma das histórias na trilogia de terror completada por Ozualdo Candeias. A premissa por si só já é interessante, afinal, Person nunca dirigiu ou fez qualquer aceno em seus filmes para o cinema fantástico. Pesquisando a trajetória, descobre-se que não é exatamente assim: Person escreveu, junto de Jean-Claude Bernardet, um roteiro de um chamado “filme-fábula” adaptado de A Hora dos Ruminantes. No livro de José J. Veiga, um pacato vilarejo é invadido por homens misteriosos que começam a dar ordens e alterar os moradores locais — uma história que, apesar do realismo mágico, encaixaria perfeitamente na filmografia de Person. Com esse projeto engavetado, é possível reforçar ainda mais que o elemento principal de sua obra é a opressão por um poder superior, independente de ser nesse país (Al Ladro), na cidade (São Paulo S/A), no campo (O Caso dos Irmãos Naves) ou simplesmente realista. A opressão desses filmes se mistura com a opressão do próprio país, que já estava em regime militar e apontava cada vez mais para o endurecimento institucional com a elaboração de uma constituição republicana autoritária. É nesse contexto que Person colabora, em 1968, na Trilogia de Terror com o episódio “Procissão dos Mortos” e faz mais uma interessante variação de seu protagonista: aqui, reutiliza uma história de Rubens Luchetti já adaptada para televisão (no Além, Muito Além do Além, programa de Mojica na Bandeirantes) sobre um garoto que descobre assombrações, mas substituindo os fantasmas comuns por guerrilheiros (ou fantasmas de guerrilheiros?) em homenagem clara à Che Guevara, assassinado no ano anterior. 

Imagem

Em resumo, a história fica assim: o garoto encontra um cadáver enquanto andava pela floresta, situação que chama atenção da cidade e da polícia, que aparece para levar o corpo. Após o ocorrido, a paranoia dos moradores leva à suspeita de que o garoto poderia estar ajudando guerrilheiros escondidos pela cidade. O protagonista personiano, no entanto, não é o garoto ou algum guerrilheiro, e sim o pai do garoto, Miguel. Ele presencia a discussão dos moradores de maneira cética (“Logo o senhor, um homem de instrução, falando besteira?”) e, ao suspeitarem de seu filho, de maneira agressiva (O que você tá querendo dizer, seu cretino? Que meu filho tava ajudando bandido?), até decidir que vai até o local comprovar que lá não existe assombração (ou guerrilheiros!). Ao chegar, claro, é cercado por dezenas desses guerrilheiros e é morto por um deles mesmo afirmando que nada daquilo existe. Se no contexto rural do Caso dos Irmãos Naves, as vítimas são de um poder maior real (o Estado Novo), aqui, Miguel é vítima de um poder maior fantástico (os guerrilheiros fantasmas), que independente de crença, levam à sua morte. Existe uma certa escolha desses protagonistas que os leva aos trágicos destinos: Beppe decide andar pela cidade ao invés de esperar na estação, Carlos decide aceitar a proposta de Arturo e voltar para a fábrica, Irmãos Naves decidem comunicar o desaparecimento de Benedito à polícia e aqui, Miguel decide provar que as tais assombrações não existem. Todos parecem vítimas do mesmo clichê trágico: o lugar errado na hora errada.

Os dois últimos longas de Person, no entanto, parecem ainda mais inesperados do que a guinada para o fantástico não realizada na adaptação de Veiga e concluída na trilogia de Mojica - entre todos os gêneros que Person acenava, a comédia era pouquíssimo presente em uma filmografia tão sóbria e com histórias que quase sempre beiram o trágico.

Panca de Valente fecha o trio de filmes no interior (com O Caso dos Irmãos Naves e Trilogia De Terror) e coloca Person na comédia caipira, gênero popular em São Paulo desde Genésio Arruda até Amácio Mazzaropi, mesmo que indo no caminho inverso dessa figura do caipira esperto. Jerônimo, nosso protagonista da vez, repete a situação de lugar errado na hora errada - dessa vez, no entanto, não existe uma ação direta do personagem para interferir no seu destino. Um grupo de bandidos assassina o delegado da ficcional Espalha Brasa (o quinto do mês!) e decide que o próximo prefeito deve ser Jerônimo, cidadão notório pela incapacidade. O prefeito questiona:

 

PREFEITO

Jerônimo? Você está louco? Esse não pode, não pode! Jerônimo não é o homem, Jerônimo não serve nem pra varrer rua, Jerônimo seria o fim!

 

O líder do grupo relembra o prefeito que a escolha é feita por eleição. “Democraticamente, como é nosso costume”, diz segurando um revólver. Um homem procura Jerônimo para avisá-lo da “candidatura” (única) e obrigá-lo a ir à cidade, sempre de maneira democrática com revólver na mão. O líder dos bandidos anuncia para a cidade:

 

LÍDER

Quero apresentar para vocês o meu novo candidato para delegado. Quem estiver de acordo levante a mão, quem não estiver é bom ir rezando logo um padre nosso e uma ave maria. Vocês sabem que eu só escolho o que é bom! Vamos fazer então a votação!

