O interrogatório.

Críticas Gerais

“A cena que me deixou apaixonado pelo cinema”
Sendo bem honesto, eu não sei. 
Não sei por que assim como todos os verdadeiros amores: eles simplesmente acontecem. 

É bem verdade que os filmes sempre nos passaram a ideia de que, quando você encontrar um verdadeiro — ou grande — amor, lembrará daquele momento, daquele instante, pelo resto da sua vida. Completamente. Com todos os mínimos detalhes. Desde a roupa que o seu amor estava usando até a cor do guarda-chuva que uma senhora de alguns tantos anos carregava naquela manhã ensolarada de algum dia de algum mês de algum ano que, pra você, se tornou o dia, o mês e o ano.

Mas a verdade é que, assim como muita coisa que vemos nos filmes, essa fórmula nem sempre se mostra precisa, exata ou, simplesmente, verdadeira.

Eu não lembro em que cena eu me apaixonei pelo cinema.
Não sei qual era o filme, qual era a trilha sonora, o cinema em que eu estava ou o aparelho DVD que eu usava. O que eu sei é o que eu sei: eu sou completamente apaixonado por isso.

Ainda assim, mesmo com as falhas da frágil mente humana, existem, sim, cenas, filmes ou trechos que podem não representar exatamente o momento em que me apaixonei por cinema. Mas que certamente ajudam a explicar tal paixão. Perceba, o cinema acompanha nossas vidas — e eu digo isso da maneira mais íntima possível. Existem filmes que foram pilares essenciais durante minha infância, permitindo que hoje eu possa dizer, sem hesitar, que sim, eu amo o cinema. E, assim como existem esses filmes para esse período, também existem outros para todos os que passaram, que estão acontecendo agora e, espero eu, para muitos que ainda virão.

Desse modo, tento mensurar tudo isso — toda uma vida e toda uma paixão — numa única cena que, repito, pode não ser a cena que me fez apaixonar pelo cinema, mas nem todo grande amor nasce de uma história de amor à primeira vista. Partindo dessas lembranças e reflexões, chegamos à cena.

Pois bem. A cena que escolhi é aquela que, talvez, melhor dialogue com todas as minhas fases de vida até aqui: minha infância, minha adolescência e, agora, minha vida adulta. Não. Ela não carrega consigo nenhum significado profundamente autobiográfico, tampouco é uma cena de um clássico cult que um cinéfilo de carteirinha traria à mesa. Não é Bresson, não é Tarkovsky, Akerman ou Varda.

É um filme sobre um homem cheio de traumas de infância que decide sair por pelas sombras à noite usando o pseudônimo de homem-morcego e uma fantasia de, bom, morcego, enquanto enfrenta outro homem, igualmente marcado por distúrbios psicológicos, que pinta o rosto e adota o nome de uma carta do baralho. Ah, e, aparentemente, eles se completam. Isso sem contar tudo o que envolve a sociedade profundamente adoecida daquela cidade.

De qualquer forma, o que quero dizer é: a cena que me deixou apaixonado pelo cinema encontra-se em Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), dirigido por Christopher Nolan e estrelado por Christian Bale e Heath Ledger.

A cena em específico é a cena do interrogatório.

Desde muito novo, aquela cena sempre me prendeu. Já vi esse filme mais de cinquenta vezes e essa cena, em especial, incontáveis outras. E, ainda assim, absolutamente todas as vezes em que a assisto, extraio algo de novo. Percebo detalhes que antes me escapavam: pequenos twists no jogo de palavras escrito pelos irmãos Nolan e magistralmente verbalizado e encenado pelo genial Heath Ledger.

