Morra, Amor!
Críticas GeraisNão há muito tempo, li um tuíte que criticava o uso do Day For Night nas cenas noturnas de "Morra, Amor". Nas respostas, mesmo aqueles mais indulgentes diziam tolerar o uso somente porque provavelmente seria muito "difícil" gravar com o bebê à noite. Fiquei com o tuíte e as respostas na cabeça por uns dias, hesitando em responder, porque sequer tinha assistido o filme. Hoje, assisti – e o incômodo supracitado se mostrou ainda maior.

"Morra, Amor" é um filme de exageros, e desenvolve sua estrutura na oposição polar entre a serenidade e o caos, ambos levados ao paroxismo. A cena inicial, por exemplo, apresenta uma câmera parada, observadora e austera, antes de qualquer montagem ditar um outro modo de observar a situação. Na sequência, enquanto os protagonistas transam, cortes inundam a tela, a fim de capturar o frenesi do momento. Essas duas cenas apresentam o filme excepcionalmente. A essa altura, com a minutagem nos cinco minutos, o espectador já sabe com o que está lidando (o que, por si só, não é mérito ou demérito, mas é bom que este seja um filme resoluto; que entre no furacão sem medo de ser levado). Acompanhamos o desgaste no relacionamento entre Grace e Jackson, em virtude do nascimento do filho do casal. Sobrecarregada, Grace se vê vertiginosamente escalando a um estado de desconforto conforme o tempo passa, e ninguém ao seu redor a compreende. Além disso, a vida sexual do casal passou a ser quase inexistente, o que, sem a menor dúvida, enfraquece qualquer relação. Cada vez mais exausta, Grace precisa de um escape. O longa molda lindamente toda a aura estressante, conduzindo estímulos visuais e sonoros que suscitam incômodo: a decupagem crua e confusa, que muitas vezes nos pega de supetão; o cachorro, presente indesejado do marido imprestável, que late e chora (mesmo em off) até o momento de sua morte, que torna impossível que o espectador não esteja ciente do que acontece com todo o resto – e até convida à dúvida, quando, por exemplo, Grace comenta que ouviu o bebê chorar, ainda que isso não tenha acontecido. Me perguntei se eu que não tinha ouvido.
Em algum momento no meio desse mar de acontecimentos, Lynne Ramsay faz da polaridade já citada o maior trunfo da obra, mas não da maneira esperada. Os polos se misturam, tornam-se um só, e as regras que antes regiam cada um passam a regir o novo cenário. Grace se torna cada vez mais fisicamente alheia ao seu ambiente, enquanto as lentes reforçam essa estranheza por meio de uma distorção cada vez maior do plano de fundo. O caos já não precisa da montagem frenética para se estabelecer, já que é tão parte da vida dela quanto outros elementos. Aí entram também as cenas noturnas, incontestavelmente azuis, que tomam a tela. Na minha visão, não há uso mais adequado nessa mistura de emoções que o filme quer transmitir. A noite se confunde com o dia como o caos com a serenidade, a loucura com a sanidade. Porque a fronteira entre esses extremos é frágil, e nunca se sabe ao certo em qual lado estamos. Como acontece na última cena, dá pra queimar uma floresta inteira ateando fogo num só objeto.
Ao menos para mim, esse modo de ver a condição humana – e, mais do que isso, a condição da mulher – é muito interessante. Voltando ao tuíte depois de assistir ao filme, me parece ainda mais claro que vale um olhar mais atento ao que a Lynne Ramsay fez – se quis ou não fazê-lo, não importa. Às vezes as coisas escapam do nosso controle. Mas fez.




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