Panca de Valente - Papo de Cinema

Além de desenvolver novamente outro personagem vítima de uma estrutura maior (nesse caso, o grupo de bandidos), Person faz uma clara referência à troca de presidentes da Ditadura ocorrida no ano anterior, quando Costa e Silva foi eleito presidente ao vencer uma eleição indireta em que só ele foi candidato. A posição social de poder é o motivo da opressão do personagem, retornando à situação parecida com a de Carlos ao aceitar a gerência na fábrica de Arturo. A diferença clara é a opção em aceitar — o contexto em 1968 já não permitia escolhas e, sim, imposições.

Intencionalmente ou não, também não dá para deixar de destacar como o visual de Jerônimo lembra muito o de Person em sua época de Itália. Seria um “self insert” curioso. 

Esquerda: Chico Martins interpretando Jerônimo em Panca de Valente. Direita: Luis Sérgio Person na Itália, 1962

Ainda na comédia e escrachando ainda mais a situação, a próxima posição social de poder acontece novamente no último longa de Person, Cassy Jones, O Magnífico Sedutor, já em 1972. De volta ao contexto urbano, agora o do Rio de Janeiro, o personagem que dá nome ao filme não parece ser exatamente um caso de personagem oprimido de Person, ainda mais em uma comédia. Numa ponte entre o já consagrado (e então nostálgico) charme teatral das chanchadas e a irreverência sexual que seria marca da futura consagração da pornochanchada, há uma boa quantidade de sequências em que Cassy Jones é cobiçado por mulheres ou está, de sua maneira magnífica, as conquistando. 

As conquistas, no entanto, vão se tornando mais exageradas, com Cassy Jones tentando escapar de mulheres e ficando até sob ameaça de canivete para fazer sexo. Aí começa uma jornada semelhante à de Carlos, agora em tom cômico: Cassy tenta desesperadamente fugir das mulheres. Quando é preso ao fugir de um marido traído, recusa sua fiança paga pela amante - “Eu não quero sair daqui, as inconveniências da vida lá fora me obrigam a ficar aqui! Por incrível que pareça, eu estou melhor aqui!”. Quando se isola numa praia (com uma placa Enfim Só!), aparece uma bela nudista para interromper seu isolamento. Rouboult, seu comparsa intelectual interpretado por Hugo Bidet, explica:

 

ROUBOULT

Ouça: é muito comum o estado em que as criaturas psicóticas tendem a fugir de si mesmas, sob o pretexto de reencontrar-se. Perdem, dessa forma, qualquer noção do real, seus próprios desejos, suas crenças e tendências. A debilidade mental, o terror noturno e a total impotência são muitas vezes consequências irreversíveis desse processo. Em suma, tudo indica que…

CASSY JONES

O que?

ROUBOULT

É isso mesmo que… e tem mais! As mulheres! Quanto mais você se afastar… mais elas vão perceber.

CASSY JONES

Vão perceber o que?

ROUBOULT

Que você virou bicha!

 

Após algumas alucinações (como o Maracanã lotado gritando “bicha”), se torna uma situação curiosa, afinal, Cassy se sente oprimido por ser tão irresistível para as mulheres, mas ao fugir delas é oprimido por parecer “bicha” (o que parece ser algo também inaceitável para o sedutor). Não há saída. Seu desabafo fica cômico por ser inacreditável em uma comédia erótica:

 

CASSY JONES

Eu sei. Ninguém melhor do que eu sabe como são as mulheres. Só querem isso que você [Rouboult] tava querendo. Hoje em dia já não se faz mais mulheres como antigamente, já não há mais lugar para um sedutor. Mastroianni, Millôr Fernandes e eu já não temos mais o que fazer porque as mulheres tomaram iniciativa. Só pensam nisso! Só querem uma coisa!

 

Cassy Jones foi o último filme de Person, feito após alguns anos trabalhando com publicidade, área que entrou após o fracasso comercial de Panca de Valente. Depois, partiu para o teatro, fundando o Auditório Augusta e tendo grandes sucessos de público, como o espetáculo El-Grande de Coca Cola. Não deixa de ser cruel que, como mais um destino trágico de seus personagens, Person sofreu um acidente de carro a um mês de completar 40 anos e com a peça Lição de Anatomia em cartaz, dando fim a uma vida e uma carreira breve, mas sempre intensa.

 

Recomeçar após a tentativa como ator. Recomeçar como cineasta. Recomeçar em outros gêneros. Recomeçar após um fracasso. Recomeçar na publicidade. Recomeçar no cinema. Recomeçar no teatro.

Recomeçar, recomeçar, recomeçar. 

Comentários 1

A
Annenys27 de fevereiro de 2026
Adorei o texto.</br>Só faltou o filme o homem que virou suco pra fechar

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