Gatito
Críticas GeraisO nome dela é Lúcia, ninguém chama, ninguém pergunta. Mas antes de a rua virar seu endereço, ela era Lúcia.
Ela tem 35 anos, o rosto aparenta mais. Não por vaidade descuidada, mas por cansaço, a pele queima todos os dias, poeira dos carros, chuva. O corpo aprendeu a suportar.
Lúcia nasceu no interior de Alagoas. A casa era pequena, de paredes finas e chão de terra batida. Quando chovia, a água entrava pela porta. Quando fazia sol demais, o telhado esquentava a ponto de quase não se poder ficar dentro.
A mãe morreu cedo, vítima de uma febre que ninguém soube explicar direito. Lúcia tinha oito anos. O pai nunca mais foi o mesmo. Ficou mais calado, mais curvado, trabalhou dobrado para sustentar a casa. Plantava feijão quando o tempo ajudava, aceitava serviço de pedreiro quando chamavam.
Lúcia cresceu observando o esforço dele. Aprendeu a cozinhar cedo, a lavar roupa no tanque, a remendar. Aprendeu a comer devagar quando a comida era pouca e que havia noites em que dividiam um prato simples e fingiam que era suficiente.
A decisão de ir para São Paulo não foi amadurecida no silêncio. Uma vizinha contou que a filha tinha conseguido emprego na grande na capital. Falou de salário fixo, carteira assinada, oportunidades e aquilo ficou rondando a cabeça de Lúcia por semanas.
O pai resistiu no começo, depois entendeu. Ele sabia que ali, na pequena cidade, o futuro era mais incerto. Na rodoviária, ele segurou as mãos da filha por tempo demais. Disse que ela precisava se cuidar. Disse que a cidade grande não perdoava distração. Lúcia prometeu mandar dinheiro, prometeu voltar para visitá-lo, prometeu que daria certo.
Quando chegou a São Paulo, sentiu medo, o barulho não parava. Ônibus passavam em sequência, gente apressada atravessava ruas sem olhar para os lados. Ela segurou firme a alça da mala e foi.
Conseguiu trabalho numa lanchonete depois de três dias procurando. Começou limpando mesas, observava os outros funcionários para aprender rápido. Em pouco tempo já anotava pedidos, equilibrava bandejas e lidava com clientes impacientes.
O salário era pouco, mas regular. Alugou um quarto numa pensão antiga. Dividia banheiro, fogão e histórias com outras mulheres que também tinham saído de cidades pequenas. À noite, conversavam na cozinha sobre saudade e planos. Algumas choravam escondido, Lúcia também sentia falta do pai, mas mantinha firme a ideia de que estava ali por um motivo.
Mandava dinheiro para o pai todo mês.
Foi nesse período que ele apareceu.
Sentava sempre perto do balcão, pedia café sem açúcar. Perguntava o nome dela, falava com calma. Não fazia piadas ofensivas como alguns clientes. Não olhava para o corpo dela como outros faziam.
Começou a esperar o fim do turno para acompanhá-la até o ponto de ônibus. Dizia que era perigoso e Lúcia se sentia vista.
Lúcia se apaixona pelo cliente simpático e gentil e em questão de meses eles já estavam namorando, ele a convidou para morar no apartamento modesto dele, assim ela poderia morar mais perto do trabalho, ela concordou, teria o amor e a companhia de uma pessoa nessa cidade tão grande e solitária.
Com pouco mais de 3 meses de relação ele pediu para que ela saísse do emprego, alegando que ela não precisava mais trabalhar, ele como homem proveria a casa e ela cuidaria somente dos trabalhos domésticos e futuramente dos filhos, Lúcia relutou um pouco, mas ele falou que ajudaria com o pai, o homem já estava controlador demais, não deixava ela sair com as amigas do trabalho, ia buscar e levar ela na lanchonete, ficava irritado quando via algum homem conversando com ela e sem saída ela pediu as contas do emprego, se viu prisioneira de um homem que no começo era doce e gentil, mas agora estava cada mais agressivo, ela então cedeu.
