Oscar 2026: ‘Marty Supreme’: o delírio narcísico do homem ordinário
Críticas GeraisO merecimento na maioria das vezes não passa de um mito vendido com muita eficiência. Vendedor master desta ilusão, os Estados Unidos sempre foram o berço falso da hipocrisia maior chamada ‘meritocracia’. Acredita fielmente nesta sina, o personagem Marty Mauser, de Marty Supreme, novo filme do diretor Josh Safdie, agora divorciado de seu irmão-dupla, Benny Safdie. Polêmicas à parte, Josh tem mais talento.
Um trombadinha de primeira, Marty, interpretado com verdade por Timothée Chalamet, mas sem méritos para ganhar o Oscar, sempre acreditou ser o mais esperto entre os idiotas e passou para trás várias pessoas que tinham com ele algum vínculo afetivo. Tudo e todos giram em torno do desejo do protagonista, um egocêntrico sagaz. Porém, o ditado mais brasileiro que existe, faz verdade nesta saga do herói ordinário: ‘o erro do esperto é acreditar que não existe ninguém mais esperto que ele’.
Aficcionado em tênis de mesa e com claro talento para o esporte, numa época em que a prática era vista como uma diversão qualquer, Marty vive de pequenos golpes para chegar a campeonatos de ping-pong mundo afora. Levemente baseado na história de Marty Reisman, um grande jogador que também vivia de golpes e tráfico para bancar o esporte, o malabarismo de Marty Mauser funciona até uma parte e depois descamba numa espiral rumo ao inferno. O mito desmorona. A conquista tem gosto breve, e a desgraça, ruminação frequente.
A montanha russa cria contrastes interessantes a partir da ambientação nos anos 1950, com um personagem que se ferra constantemente e persegue vorazmente o ‘american dream’, numa época em que o slogan era vendido como case de sucesso. A aspiração de Marty era a vitória absoluta no esporte. Um personagem que não duvidava de si mesmo, acreditava e vendia ter (e não tinha) pedigree. Assim como vendia sapatos muito bem na loja do tio, Marty vendia extremamente bem aparências.
A urgência para subir na vida e conquistar qualquer êxito, fez com que todos ao seu redor fossem peças para o seu gozo narcísico. Rachel (Odessa A'zion), que era casada, numa traição acaba engravidando. Claramente apaixonada e em certa medida submissa aos desmandos megalomaníacos de Marty, se rende completamente e faz de tudo para fazer o sonho de seu platônico amor se concretizar. Descobrimos que, assim como ele, de boba tinha pouca coisa, mas excesso de paixão, talvez.
No desenrolar da sua ascensão social, ele encanta uma antiga atriz de cinema em declínio de carreira, Kay Stone (Gwyneth Paltrow), que foi salva pelo ricaço nova-iorquino, Milton Rockwell (Kevin O'Leary). Sabe-se lá se para chegar na fonte financeira, Marty seduz com insistência a atriz para assegurar o possível patrocínio. Funciona até certo ponto e depois não funciona mais. Enquanto ele engana pessoas da mesma classe ou inferiores, seu declínio à desgraça moral, a pior para este tipo de personagem, chega quando ele tenta enganar o milionário que viu nele uma bela peça de propaganda.
Enganando quem aparecia em sua frente, Marty topa sujeitos mais espertos e mais perigosos que ele. Nasce aí a bela presença e participação especial do diretor Abel Ferrara, num personagem peculiar e com algum dinheiro. Com cara de mendigo e um cachorro que diz ser sua família, Ezra Mishkin (Ferrara) subterraneamente cava a desgraça do protagonista. Nas camadas superiores, o empresário Rockwell, além de humilhá-lo, o coloca numa posição vexatória de uma falsa vitória que só fazia sentido para o ego de Marty.
Curioso pensar que o ‘american dream’ ou o ‘american way of live’ tenha se transformado em ‘make america great again’ e com isso tenha eleito um sujeito com síndrome de protagonista, megalomaníaco, fracassado, pilantra e medíocre, mas excelente vendedor de aparências. Não creio que o diretor tenha feito essa elaboração. Condensou, contudo, uma jornada do herói realisticamente estadunidense dos anos 1950 e ironicamente de 2026.
Marty Supreme tem truques de Joias Brutas (2019) e o melhor está presente nesta obra de Josh, o mais habilidoso. Controlar uma desgraça crescente e a destruição de um mito enraizado numa cultura com tanta energia tem seus méritos. Falta, porém, desconfiança do diretor quando tantos parafusos bem apertados incitam artificialidade, limitações e pouco interesse sobre o destino. A ironia dos disfarces poderia ter sido melhor elaborada, embora o final dê a cara ordinariamente masculina que Marty sempre negou e merecia. Um personagem detestável dentro dos limites hollywoodianos, ainda recebe dos demais a mediocridade do amor pós-guerra: tipicamente suburbano e enquadrado na linha fina da aparência.













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