Superman: A Humanidade Como Prática
Críticas GeraisEm Superman, James Gunn nos mostra o super-herói titular, interpretado pelo David Corenswet, enquanto ele reconcilia sua herança kryptoniana com sua educação humana. Num mundo que se associa alegoricamente ao mundo real, Lex Luthor (Nicholas Hoult), um excêntrico bilionário à la Elon Musk, comanda uma missão colonizadora com o presidente da Borávia para invadir Jarhanpur (países fictícios) e, também, para derrotar o Superman.
Com tantas tragédias acontecendo recentemente - não somente a questão Israel x Palestina, mas também o aumento da violência policial, o aumento do feminicídio, a onda gigante de incel e redpills que dominam as redes sociais, etc -, fica difícil não perder a esperança na humanidade, que parece mais desumana do que nunca. Com isso, um blockbuster sobre o símbolo da esperança se faz muito necessário, ainda mais depois que esse símbolo foi, nos últimos anos, completamente esvaziado e subvertido.
Por mais necessária que seja a representação do conflito Israel x Palestina no filme, essa é a parte menos interessante e, ironicamente, menos política, uma vez que a desestabilização da colonialidade está na forma como a super-representação do Homem é desconstruída. Essa representação do colonialismo europeu, que tornou o homem ocidental branco como o padrão universal do “humano”, assim, desumanizando todos aqueles que não se encaixam nesse modelo. Dessa forma, a desconstrução dessa ideia de “humano” se torna fundamental para desafiar as estruturas de poder que foram construídas pelo colonialismo, dado que ela foi/é historicamente utilizada para excluir povos não-europeus.
A humanidade do Superman de James Gunn é verbo, prática política. Visto desde o começo do filme sendo derrotado, mas se reerguendo, ajudando e sendo ajudado (na cena em que Mali o ajuda, um contra-plongée coloca o super-homem a mesmo nível que os homens), esse herói nos faz refletir sobre o que é ser humano e sobre como nosso corpo traduz esse conceito. Em uma cena ao final do filme, quando Lois finalmente diz que o ama, o herói sorri genuinamente; o ato mais humano de todos. Enquanto isso, Lex Luthor sempre é filmado em uma posição aristocrática, andando pela sala ao mesmo tempo que ordena as pessoas, a seriedade toma conta.
O filme todo tem um tom muito dinâmico, a câmera não para nunca, sempre está conectada com essa energia radiante do Superman. Mas todo esse dinamismo acaba deixando o filme corrido, muito apressado e sem tempo para qualquer tipo de contemplação (tem uma cena que, em 1 minuto, tem uns 20 cortes). Além disso, a parte em que ele é Clark Kent é quase nula, e insignificante.
A forma como o diretor trabalha imageticamente com a relação do herói com o sol - sua fonte de poder - é bem bacana também, apesar de previsível. Nas cenas em que o herói apresenta maior vulnerabilidade, a escuridão toma conta; enquanto de dia, o sol entra na lente a todo vapor, irradiando tudo com claridade e fazendo flares na câmera, e tudo isso combinado ao herói exercendo a humanidade.
É um filme bem legal, mais legal que a maioria das coisas de herói produzidas recentemente. Nos lembra de amar o humano e praticar a humanidade, que se faz tão esquecida atualmente. Nos lembra de que, quando tudo parecer sombrio, basta olhar para o céu.






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