O ser humano épico nos filmes de Noah Baumbach
DireçãoÉ fácil se ver em um filme de Noah.

O diretor novaiorquino Noah Baumbach é constantemente referenciado, em entrevistas, críticas e reportagens, como “o novo Woody Allen”, por seus filmes trazerem uma temática e estilo similares ao do clássico (e polêmico) diretor — o amor por Nova York e pessoas lidando com seus conflitos internos, cotidianos e contemporâneos. Baumbach já declarou em uma entrevista à revista online The Talks que Allen influenciou seu trabalho no filme Frances Ha (2012), citando Manhattan (1979) e Memórias (1980) como referências diretas, não apenas pela fotografia em preto e branco, mas pelo fato de esses filmes serem
“[…] na verdade, apenas pessoas que dormem umas com as outras e tentam perceber as suas vidas. Mas há algo na realização do filme e na sua abordagem que o faz parecer quase épico. E, em última análise, as preocupações dessas pessoas são épicas” (THE TALKS, 2013, online, tradução nossa¹).
Essa “épica” a qual Baumbach se refere é presente em Frances Ha, e em seus demais trabalhos, como A Lula e a Baleia (2005), O Solteirão (2010), Enquanto Somos Jovens (2014), Mistress America (2015) e História de um Casamento (2019), por exemplo. Os conflitos cotidianos que as pessoas enfrentam parecem provocar um interesse especial no diretor, visto que são temas recorrentes em seus filmes. Um divórcio, uma crise de criatividade, inseguranças da idade (seja na adolescência ou aos quarenta), a busca pela tão sonhada carreira… Todos esses temas citados (e muitos outros) atraem Baumbach, que os apresenta ao espectador de forma leve e cômica através de personagens “[…] intensamente perceptivos sobre o mundo que os rodeia, mas incapazes de processar as suas próprias emoções ou o efeito que podem ter nos outros” (THE QUIETUS, 2015, online, tradução nossa²), levando, também, ao processo épico de se entender e se encontrar no mundo.
Quando pensamos em histórias épicas, seja no cinema, no teatro ou na literatura, sempre imaginamos narrativas longas, grandes heróis, grandes conflitos, grandes eventos reais ou ficcionais que contam a história de um povo e atravessam gerações. Nessas histórias,
“[…] a preocupação do autor não está em mostrar sentimentos ou estados de espírito. O foco de interesse dele é apresentar os fatos como se eles tivessem vida própria, independentemente daquele que os conta. […] A objetividade do gênero épico consiste no afastamento do eu interior e na consequente aproximação da realidade externa. […] Não importa o que ele sente, mas o que ele mostra.” (FILHO, [s.d], p. 83).
Além disso, nas histórias épicas, “As grandes personagens […] não desempenham uma função individual […]” (FILHO, [s.d], p.85), visando sempre o coletivo. Não é o caso dos personagens escritos por Noah Baumbach, então por que ele define os conflitos pessoais e contemporâneos como épicos, se eles destoam do que conhecemos como tal? Se pararmos para pensar que, apesar de seu estilo narrativo grandioso, as histórias épicas nada mais são do que narrativas sobre a condição, as ações e a evolução do ser humano, Baumbach não está errado ao enxergar a puberdade ou a busca por uma carreira, por exemplo, como algo grandioso — Emil Staiger, historiador e escritor, escreveu que “o valor do rememorar épico […] é justamente […] vencer a terrível inconstância dos homens e das coisas” (STAIGER, 1975, p.80 apud FILHO, [s.d], p.87). Do mesmo jeito que A Ilíada nos apresenta as guerras entre gregos e troianos, em História de um Casamento (2019) acompanhamos o divórcio turbulento de Charlie e Nicole. Ulisses teve sua jornada de volta para casa em A Odisséia, enquanto Frances teve sua jornada para se tornar coreógrafa e uma “adulta de verdade”.