São muitas camadas. À primeira vista, pode parecer simplesmente uma cena de interrogatório, assim como tantas outras. Mas, sob um olhar mais atento, ela se mostra um retrato — quase um reflexo num espelho — da ótica sob a sociedade que aquela personagem possui. Não estou aqui para dizer quem está certo ou errado; até porque, em muitos momentos, essas noções e termos se encontram no meio de decisões moralmente ambíguas. O que sei e posso afirmar é que aquela cena é poderosa, cativante, imersiva. A trilha sonora de fundo, a atuação, o texto — tudo conspira.

"I wanted to see what you'd do. And you didn't disappoint me." (“Eu queria ver o que você faria. E você não me decepcionou.”)

É assim que o Coringa inicia seu monólogo. À primeira vista, pode soar como o tradicional discurso de vilão contra mocinho — "ah, eu te conheço, sei o teu próximo passo" blá-blá-blá. Contudo, ali reside algo maior, mais profundo. É o primeiro momento em que temos real noção de que aquele homem, o palhaço louco, compreende quase que perfeitamente a mente do nosso protagonista.

Sob determinada ótica, talvez eles realmente tenham algo em comum. Aquele homem, excluído da sociedade, tratado como ameaça durante, bom, chuto aqui que boa parte de sua existência, parece entender melhor do que ninguém o que se passa na cabeça do órfão bilionário que passa suas noites se vestindo de morcego para tentar corrigir uma injustiça que seus pais não tiveram chance de evitar naquela noite saindo do teatro.

“Don't talk like one of them - you're not, even if you'd like to be. To them you're a freak like me... they just need you right now. But as soon as they don't, they'llcast you out like a leper. Their morals, their code... it's a bad joke. Dropped at the first sign of trouble. They're only as good as the world allows them to be. You'll see - I'll show you... when the chips are down, these civilized people... they'll eat each other. See, I'm not a monster... I'm just ahead of the curve.” ("Não fale como um deles - você não é, mesmo que gostasse de ser. Para eles, você é uma aberração como eu... eles só precisam de você agora. Mas assim que não precisarem mais, vão expulsá-lo como se fosse um leproso. A moral deles, o código deles... é uma piada de mau gosto. Abandonados ao primeiro sinal de problema. Eles só são bons na medida em que o mundo permite que sejam. Você vai ver - eu vou te mostrar... quando a coisa ficar feia, essas pessoas civilizadas... vão se devorar umas às outras. Veja, eu não sou um monstro... só estou à frente da curva.”)

Eu não preciso lembrá-lo, caro leitor, de como o filme termina, não é? E sim, tem todo aquele discurso memorável do Gordon, carregado de significado. Porém, como diz o ditado, dê a César o que é de César: o filme termina exatamente como Coringa disse que as coisas "terminariam" para o Batman. Sendo perseguido pelas mesmas pessoas que ele tentou salvar. Tratado como uma aberração, um leproso.

E, covenhamos, não é apenas a sociedade de Gotham que se revela doente. Essa perspectiva, essa leitura, pode servir também para observarmos o cenário do “povo de bem” no nosso Brasil varonil e na sociedade na Terra do Tio Sam nos últimos anos. No fim das contas, a lição é clara: as pessoas só são civilizadas enquanto isso lhes convém.

E isso é o suficiente para notarmos que esse texto é muito mais do que um simples diálogo de interrogação entre herói e vilão. São duas perspectivas de mundo em colisão. De um lado, alguém que já perdeu completamente a fé na sociedade, nas pessoas, no tão desejado bem-estar social. "Some men just want to watch the world burn." Do outro, alguém que, mesmo à sua maneira torta, ainda acredita. E isso se manifesta, sobretudo, na figura de Jim Gordon. Mas isso é caso para outra oportunidade.

O ponto é simples: a sociedade, assim como a vida, é complexa, instável e contraditória. Cabe a você escolher como observá-la.

Parafraseando o próprio Coringa de Heath Ledger, eu não poderia não citar essa cena, afinal de contas, "what would I do without..." it.
Ela me completa — assim como tantas outras cenas de tantas obras. Mas, hoje, essa foi a escolhida.

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