A tragédia de Agnes e Will
Críticas GeraisA cineasta chinesa Chloé Zhao possui uma sensibilidade peculiar para unir cenários e personagens em nome da narrativa. O filme que lhe rendeu o Oscar de melhor direção, Nomadland, ilustra bem isso e até sua aventura pelo universo Marvel, Eternos, carrega essa marca. Talvez por isso as escolhas cênicas da diretora para Hamnet não surpreendam os espectadores mais atentos e colaborem para que a experiência do filme ganhe uma camada extra de intensidade.
Com oito indicações ao Oscar deste ano, a produção tem seu foco em Agnes (interpretada com potência pela multipremiada Jessie Buckley), uma mulher atenta aos sinais da natureza e com fama de bruxa naqueles tempos sombrios. Ao encontrar Will (Paul Mescal), eles iniciam uma vida juntos que transita entre as questões práticas dos cuidados de uma casa e o afeto que pouco se importa com as regras dos relacionamentos do seu tempo. Parece moderno, mas Hamnet carrega parte de sua parte trágica na solidão de sua protagonista. Que, infelizmente, não difere muito da vivida pelas mulheres de 2026.
O longa-metragem não romantiza o início do relacionamento entre Agnes e Will para chegar ao tema que realmente importa para Zhao. O parto solitário no meio da floresta rende uma das cenas visualmente mais fortes de Hamnet e contrasta com o segundo nascimento da trama, que segue à risca os mandamentos da época, com direito a alguns “pare de gritar” e restrição de movimentos. Mesmo num ambiente hostil, Agnes segue seus instintos e salva a vida da filha Judith, momento que ganha um significado especial para ela. Guiada por seus sonhos, ela acredita que ela será o ponto mais frágil de sua prole.
Jacobi Jupe, intérprete de Hamnet, faz a tela brilhar a cada aparição. Mesmo que seja a partida de seu personagem o grande fio condutor do roteiro, ele deixa sua marca. Tem alma de criança e, por isso mesmo, uma inocência que se mistura com a curiosidade pela vida. E a dele não será nada fácil. Sua relação com o pai é desenvolvida com carinho, mas há também uma cobrança por coragem. Enquanto William Shakespeare vai construir sua carreira no teatro em Londres, cabe ao pequeno homem da casa a segurança da família. Simbólico, já que serão as mulheres que vão encarar o maior dos desafios.
A partir da morte de Hamnet, os ângulos de câmera se tornam menos ousados, mas a montagem (assinada pela diretora ao lado do brasileiro Affonso Gonçalves), garante o ritmo, especialmente na cena do teatro. E nessa cena também que Paul Mescal entrega sua força como ator experiente dos palcos. O texto é dito com naturalidade e a emoção maior fica reservada para a coxia. Quase uma metáfora para a dor de Shakespeare diante da morte do filho. Ele estava mergulhado no trabalho enquanto sua mulher vivia a maior dor do mundo.
Vale ressaltar aqui que é Agnes quem incentiva o marido a seguir seu sonho. Porém, o ressentimento pela falta dele no momento mais doloroso de sua vida está em seus olhos. Há também uma catarse para ela diante da apresentação da peça escrita sob a dor do luto. Mas o final de Hamnet deixa claro que Agnes é uma mulher marcada de uma forma diferente. Sua fama de selvagem, que vai parir no meio da natureza e capaz de curar usando ervas, não basta. Até a mais forte das mulheres precisa de um apoio.
Talvez isso seja o que causa sua raiva diante do nome de seu filho dito em um palco. Um impacto que vai se dissolvendo aos poucos, nos detalhes da peça que só ela e Shakespeare entendem. Há dor em ambos, mas elas são diversas e a arte tenta uni-las. É onde moram as principais lágrimas que o filme provoca. A tragédia pode ser de Hamlet, mas os corações que sangram são os de Agnes e William.




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