Apesar de os personagens do diretor serem pessoas brancas da classe média nova iorquina — o que lhe rende críticas e pode, muito bem, ser uma espécie de autobiografia -, os conflitos internos não se restringem somente a esse grupo social, possibilitando que mais espectadores se vejam na tela. Os personagens de Baumbach “[…] têm medo: da solidão, do fracasso, de não serem capazes de comunicar os seus mundos interiores aos que os rodeiam. (THE QUIETUS, 2015, online, tradução nossa³). E ele possui a habilidade de pegar esses medos e lhes dar a importância que eles realmente têm e a visibilidade que merecem — torná-los épicos. E o tato do diretor melhora quando a vulnerabilidade e a delicadeza de Greta Gerwig, sua colaboradora desde O Solteirão (2010) e sua esposa, entram em cena. A parceria desenvolvida pelo casal permite ao público o acesso a personagens cada vez mais “reais” — onde os personagens de Noah pensam demais, Greta os dá um toque de apenas viver o processo (THE QUIETUS, 2015). E as pessoas nada mais são do que um misto de ambas essas características.
É fácil se ver em um filme de Noah. Ele conhece os impasses vividos pelas pessoas no dia a dia e sabe como explorá-los e retratá-los, lhes dando, como já mencionado, sua devida importância. Ele não descreve seus trabalhos como autobiográficos, mas sim como pessoais, pois o que estamos vendo na tela não é um capítulo de sua vida, mas as emoções que permeiam os eventos que estamos assistindo. “Se há uma coisa que Baumbach já provou vezes sem conta é que está interessado no Agora, sempre pronto a olhar para a forma como novas pessoas lidam com a mesma velha tristeza” (THE QUIETUS, 2015, online, tradução nossa⁴). O espectador pode perceber o filme com o qual mais se identifica como um “abraço” e, até mesmo, uma forma de consolo e apoio — você não está sentindo isso sozinho e as coisas vão se resolver.
Os épicos de Baumbach são intimistas e em sua maioria de curta duração, mas não deixam de apresentar histórias vividas por pessoas fortes e por gerações. Não é fácil se entender e se encaixar em um mundo que nos impõe cobranças, resultados e metas nos âmbitos pessoal e profissional todos os dias e o diretor é capaz de representar bem essas questões. “O espectador sente-se valorizado não só pelas outras personagens das histórias, mas também pelo próprio Baumbach” (LIVERETT, 2021, online, tradução nossa⁵). Baumbach se importa com a vida real e quer trazê-la, com atenção e cuidado, para sua audiência. As emoções e vivências cotidianas têm seu espaço nas grandes telas. São de verdade e isso significa muito para o diretor. E, considerando-as épicas, elas são significativas a todos os indivíduos.
Ensaio feito para a disciplina de Análise e Crítica de Filmes do curso de Cinema e Audiovisual da PUC Minas.
¹[…] is really just people sleeping with each other and trying to figure out their lives. But something about the filmmaking and the approach to it makes it feel almost epic. And, ultimately, the concerns of those people are epic.
² intensely perceptive about the world around them but unable to process their own emotions, or the effect they might have on others.
³[…] is scared: of loneliness, of failure, of not being able to communicate their inner worlds to those around them.[…]
⁴If there’s one thing that Baumbach has proved time and again it’s that he’s interested in the Right Now, always ready to look at how new people deal with the same old sadness.
⁵The viewer feels valued by not only the other characters in the stories but by Baumbach himself.
REFERÊNCIAS
BARBIERI JR., Miguel. Mistress America. Veja São Paulo. Filmes. 2015. Disponível em: <https://vejasp.abril.com.br/atracao/mistress-america/>.
BRIGHAM, Armando. A Tribute to Noah Baumbach: A Modern Auteur. Hollywood Insider. 28 de fevereiro de 2021. Disponível em: <https://www.hollywoodinsider.com/noah-baumbach-tribute-auteur/>.
FILHO, Antonio Cardoso. O GÊNERO ÉPICO. Aula 7. Teoria da Literatura I. Disponível em: <https://cesad.ufs.br/ORBI/public/uploadCatalago/08304114112014Teoria_da_Literatura_I_Aula_7.pdf>.
HOWARD, Adam. Life Is Wasted On People: Loneliness, Sincerity And Noah Baumbach. The Quietus. Film Features. 15 de agosto de 2015. Disponível em: <https://thequietus.com/articles/18536-noah-baumbach-revisited>.
LIVERETT, Nicholas. Noah Baumbach and Emotional Authenticity. The Shenandoah Film Collaborative. Blog, Film Analysis. 22 de novembro de 2021. Disponível em: <https://strasburgfilm.com/noah-baumbach-and-emotional-authenticity/>.
THE TALKS. NOAH BAUMBACH: “YOU CAN’T GET AWAY FROM YOURSELF”. 2013. Disponível em: <https://the-talks.com/interview/noah-baumbach/>.












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