Sem o trabalho, perdeu a rotina, ficou dependente dele até para comprar absorvente. Ele questionava cada saída. Perguntava com quem ela falava, dizia que o mundo era cheio de homens mal-intencionados e que ela era inocente demais para perceber.
O telefonema sobre o pai mudou tudo.
Em um dia Lúcia recebe um telefonema, o coração gela, do outro lado da linha um primo distante avisa que seu pai havia falecido, Lúcia sem forças para responder qualquer coisa, chora e o homem vem, pega o telefone e desliga, Lúcia explica o que aconteceu e o homem irredutível diz não ter dinheiro para pagar a passagem para ela ir ao enterro do pai e diz para ela parar de chorar porque isso irritava ele.
As agressões começaram logo depois, primeiro um empurrão. Depois um aperto forte no braço. Depois um tapa, até chegar no olho roxo. Ele sempre pedia desculpas, sempre dizia que iria mudar.
No dia seguinte ao olho roxo o homem saiu para trabalhar e acabou por descuido deixando a chave reserva, foi a oportunidade perfeita, Lúcia fugiu de casa, somente com a roupa do corpo, sem saber pra onde ir, correu para bem longe daquele cativeiro, correu tanto que não sabia mais onde estava, não tinha pra onde voltar, Alagoas não fazia mais sentido, seu pai havia falecido, não teve irmãos, o restante dos parentes ela não tinha contato, só teve quando o primo distante ligou para avisar da morte do seu pai.
Os primeiros dias na rua foram os mais difíceis, dormiu em banco de praça, acordou com gente chutando seu pé. Aprendeu que precisava estar atenta o tempo todo, aprendeu que seus poucos pertences que ganhou nunca podem ficar longe do braço. Recebeu ajuda de alguns, mas desprezo de muitos.
Tem uns anos que seu endereço se tornou um pedaço de calçada no centro de São Paulo, entre a porta de um pequeno comércio e um poste que acende antes mesmo de o céu escurecer. Ela dorme enrolada em cobertores e um papelão, encostada na parede fria. Ao lado dela, desde algumas semanas atrás, existe um corpo pequeno e curioso.
Gatito surgiu numa manhã fria, os ossos aparentes sob o pelo preto e branco. Revirava uma lixeira com insistência, Lúcia o observou de longe por um tempo. Havia naquele animal uma fragilidade que ela reconhecia. Ela vai em um lixo próximo dali e encontra um pedaço de pão, agacha e empurra metade para ele, o gato hesita, rosna baixo, mas a fome vence. Lúcia observa aquele corpo minúsculo devorar o pão em segundos, em seguida ele mia pedindo mais, ela se aproxima para fazer carinho nele, ele apesar de assustado e desconfiado, se rende aos carinhos enquanto come, depois de devorar o último pedaço de pão ele corre. Lúcia olha para a direção que ele foi, mas não vai atrás, volta para a calçada e arruma sua coberta, o dia começou.
Na manhã seguinte ela avista o mesmo gato, embaixo da coberta dela tem um resto de marmita, ela leva pra ele e ele ainda desconfiado se aproxima e come, esse ritual se repete algumas vezes até que um dia o gato fica.
Ela o adotou sem cerimônia, como se adotasse um pensamento. Precisava de companhia para atravessar os dias e, sobretudo, precisava cuidar de algo vivo para lembrar que ainda estava viva também. Mas junto com o afeto veio o medo: o medo de que ele fosse embora. De que, como quase tudo na vida, também não escolhesse ficar com ela. Por isso improvisou um fio branco como coleira. À noite, passava o fio pelo pescoço dele e enrolava a outra ponta na própria mão, um gesto para garantir que, ao acordar, ele ainda estaria ali.
Ela brincava com o gato com um pedaço de galho ou com pedaço de saco de pão amassado e o gato pegava tudo que Lúcia jogava, um dia enquanto passava por um bar lotado, viu na TV um jogo de futebol em que o narrador chamava o goleiro de “Gatito”, ela então olha para o gato em seu colo e decide ali o nome do animal.
A manhã começa cedo na rua, antes de Lúcia abrir os olhos, Gatito já está desperto, atento aos primeiros passos apressados, aos ônibus que passam em alta quantidade, ao barulho metálico das portas de comércio subindo. Os pés que começam a surgir na calçada apressados, saltos, tênis, sapatos sociais, todos em passos rápidos, bitucas de cigarro jogadas no chão, papéis de bala, o chão é o estado mais inferior e Lúcia e Gatito permanecem ali. O fio branco ainda envolve seu pescoço, a ponta desaparecendo sob o cobertor de Lúcia. Quando o dono do estabelecimento atrás deles ergue a porta com estrondo, Lúcia desperta sobressaltada. Seus dedos apertam o fio por instinto, Gatito enrijece o corpo, se assusta. Ela respira, desfaz o nó, tira o fio do pescoço dele e guarda o fio no bolso. Ele se coça intensamente e observa o movimento como se tudo fosse apenas mais um dia comum, e é.
Eles caminham pelas ruas enquanto a cidade desperta por completo. Às vezes ele vai no colo, o corpo leve contra o peito dela ou pendurado em um lado do ombro; às vezes desce para o chão, olhando em frestas e buracos o resquício de alguma coisa que se mexa. Perto de uma lixeira, uma mulher joga fora o resto de um lanche. Lúcia espera alguns segundos, aproxima-se e recolhe o que ainda pode ser comido. Senta na calçada e divide com Gatito, os dois comem concentrados observando o fluxo de pessoas que passam sem nota-los.
Mais adiante, atravessam becos e escadarias até chegar a uma pequena praça. Lúcia se senta no chão, encostada a um banco, e estende a mão pedindo moedas. Gatito permanece por perto explorando os lugares ao redor de Lúcia. Uma criança se aproxima, encantada, e tenta acariciar o gato. A mãe intervém antes que o toque aconteça, puxando o filho para longe. Lúcia observa a cena e depois chama Gatito com um “psi psi” baixinho, ele volta e alisa a cabeça na perna dela, ela desliza os dedos pelo pelo do gato.
À tarde, Lúcia tira de dentro da bolsa um bebedouro improvisado para Gatito feito de uma garrafa pet cortada, eles passam em um parque e ela enche o bebedouro de Gatito e uma garrafa de água para ela, Gatito bebe, depois se afasta para os matos próximos para fazer suas necessidades, desaparecendo por instantes entre as folhas secas. Lúcia acompanha cada movimento até que ele retorna, tranquilo, como se sempre soubesse sempre o caminho de volta.
No início da noite, ela entra na fila de um bandejão comunitário. Gatito fica do lado de fora, sentado perto da entrada, observando atentamente os pés que entram e saem. Quando Lúcia retorna, traz pequenos pedaços de frango guardados num guardanapo escondido no bolso. Senta-se na calçada e oferece a ele, um por um. Entre um pedaço e outro, passa a mão em sua cabeça, ele mastiga apressado.
O céu escurece de vez, os postes se acendem, os faróis dos carros desenham riscos vermelhos e brancos no asfalto. Voluntários passam distribuindo cobertores e banho em um alojamento; Lúcia vai tomar banho, Gatito vigilante não aceita o carinho do voluntário, Lúcia sai e recebe um cobertor, agradece com um aceno e um sorriso sem graça. Gatito circula próximo às pernas dela, atento.
Eles retornam à calçada de sempre. Lúcia tira o papelão da bolsa, estende o cobertor novo e se ajeita contra a parede. Gatito senta ao lado, olhando na mesma direção que ela, para a rua que não para.
Lúcia enfia a mão no bolso e sente o fio branco, tira-o devagar. Observa Gatito e pensa na primeira vez em que o viu, magro e faminto. Pensa no quanto ele engordou, no brilho que voltou ao pelo. Pensa também que talvez, se um dia ele fosse embora, fosse porque encontrou algo melhor do que ela, não fugiria por maus tratos.
O coração aperta, mas ela dobra o fio com cuidado e o guarda de volta no bolso.
Olha para o gato, que continua sentado, tranquilo, compartilhando com ela a mesma direção do olhar. Ela então se ajeita e deita, pega uma parte do cobertor se cobre e fala:
— Boa noite, Gatito.




Comentários 3